Todo gay é uma fada madrinha em potencial?
É verdade que todo gays entendem de moda e senso estético? Se for, de onde vem esta conexão?
atualizado
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Investigar a base dos preconceitos e estereótipos é primordial para a compreensão de uma pessoa ou um grupo. Foi com este pensamento em mente que uma pergunta capciosa surgiu: é verdade que os gays sacam muito de moda e senso estético? Se for, de onde vem esta conexão? Quem foi o primeiro que disse que gay entende de moda?
Eu saí por aí perguntando o porquê das pessoas pensarem isso. Falei com fotógrafos, modelos e estilistas e a resposta foi que gays entendem sim muito de moda, mas ninguém sabe porquê. Olha que louco! Que gays são criativos, se vestem bem, têm todo um cuidado com a aparência a tal ponto que muita gente fica na dúvida quando um rapaz está bonito ou bem arrumado demais. “Ele deve ser gay”.
Homens héteros não conquistaram ainda a liberdade de ousar nas cores das roupas. Nas formas então, nem pensar. É tão raro, e tão bonito, ver um rapaz hétero que se mostra disposto a ir além da camisa de botão dobrada na manga e da polo. Só nós conquistamos o direito de nos olharmos no espelho e pensar que a gente pode realçar nosso corpo? Esta liberdade, claro, pode chegar no extremo do exagero e romper o limite do estético, atingindo o efeito contrário do pretendido, mas tudo bem, lições do artpop. Aprende e na próxima vez faz diferente.
A sociedade brasileira entende que há uma proximidade entre o gay masculino e a mulher hétero em vários aspectos, inclusive a interação com o mundo fashion. É para eles – gays e mulheres – que é voltado o mercado da moda, que envolve grifes, estilistas, tendências. E não se esqueça que é um mercado que gira muito dinheiro.
Agora, só para demonstrar que esta relação não necessariamente está em todo o planeta, na Itália, moda é coisa de hétero – e muito hétero
A influência feminina na cultura gay, num pedestal que quase a transforma em modelo a ser seguido, é uma característica particular da nossa época e da leitura que o nosso passado recente fazia a respeito da homossexualidade masculina. A sociedade brasileira incentiva a sensibilidade feminina, ao mesmo tempo que a chama de “frescura”. Logo, a equação social é simples: gays são homens que se aproximam demais do lado feminino, portanto devem ser bons em lidar com o que elas claramente manjam, como a moda.
Ser gay não significou a mesma coisa ao longo da história da humanidade. Se hoje a homossexualidade, especificamente a masculina, é entendida como “feminização” do homem, na Grécia antiga, um homem ter um envolvimento sexual com outro significava excesso de masculinidade. Era como se o sujeito fosse tão homem que iria para a cama com outro homem e as relações sexuais e amorosas entre esses caras eram incentivadas sobretudo nos exércitos em guerra como forma de manter a tropa coesa.
Dependendo do país e da época, a homossexualidade ganha contornos religiosos (há culturas que homossexuais e transgêneros são seres que mantém contato com o divino), de estrutura social, artísticos ou amaldiçoados, como a nossa já foi. Entretanto, o que todas elas têm em comum é o que alguns estudiosos chamam de cultura gay.
Esta cultura que muitos buscam mapear é as informações que são apreendidas quando alguém se diz atraído por pessoas do mesmo sexo. Por exemplo, pode observar que homens gays ouvem determinado tipo de música, gostam de se vestir de determinada maneira, falam de determinado modo específico e, caso você seja gay e não segue alguma destas regras, não faz diferença, porque são padrões observáveis. Não se trata de quem quer se mostrar mais discreto, machão ou fora do meio.
Na verdade, um gay que se esforça para se mostrar diferente da regra fala muito sobre a opressão da sociedade em que vive também.
Aos gays na sociedade brasileira foi relegado o âmbito criativo e senso estético? Parece que sim, mas não vejo razão para eliminarmos o nosso direito de sermos criativos e sensíveis. Muito melhor é conquistar mais direitos sem perder os que já tem.
