Perguntas que não se devem fazer a um LGBT

Questionar quem é o homem ou a mulher da relação, por exemplo, soa ofensivo e pode revelar o preconceiro escondido nessa ideia

atualizado

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Um conhecido, que está namorando, relatou no bar a situação megaconstrangedora que viveu com a irmã dele, recém-convertida a uma igreja neopentecostal. A garota – que, em geral, se dá bem com o irmão gay, mas não perde a oportunidade de alertá-lo das cartas de São Paulo sobre homens que se deitam com outros homens como se fossem mulheres – lhe fez uma das piores perguntas que se pode fazer a respeito de um casal:

– Me fala uma coisa: quem é o homem da relação? Você ou o fulano?

– Como assim quem é o homem?, indagou, apesar de já estar acostumado a ouvir aquele tipo de dúvida.

– É, quem faz o papel do homem e quem faz o da mulher?

Tentando não dar uma resposta grosseira, ele optou pela saída mais diplomática:

– Eu imagino que você não está querendo saber quem é o ativo e quem é o passivo, né?

– Não, não.

– Na verdade, não existe o homem e a mulher da relação. Eu estou com ele porque ele é um homem e ele está comigo pelo mesmo motivo. Somos homens que querem viver com outros homens. Se eu estivesse com alguém que é uma mulher, então eu seria um heterossexual, certo?

– Tá, mas você não entendeu minha pergunta. Vamos tentar de outra forma. Quem lava a louça?

– Como assim quem lava a louça? Ele lava a louça. Isso faz alguma diferença?

– Olha aí, tá vendo? Ele que lava a louça. Agora entendi.

– Quem não está entendendo nada sou eu. Que diferença faz quem lava a louça?

– Você só pode estar fingindo que não está entendendo. Por exemplo, por que é ele que lava a louça?

– Porque ele gosta de lavar a louça, diz que desestressa ele, só isso. Acho que você está confundindo as coisas.

– Não estou confundindo nada. Quer ver? Olha só, quem é que lava o banheiro?

– A diarista.

– Ah, desisto.

E ela saiu pisando duro, com raiva por não ter chegado à conclusão que queria, chateada provavelmente com o fato de não poder por CQD (como queríamos demonstrar) no final das suas observações, como fazia após os cálculos nas provas de matemática.

O problema das ideias pré-concebidas é que é tentador tentar encaixar a realidade dentro delas, quando deveríamos, na verdade, observar os fatos para comprovar sua veracidade. É preciso perceber o momento em que precisamos partir em busca de uma nova resposta. Afinal, é melhor ter uma falsa resposta do que resposta nenhuma? Acredito que não.

Imaginar que os únicos papéis a serem desempenhados em uma relação são o de homem ou mulher – e que há papéis estabelecidos pelo gênero, como o de lavar a louça – também é afirmar que um só existe diante do outro. Isso nos leva a fazer as perguntas da jovem incauta. Enquanto os conceitos de orientação sexual, sexo biológico, gênero e afetividade estiverem misturados neste caldeirão, que coloca tudo numa mesma tábula rasa, os fatos da vida vão soar dissonantes com as regras.

Portanto, leitor, favor nunca perguntar quem é o homem e a mulher da relação a nenhum casal gay. A cordialidade manda lembranças.

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