Este Carnaval foi de luta e resistência: ao contrário do que dizem

Grupos LGBTs e outras minorias puderam expor suas bandeiras e lutas durante a folia

JP Rodrigues/MetrópolesJP Rodrigues/Metrópoles

atualizado 11/03/2019 16:26

Eu ainda não sei como descrever o que foi meu Carnaval. Talvez a expressão “resistência” seja a melhor definição. O “ninguém solta a mão de ninguém” era perceptível nos olhares e atitudes das pessoas. Jamais esquecerei.

Quem já brincou Carnaval nas ladeiras de Olinda conhece a fama da rua 13 de Maio, ou rua dos frangos – no Pernambuco, gay é chamado de frango. Lá era o lugar onde era livre o beijo entre pessoas do mesmo gênero, mas só lá! Eu digo “era” porque, neste Carnaval, os limites foram totalmente quebrados (mas não da forma como o presidente pensou).

Ao descer do ônibus, já se viam os casais de homens e mulheres de mãos dadas. A paquera rolava em qualquer rua. Muitos muitos muitos beijos. Bandeiras do arco-íris usadas por todos, inclusive héteros. Me lembrou o movimento na época da aprovação do casamento igualitário nos EUA, em que uma leva de gente saiu colocando filtros coloridos nos seus avatares.

Se tivessem me dito que um dia o Carnaval seria assim, eu não acreditaria! E se me falassem que este Carnaval seria assim, eu teria apostado uma grade de cerveja e perdido. Morto de feliz em perder, mas teria sido derrotado.

Exercer sua liberdade virou postura afirmativa de resistência. As marchinhas tirando onda com quem era contra o que acontecia ali só aumentavam a folia e a força pela luta. E se você acrescentar o desfile campeão da Mangueira, a eleição do Bloco das Montadas em Brasília como o melhor do ano e mais todas as manifestações lembrando o assassinato de Marielle Franco não dá para negar a união entre o Carnaval e a resistência!

Se o Brasil oficial anda discutindo o que é golden shower – como resposta tresloucada às demonstrações de sua reprovação –, o país real, mais belo e consciente do seu papel, sabe que a folia momesca transforma, inclusive, sua dor em canto, música e fantasia. Agora eu sei: não estou lutando sozinho. E você também não está.

Especial
Está rolando o crowdfunding para o documentário A Cigana, sobre Benício Bem, artista trans piauiense. É uma figura conhecida na noite de Teresina, que toca em bares e outras concentrações culturais da capital. Ele tem uma relação com a música que ultrapassa as barreiras do terreno.

Sempre trajando roupas coloridas inspiradas na cultura cigana, com toques da indiana/egípcia, seu trajar dá margem para situações agradáveis, e outras nem tanto. Para conhecer melhor a personagem e como ajudar, só clicar no link.

Últimas notícias