American Crime Story: Versace é tratado sobre universo gay dos anos 90

Temporada recém-encerrada narra a vida de Andrew Cunanan, assassino em série que matou o famoso estilista italiano

FX/Divulgação

atualizado 27/03/2018 22:12

Semana passada foi ao ar o último episódio de The Assassination of Gianni Versace: American Crime Story, série que conta o assassinato do famoso estilista. Nessa versão, ela foca a história de Andrew Cunanan, o assassino. Mas, para mim, nessa temporada, o produtor Ryan Murphy fez um verdadeiro tratado sobre a homossexualidade norte-americana de 20 anos atrás.

Regredindo no tempo episódio a episódio, a série começa com o assassinato e, a cada novo capítulo, conta um momento na vida de Andrew – até chegar à sua infância, tentando entender como nasce um maníaco fruto do adubo que alimenta o american dream. De mãe italiana e pai filipino, as altas expectativas sobre Andrew o fazem cair das nuvens para o violento impacto de encontro com o solo.

Por isso, o famoso estilista se torna objeto do seu ódio e entra na mira da sua arma (além de mais quatro pessoas ao longo do caminho). Também imigrante, foi vencedor onde o outro tinha tudo para se dar mal. Até o fato de Versace assumir sua homossexualidade e conseguir superar o preconceito, numa época em que celebridades não saíam do armário, guarda relação com os motivos do assassino.

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Todo episódio tem uma cutucada em algum aspecto sobre ser gay nos EUA. Logo de cara, por exemplo, o preconceito e descaso da polícia de Miami ao tratar o crime como “coisa de veado”, devendo envolver drogas e garotos de programa – portanto, era de se esperar que ele morresse daquela forma. O companheiro de Gianni há 15 anos, interpretado por Ricky Martin, é tratado simplesmente como alguém pago para realizar os desejos sexuais de um velho pervertido, descartando-se qualquer possibilidade de relacionamento amoroso ou constituição de família naquela casa fabulosa.

Sem contar o episódio em que Versace decide falar sobre sua homossexualidade e a longa relação com Antonio. Donatella – irmã, musa e braço direito na companhia – foi inteiramente contra. Ela justifica sua posição através da empresa: isso traria prejuízos incalculáveis, podendo levar até à falência. A circunstância fica naquela zona cinzenta, na qual é impossível definir o real motivo da sua crítica: se por homofobia internalizada ou preocupação com toda a lama que a imprensa jogaria sobre seu tão amado irmão.

No episódio Don’t Ask, Don’t Tell, a homossexualidade é o tema central. Sob a ótica dessa política, que na época foi apresentada como libertadora para os LGBTs dentro do exército norte-americano, o roteirista da série questiona: libertadora para quem? Não se fala sobre o assunto, não se dividem as alegrias ou tristezas como os outros oficiais que constituem famílias heterossexuais. E assim reproduzimos opressões e produzimos mais casos de injustiças.

No balanço final, além de uma bela homenagem ao artista que Gianni Versace foi, Murphy trouxe um retrato diverso e complexo da homossexualidade naquele país, o qual acaba sendo bem parecido com qualquer lugar do Ocidente.

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