Amar é construir: LGBTs têm muito o que comemorar no Dia das Mães

Data também merece ser lembrada pelos significados especiais que a maternidade adquire no mundo gay, drag e trans

atualizado 06/05/2019 23:18

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Neste domingo, 12 de maio, é Dia das Mães, e nunca a distância entre maternidade e vivência LGBT foi tão curta. Por tanto tempo se disse que dois iguais não formam família. As ciências e o entendimento jurídico estão aí para provar que, mais do que “mãe é quem cria”, a nova ordem é “mãe é quem ama”.

Há muito que novelas e filmes me ensinaram que esta história de que amor de mãe é algo natural e surge magicamente no coração da mulher é pura balela. Esse é um amor construído tanto quanto qualquer outro, mas nem por isso ele é menos poderoso – ouso até dizer milagroso – quanto a mais louca ficção nos conta.

Quem já teve contato com LGBTs que foram expulsos de casa sabe: a quase totalidade deles fala da sensação de solidão deixada pela ausência da família, sobretudo das mães. Não à toa, o incrível grupo Mães Pela Diversidade tem um trabalho que é uma espécie de “adote uma mãe”. Quando você sentir carência pela falta da mãe, elas se propõem a te dar o mais puro carinho. Diversas vezes, esse ato retira essas pessoas do fundo do abismo depressivo ou suicida e lhes dá forças para acreditarem em si novamente. Papel que, sem dúvida, é esperado de uma mãe.

(Só lembrando que este texto não retira nem um centímetro da responsabilidade do pai na relação familiar. Ambos têm o mesmo dever da parentalidade. É apenas a louvação da parte homenageada na data.)

Sem contar que se tornar mãe para famílias LGBTs já é uma realidade, seja: por adoção, com o nome de ambas as mães na certidão de nascimento; por inseminação artificial; ou, até mesmo, por meio de um casal que começou sendo de um pai e uma mãe e, em determinado momento, se percebe como duas mães por causa da transgeneridade.

Não podemos esquecer uma espécie muito particular de mãe, mas tão importante quanto as outras: a drag mama. Não é por coincidência que casas de drag queens se estruturam de forma familiar e a chefia é de uma “mãe drag”. Geralmente seus componentes foram expulsos das famílias de nascença e encontraram amor e proteção junto a estas famílias por opção. Há um juramento de lealdade e obediência por parte do indivíduo em troca de proteção, provimento e carinho maternal por parte da mãe, que é uma espécie de rainha. Estas também merecem ser homenageadas no domingo.

Hoje as mães não são mais apenas mulheres a chorar em silêncio quando seus maridos expulsaram filhos e filhas de casa por sua sexualidade ou gênero. Na verdade, elas nunca foram só isso, mas, por bastante tempo, assim foram retratadas injustamente.

E, como exemplo, rememoro uma das histórias mais bonitas que já escrevi na coluna, sobre uma mãe que, ao ter seu filho expulso de casa, começou a fazer artesanato com as cores da bandeira LGBT para poder sustentá-lo. Termino esta coluna com a dedicatória final do filme que, por muito tempo, foi para mim a verdadeira definição do que é ser mãe, Tudo Sobre Minha Mãe (1999), de Pedro Almodóvar:

A Bette Davis, Gena Rowlands, Romy Schneider… A todas as atrizes que interpretaram atrizes, a todas as mulheres que atuam, aos homens que atuam e se tornam mulheres, a todas as pessoas que querem ser mães. À minha mãe

Especial
A Kimonos Dojo, mais tradicional marca de artigos para artes marciais no Brasil, criou uma faixa com as cores do arco-íris. A Faixa da Resistência terá sua renda revertida para uma casa que acolhe pessoas trans, a Tran Sol. A intenção é lembrar os índices de mortes da população LGBTQIA+ no Brasil, país que mais mata essa comunidade no mundo.

A Dojo, por meio do site http://www.faixadaresistencia.com.br, também oferece a possibilidade para a população LGBTQIA+ aprender alguns movimentos de defesa pessoal e enfrentar situações de emergência. Entre os professores das videoaulas está Camila Godoi, mulher trans que pratica o taekwondo há 24 anos anos e ensina essa arte marcial há 13. Conquistou a Copa Mercosul, campeonatos Brasileiro e Paulista, e a medalha de bronze na Copa do Mundo (Buenos Aires, 2013).

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