Influencers usam sorteio de iPhone como isca para divulgar bets

Influenciadores atraem seguidores com sorteios que levam ao cadastro em casas de apostas

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1 de 1 nathalia-valente-se-prepara-para-entregar-iphones-sorteados-pelo-instagram - Foto: Reprodução/Instagram

No último domingo (25/1), a influenciadora Nathalia Valente entregou iPhones a duas seguidoras vencedoras de um sorteio. A cena, comum nas redes sociais, ganhou outros contornos quando se observou a dinâmica adotada para a participação.

Inicialmente, a jovem de 22 anos anunciou o sorteio em seu perfil no Instagram. Para concorrer, os interessados deveriam enviar a palavra “iPhone” por mensagem direta. Após o contato, os seguidores passaram a receber áudios e mensagens automáticas com instruções.

Para participar, era necessário ter mais de 18 anos e se cadastrar em um link enviado individualmente pelo perfil da própria Nathalia. O endereço direcionava para o site da SuperBet, uma famosa casa de apostas.

Em seguida, os participantes eram orientados a realizar uma aposta mínima de R$ 15 para manter a conta ativa na plataforma. Em nenhum momento, no anúncio inicial do sorteio, havia menção explícita à divulgação da bet. 

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Mecanismo de sorteio de iPhones divulgado por Nathalia Valente
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Mecanismo de sorteio de iPhones divulgado por Nathalia Valente

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Mecanismo de sorteio de iPhones divulgado por Nathalia Valente

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Prática semelhante foi identificada em outros perfis, como os do ex-BBB Arthur Picoli e de WL Guimarães. Nas redes sociais, seguidores chegaram a levantar a hipótese de invasão das contas, já que as publicações foram apagadas pouco depois. Os dois influenciadores foram procurados para comentar o caso, mas não se manifestaram até a publicação desta matéria.

Ana Vitória, de 18 anos, foi uma das seguidoras que seguiu o passo a passo para concorrer ao iPhone anunciado por Nathalia Valente. Prints compartilhados por ela mostram que, mesmo nas mensagens privadas, não havia qualquer menção à SuperBet.

“Em nenhum momento ela especificou o que era o link, ela só pediu para eu entrar. Eu entrei e vi que era uma casa de apostas, uma bet. Como ela não tinha pedido para apostar, eu me cadastrei”, relatou.

O pedido para realizar a aposta veio depois. A influenciadora solicitou um lance mínimo de R$ 15 para que a conta permanecesse ativa. O texto com as regras do sorteio é ambíguo e não deixa claro se a aposta era apenas para manter o cadastro ou para validar a participação.

Celyne Rodrigues, de 24 anos, também se interessou pela chance de ganhar o celular, avaliado em mais de R$ 8 mil. Diferentemente de Ana, ela não chegou a apostar. “Eu fiquei indignada, porque há pouco tempo ela tinha ido para África para fazer serviço solidário e depois está pedindo dinheiro para casa de aposta”, afirmou.

Apesar de terem interrompido o processo em momentos distintos, as duas jovens relatam nunca ter tido contato prévio com apostas on-line. O caso chama atenção por atingir um público potencialmente novo em um mercado no qual 42% dos apostadores acabam endividados, segundo levantamento do DataSenado de 2022.

Regularização

O sistema de apostas on-line foi regulamentado no Brasil pela Lei nº 14.790, de 2023, e por portarias que orientam a atividade no país. Para o advogado Luiz César Martins Loques, autor do livro A Regulação do Mercado de Apostas, a estratégia de Nathalia pode ser considerada abusiva.

“Quando ela vincula essa possibilidade de sorteio a fazer o cadastro na casa de apostas, ainda que ela seja regulamentada, isso é o que a gente chama de prática abusiva com o consumidor”, afirmou.

A equipe jurídica de Nathalia Valente declarou que o conteúdo publicitário foi realizado “nos moldes usualmente praticados no mercado digital” e que não houve solicitação ou recebimento de valores por parte da influenciadora. A SuperBet foi procurada, mas não se manifestou até o momento.

Como referência, Loques cita o Código de Defesa do Consumidor (Lei nº 8.078, de 1990), que define como publicidade enganosa aquela que, mesmo por omissão, é capaz de induzir o consumidor a erro quanto à natureza do produto ou serviço.

O advogado também destaca a ausência de recibos ou de retorno formal aos concorrentes do prêmio. “Ela fazia o cadastro na casa de aposta e nunca mais tinha retorno sobre isso [o sorteio]”, pontuou.

Além da falta de transparência nas regras, o anúncio das vencedoras também gerou questionamentos. As duas ganhadoras, que estão entre os mais de 10 milhões de seguidores da influenciadora, moram na mesma cidade de Nathalia Valente e a poucos minutos de distância uma da outra.

A defesa da influenciadora afirmou que a ação não teve relação com apostas. Segundo a nota, tratou-se de uma doação.

“De forma independente e voluntária, foram doados dois iPhones a duas pessoas, que não mantêm qualquer vínculo pessoal com a influenciadora, como gesto pontual, sem qualquer vínculo com apostas, depósitos ou contrapartidas econômicas”, diz o comunicado.

Para Loques, o modelo ideal para esse tipo de ação é o chamado sorteio passivo, com regras publicadas e divulgação pela Caixa Econômica Federal. “Toda regra de sorteio dessa forma tem que ser publicada. A Caixa Econômica não organiza, mas é ela quem divulga o resultado”, explicou. “Senão, ela pode colocar a prima dela para ganhar e ninguém vai saber.”

Em maio de 2025, o Senado aprovou um projeto de lei que cria regras para publicidade relacionadas às apostas. O texto, que foi enviado à Câmara dos Deputados, proíbe que atletas, artistas e influenciadores participem de peças publicitárias.

Proteção

Com a expansão recente das casas de apostas, a regulamentação do setor ainda passa por ajustes. Um dos principais problemas apontados por Loques é uma “falha regulatória” que não impede totalmente que menores de idade tenham acesso à divulgação de bets.

Imagem colorida mostra plataforma de aposta em bets. Metrópoles

Ainda assim, existem mecanismos de proteção. O Ministério da Fazenda oferece um sistema de autoexclusão para quem deseja bloquear o próprio acesso a casas de apostas autorizadas por um período mínimo de um mês.

O recurso busca auxiliar no autocontrole e pode prevenir problemas financeiros ou de saúde. “Uma vez excluído, você não deve mais receber propaganda. Se continuar recebendo, o recomendável é procurar a Defensoria Pública ou um advogado para processar a casa por publicidade reiterada sem desejo”, explicou Loques.

Especialistas também recomendam cautela nas redes sociais. Para Lucas Karam, advogado especialista em Direito Digital, é fundamental desconfiar de links que solicitem pagamentos ou dados pessoais.

“Se é necessário clicar no link e realizar alguma inserção de informação ou algum pagamento. Essa é a principal isca na maioria dos golpes aplicados”, alertou.

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