Abusada diversas vezes durante a infância por pastores da igreja que frequentava, a ministra da Mulher, Família e Direitos Humanos, Damares Alves, fez um apelo para que mulheres vítimas de violências sexuais cometidas por João Teixeira de Faria, o João de Deus, denunciem os crimes. O médium era líder da Casa Dom Inácio de Loyola, na cidade de Abadiânia (GO), e é réu quatro vezes por crimes sexuais, ameaça e posse ilegal de arma de fogo. 

O pedido da ministra foi feito em encontro, nesta quinta-feira (21/2), com a força-tarefa de promotores do Ministério Público de Goiás (MPGO) que investiga as acusações contra o médium. O procurador-geral de Justiça de Goiás, Benedito Torres Neto, também recebeu a ministra. Até o momento, foram registradas mais de 300 denúncias contra o líder religioso, que está preso desde o dia 16 de dezembro de 2018 no Complexo Prisional de Aparecida de Goiânia (GO). 

Dos relatos de abusos sexuais, 170 foram formalizados junto a promotores. Os casos aconteceram de 1973 a 2018. Entre as vítimas identificadas, há 15 meninas com idades entre 0 e 13 anos que teriam sido abusadas.

A ministra classificou o número como “mais um recorde amargo que esta nação vai ter que ostentar” e se comprometeu a acompanhar o desenrolar das investigações. 

Intimidação
Segundo o MPGO, a reunião foi solicitada por Damares, que teve acesso a um relatório completo sobre o trabalho que vem sendo feito desde dezembro de 2018 em relação a João de Deus. A ministra se mostrou preocupada com a segurança das mulheres que decidiram quebrar o silêncio e perguntou ao promotor Luciano Miranda, coordenador da força-tarefa, se havia casos de intimidação

“No momento, por ele estar preso, dificulta essa intimidação. Mas é muito frequente que se chegue a relatos do poder intimidatório que ele exerce, direta ou indiretamente. Há casos concretos em que ele foi atrás das vítimas, inclusive com pessoas armadas”, relatou Miranda.

Damares questionou, logo depois, se havia conivência de outras pessoas nesses abusos sexuais. “A investigação caminha no sentido de que existe, na verdade, uma rede de proteção que inclui várias pessoas, inclusive algumas autoridades”, afirmou o promotor.

Aproveitando que as câmeras estão voltadas para esta ministra – uma ministra que, talvez vocês saibam, [foi] vítima da violência – e que o autor da violência também era um sacerdote, um líder religioso, queria mandar um recado. Se tem alguma mulher no Brasil ou fora do Brasil vítima desse agressor que não teve coragem de se pronunciar, se pronuncie"
Damares Alves, ministra da Mulher, Família e Direitos Humanos
Filipe Cardoso/Especial para o Metrópoles

João de Deus foi preso após centenas de denúncias