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Turismo

Multipropriedade fortalece a economia e supera R$ 100 bilhões em valor

Modelo de propriedade compartilhada impulsiona novos destinos turísticos e amplia acesso a imóveis de lazer

29/07/2026 11:25, atualizado 29/07/2026 11:33
Divulgação
Multipropriedade fortalece a economia e supera R$ 100 bilhões em valor

Imagine ter um imóvel para aproveitar as férias e os feriados sempre que quiser. Embora essa ideia faça parte dos planos de muitos brasileiros, o investimento necessário para comprar e manter uma segunda residência nem sempre acompanha esse desejo.

E foi na busca por alternativas mais atrativas que a multipropriedade ganhou força no mercado imobiliário nacional. O modelo permite que um mesmo imóvel tenha diferentes proprietários, cada um com direito ao uso exclusivo durante períodos previamente definidos ao longo do ano. 

Ao dividir os custos de aquisição e manutenção, a modalidade tornou o acesso a imóveis de lazer mais viável e passou a atender um consumidor que busca conciliar patrimônio, lazer e eficiência financeira.

Os números refletem esse avanço. Segundo o estudo “Cenário do Desenvolvimento de Multipropriedade no Brasil”, elaborado pela Caio Calfat Real Estate Consulting, em 2026, o Valor Geral de Vendas (VGV) potencial do setor ultrapassou R$ 100,5 bilhões.

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o volume efetivamente comercializado chegou a R$ 66,3 bilhões, representando um crescimento de 24,4% em relação ao ano anterior. Além disso, o estoque de frações disponíveis caiu de 42,5% para 34%, indicando maior absorção dos empreendimentos e um mercado que entra em uma fase de consolidação.

O mercado está entrando em uma fase de maturidade. Após um ciclo intenso de lançamentos, o que vemos agora é a absorção desses empreendimentos pelo consumidor. A queda dos estoques mostra que existe demanda consistente.

Caio Calfat, vice-presidente de Assuntos Turístico-Imobiliários do Secovi-SP

O levantamento também aponta que o número de frações imobiliárias chegou a 1,265 milhão, distribuídas em 224 empreendimentos presentes em 99 cidades brasileiras.

Imagem colorida de um infográfico sobre multipropriedade - Metrópoles

Lei garante segurança jurídica 

Embora a multipropriedade já existisse de forma embrionária desde 2012, foi a regulamentação pela Lei nº 13.777, de 2018, que impulsionou definitivamente o desenvolvimento do segmento.

Calfat participou diretamente da elaboração do projeto de lei e explica que o principal desafio estava na insegurança jurídica dos registros imobiliários.

“O maior problema não era a venda do produto, mas a forma de registro. Antes da lei, todos os proprietários respondiam solidariamente pelas obrigações do imóvel. Se um deixasse de pagar, os demais eram responsabilizados”, aponta. 

De acordo com ele, a legislação criou matrículas individualizadas para cada fração, tornando cada proprietário independente dos demais.

Além disso, a lei estabeleceu limites para o fracionamento das unidades, definiu regras para sucessão patrimonial e reforçou a necessidade de operação profissional dos empreendimentos, conferindo maior segurança a incorporadoras e consumidores.

“O mercado se tornou muito mais saudável depois da aprovação da lei”, resume Calfat.

Impacto 

Especialistas afirmam que a importância econômica da multipropriedade extrapola o setor imobiliário e alcança toda a cadeia do turismo.

Para Alejandro Moreno, vice-presidente de Turismo da Associação para o desenvolvimento imobiliário e turístico do Brasil (ADIT Brasil), o potencial de vendas superior a R$ 100 bilhões representa apenas parte do impacto econômico gerado pelo segmento.

Quando o empreendimento entra em operação, há consumo de alimentos, bebidas, serviços, lazer e diversos insumos. O proprietário compra a hospedagem, mas todo o restante acaba gerando demanda econômica adicional.

Alejandro Moreno, vice-presidente da ADIT Brasil

Segundo ele, enquanto hotéis convencionais concentram grande parte da ocupação em férias e feriados, a multipropriedade mantém fluxo contínuo de visitantes ao longo do ano, proporcionando maior estabilidade para a economia local.

Foto colorida de uma família em um hotel - Metrópoles
Buona Vitta Gramado Resort & Spa está entre os empreendimentos de multipropriedade presentes na Serra Gaúcha

Para Ronaldo Costa Beber, CEO da Gramado Parks – grupo que administra multipropriedades na Serra Gaúcha – esse modelo imobiliário tem contribuído para reduzir um dos principais desafios do turismo brasileiro, que é a sazonalidade.

Quem compra uma fração normalmente retorna todos os anos ao mesmo destino. Quando não utiliza sua semana, empresta para familiares ou disponibiliza a unidade para locação. Isso faz com que o empreendimento mantenha hóspedes de forma muito mais constante.

Ronaldo Costa Beber, CEO da Gramado Parks

Na prática, explica o executivo, esse comportamento gera previsibilidade para toda a cadeia turística. Essa mudança também transformou a relação entre empresas e proprietários.

“A venda não encerra o relacionamento. Ela é apenas o começo. Depois existe toda uma estrutura de atendimento para reservas, utilização das semanas, programas de intercâmbio e suporte ao cliente”, explica Ronaldo. 

O modelo, inclusive, permite uma flexibilidade para o uso de unidades em outros empreendimentos parceiros, tanto a nível nacional como internacional. 

Atualmente, a RCI, a maior operadora mundial de intercâmbio de férias, conta com mais de 4 mil hotéis e resorts espalhados em cerca de 110 países.

Os dados da Caio Calfat Real Estate Consulting refletem esse movimento. O número médio de colaboradores nas salas de vendas aumentou de 56 para 80 profissionais, enquanto a ocupação das unidades fora do pool de locação passou de 47% para 62%, indicando maior utilização dos empreendimentos pelos próprios proprietários.

Outro efeito observado é a interiorização do turismo. Segundo levantamento da Caio Calfat Real Estate Consulting, boa parte dos empreendimentos de multipropriedade estão situados em regiões que sequer eram considerados destinos turísticos.

“Vários desses municípios foram descobertos pela multipropriedade. São destinos em áreas de montanha, rios, cachoeiras e praias pouco exploradas, que passaram a receber investimentos, infraestrutura e fluxo permanente de visitantes”, ressalta Calfat.

Estrutura 

Um dos principais diferenciais da multipropriedade é a estrutura hoteleira. Muitos empreendimentos, inclusive, oferecem serviços de resort, incluindo área de lazer, recreação, gastronomia e atendimento de qualidade. Essa é uma vantagem na qual uma segunda residência convencional não teria. 

“Hoje o cliente não compra apenas um apartamento. Ele compra uma experiência completa. A qualidade da operação passou a ser tão importante quanto o próprio imóvel”, avalia o CEO da Gramado Parks. 

Foto colorida de um casal no ofurô - Metrópoles
Clientes buscam empreendimentos que oferecem serviços de lazer e bem-estar

Além do aumento da circulação de turistas, a expansão da multipropriedade estimulou investimentos em qualificação profissional.

A Gramado Parks, por exemplo, mantém uma escola própria voltada para hotelaria e gastronomia. Parte dos profissionais formados é absorvida pela própria empresa enquanto os demais passam a atender todo o mercado turístico da região.

Desafios

Apesar do crescimento, especialistas afirmam que o principal desafio da multipropriedade deixou de ser jurídico e passou a ser comercial.

Segundo Beber, parte do mercado ainda vende o produto como se fosse um investimento financeiro, prometendo rentabilidades incompatíveis com a realidade.

“A multipropriedade não foi criada para gerar lucro. Ela foi criada para proporcionar férias. Se o proprietário não utilizar sua semana, pode colocá-la no pool hoteleiro e receber parte da receita da locação, mas isso não significa retorno garantido”, pondera. 

Outro ponto considerado estratégico é o acesso ao crédito. Atualmente, boa parte das aquisições continua sendo financiada pelas próprias incorporadoras, já que os bancos ainda têm participação limitada nesse mercado.

Caio Calfat avalia que esse movimento poderá ampliar a presença da multipropriedade em novos destinos turísticos brasileiros. “O país ainda possui um enorme potencial de crescimento. Existem dezenas de localidades com vocação turística que podem se desenvolver a partir desse modelo, desde que os projetos mantenham qualidade, segurança jurídica e uma operação profissional.”