Silêncio e contemplação: Amazônia virou o novo destino de luxo do mundo
Após a COP30, turismo de luxo na floresta se destaca pela autenticidade e a busca pelos conhecimentos ancestrais

Já pensou em viajar para um lugar onde o luxo está associado ao silêncio e a contemplação? Onde um prato conta a história dos ingredientes daquele território, uma peça feita à mão carrega um conhecimento transmitido entre gerações e uma caminhada pela mata pode revelar coisas que, sem alguém para explicá-las, passariam despercebidas diante dos olhos?
Na Amazônia, exclusividade e luxo significam justamente isso: experimentar algo que não poderia ser reproduzido com a mesma verdade em nenhum outro endereço do planeta.
Há conforto, boa gastronomia e serviço de alto padrão em meio a selva. Mas há também rios sem fim, uma floresta com paisagens intocadas e pessoas capazes de transformar uma folha, uma semente ou uma lenda em algo especial aos olhos de quem veio de longe.

O luxo na floresta
Para Camilla Barretto, CEO da Brazilian Luxury Travel Association (BLTA), o significado de luxo se transformou no últimos anos.
Entre no canal de WhatsApp do Metrópoles“Atualmente a experiência de luxo é traduzida em algo muito mais sensorial do que material. Às vezes são elementos muito simples, mas muito únicos, autênticos e bem cuidados.”
Camilla Barretto, CEO da BLTA
Isso não significa abandonar conforto, boa gastronomia ou serviço de qualidade. Significa acrescentar algo que dinheiro não consegue produzir: identidade.

A CEO aponta que a sustentabilidade também não deve ser separada do segmento. “O luxo é indissociável da sustentabilidade.”
E o perfil do viajante mudou, pontua Camilla. “Quem vai em busca de uma experiência de luxo na floresta quer saber de onde vem a comida, quer conhecer a história daquelas pessoas, como as coisas são feitas, de onde vêm os materiais. Ele quer ver a vida real como ela é”, diz Camilla.
Segundo ela, esse turista que atravessa milhares de quilômetros para conhecer a floresta preservada, biodiversidade, cultura e comunidades locais se interessa menos por representações folclóricas criadas exclusivamente para visitantes.
Augusto Costa Filho, empresário e um dos proprietários do Anavilhanas Jungle Lodge, em Novo Airão, diz que a grande maioria dos hóspedes que buscam seu empreendimento, têm esse perfil.
“Hoje se fala muito desse novo luxo, chamado de quiet luxury. E a Amazônia é a cara disso.”
Para ele, quatro elementos resumem o que esse público procura: arquitetura, gastronomia, natureza e cultura. “A Amazônia entrega tudo isso de forma arrebatadora.”
Fabiana Caricati Boaretto, empresária, esposa e sócia de Augusto, acrescenta que a região precisa se afastar da ideia do “luxo dourado”. Segundo ela, o caminho está na combinação entre “autenticidade, bom serviço e conforto”.
Inaugurado em 2007, o Anavilhanas é um retrato de como o interesse pela região mudou. Quando o hotel abriu, cerca de 90% dos hóspedes eram estrangeiros e apenas 10% brasileiros. Hoje, de acordo com os donos, a divisão gira em torno de 60% de estrangeiros e 40% de brasileiros. “Acho que o brasileiro se interessa mais pela Amazônia hoje do que se interessava há 20 anos”, afirma Augusto.
Mas o empresário entende que o turismo na floresta tem suas peculiaridades. “É um destino em que o visitante precisa de condutor, precisa de gente que conhece o lugar, equipamento, combustível, roteiro, história”, explica Augusto. O guia, portanto, não serve apenas para mostrar o caminho. Ele funciona como um tradutor da floresta.
“O que faz a Amazônia ter sentido é incorporar o conhecimento ancestral, o saber de quem é local, dentro dessa jornada.”
Sem esse olhar, o visitante pode enxergar apenas árvores. Com ele, começa a entender quantos ecossistemas, histórias e conhecimentos existem dentro daquela paisagem.

O grande desafio
Se natureza e cultura são vantagens competitivas, infraestrutura continua sendo um dos principais desafios da região. “
Às vezes as rotas impedem”, resume Camilla. Mais conexões aéreas poderiam facilitar a chegada de turistas nacionais e internacionais, mas o problema vai além dos aeroportos.
Fabiana chama atenção para necessidades básicas de quem vive nas cidades amazônicas. “Como é que eu vou garantir qualquer coisa se a pessoa que vai trabalhar ali não tem uma moradia digna, não tem água encanada e não tem tratamento de esgoto?”.
Com apenas 25 quartos, o Anavilhanas se tornou o maior empregador privado de Novo Airão. Diante disso, Augusto reforça: “A infraestrutura não pode ser só para o turista. A infraestrutura tem que ser para quem está ali todo dia”.
Educação também entra nessa conta. O empresário relata que ainda é necessário contratar profissionais de outras regiões para algumas funções que exigem inglês, mesmo quando há trabalhadores locais tecnicamente preparados.
Qualificar a população significa, portanto, não apenas melhorar o serviço, mas permitir que os empregos mais valorizados também permaneçam na região.
Turismo no Brasil
O interesse pela floresta chega em um momento de crescimento do turismo brasileiro. O país recebeu 9,3 milhões de turistas internacionais em 2025, o que corresponde a uma alta de 37,1% em relação ao ano anterior. Nesse cenário, os gastos de estrangeiros chegaram a US$ 7,9 bilhões. No primeiro trimestre de 2026, foram 3,74 milhões de chegadas internacionais.
O Amazonas também acompanhou esse movimento. O estado recebeu 88.869 turistas estrangeiros em 2025, apontando um crescimento de 38% sobre 2024. Entre janeiro e março de 2026, o desembarque de passageiros internacionais no Aeroporto Eduardo Gomes, em Manaus, avançou 14,84%.
A COP30, realizada em Belém em 2025, ampliou ainda mais a exposição internacional da Amazônia. O desafio agora é transformar essa atenção em turismo permanente sem criar um modelo de massa capaz de degradar justamente aquilo que os visitantes querem conhecer.
Legado depois da COP30
A Embratur afirma que pretende transformar a visibilidade conquistada durante a COP30 em fluxo turístico permanente.
Segundo Leonardo Persi, coordenador de Segmentos Turísticos da agência, a estratégia passa por mais conectividade internacional, fortalecimento do turismo de natureza e promoção conjunta dos sete estados da Região Norte. Estados Unidos, Alemanha, França, Portugal, Colômbia e Peru aparecem entre os mercados com destaque para viagens ligadas à natureza na região.
Para a Embratur, a Amazônia também tem alto potencial no mercado de alto padrão porque reúne características cada vez mais procuradas: autenticidade, exclusividade, privacidade, silêncio e contato com a natureza preservada.
A COP30 colocou a região em uma vitrine global. O desafio agora é fazer com que o turismo gere renda para quem vive ali e ajude a manter de pé aquilo que motivou a viagem. Na Amazônia, talvez o verdadeiro luxo seja exatamente esse: encontrar algo que o dinheiro pode permitir conhecer, mas jamais fabricar.
































