Expor para comover: quando a infidelidade vira busca por simpatia
Embora possam parecer sinais de culpa e auto-repreensão, pode haver segundas intenções por trás das confissões de infidelidade
atualizado
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Enquanto algumas pessoas evitam ao máximo expor seus problemas de relacionamento, outras — em alguns casos, com maior frequência entre homens — parecem preferir compartilhá-los abertamente e até admitir a infidelidade. Um exemplo é o biatleta norueguês Sturla Holm Lægreid que, após conquistar a medalha de bronze nos Jogos Olímpicos de Inverno 2026, confessou que traiu a namorada meses antes.
Também podemos citar o ex-participante do BBB 26, Pedro, que confessou no programa diversas vezes ter traído sua agora ex-esposa. Casos como o de Wesley Safadão e de Neymar, marcado pela icônica frase “Errei, fui moleque”, também ganharam repercussão pública.
Uma pesquisa realizada em 2025 apontou que 47,9% dos infiéis admitem a traição para familiares e amigos. Embora possam parecer um sinal de culpa, pode haver segundas intenções por trás dessas revelações.
“Vantagens” de expor a infidelidade
Renata Fornari, terapeuta e especialista em autoconhecimento e autoamor, explica ao Metrópoles que, além da traição, existe uma certa necessidade de ser visto, validado ou até de provocar alguma reação. Muitas vezes, essa exposição tem relação com imaturidade emocional.
“É como se ele ainda estivesse operando a partir de um lugar que precisa provar algo, seja poder, desejo ou relevância. Em outros casos, pode existir uma dificuldade em sustentar vínculos profundos, então ele cria rupturas ou situações de tensão como forma de evitar intimidade real”, diz Renata.
Segundo a profissional, há também um componente de desconexão consigo mesmo. “Quando a pessoa não está bem resolvida internamente, ela tende a buscar no externo uma validação constante. Isso pode aparecer em comportamentos impulsivos ou até autossabotadores. No fundo, isso diz sobre a consciência emocional que essa pessoa tem, ou que ainda não desenvolveu.”
Fatores neurobiológicos
De acordo com Thaíssa Pandolfi, médica psiquiatra, especialista em neurodivergências, o comportamento de expor a própria infidelidade pode ser compreendido a partir da interação entre sistemas neurobiológicos de recompensa, controle inibitório e fatores socioculturais.
“Situações consideradas ‘proibidas’ ou de risco, como a infidelidade, podem ativar esse sistema e gerar uma sensação de excitação, não só pelo ato em si, mas também pela expectativa e pela reação das outras pessoas.”
Além disso, quando há menor controle dos impulsos, algo que depende de áreas do cérebro responsáveis por avaliar consequências e frear comportamentos, a pessoa pode agir de forma mais imediata, sem considerar os impactos emocionais ou relacionais.
Outro ponto importante é o fator cultural. Segundo Renata, em alguns contextos, ainda existe a ideia de que a infidelidade masculina pode ser associada a status, poder ou validação. “Isso pode incentivar não só o comportamento, mas até a sua exposição.”
A obsessão por engajamento
A médica psiquiatra Thaíssa Pandolfi acredita que a exposição da vida íntima pode funcionar como uma forma de buscar validação, reconhecimento ou até reafirmar a própria autoestima.
Em alguns casos, a pessoa não está apenas vivendo a situação, mas “performando” para ser vista, admirada ou aprovada.
“Hoje, com as redes sociais, isso se intensifica. Existe uma tendência crescente de transformar experiências pessoais em algo público, quase como uma vitrine, em busca de engajamento ou reconhecimento”, relata a expert.
Além disso, alguns traços de personalidade podem influenciar esse tipo de comportamento. Entre eles, o narcisismo, que costuma estar ligado a uma necessidade maior de admiração e construção de uma imagem idealizada de si mesmo.

Como melhorar
De acordo com a especialista em autoconhecimento e autoamor, Renata Fornari, o primeiro passo é desenvolver consciência e começar a se perguntar: “O que eu estou tentando provar?” ou “O que eu estou tentando sentir com esse comportamento?”.
“Depois, entra um processo mais profundo de autoconhecimento. Entender quais são as próprias inseguranças, de onde elas vêm e quais padrões estão sendo repetidos. Muitas dessas dinâmicas têm origem em experiências antigas, até da infância, que moldaram a forma como a pessoa se enxerga e se relaciona.”
Também é importante construir autoamor. “Quando a pessoa se sente inteira, não precisa usar o outro para se validar; ela se posiciona de forma mais consciente, mais íntegra e mais responsável com as próprias escolhas. Sem isso, pode até mudar o comportamento por um tempo, mas a raiz continua lá, e tende a se repetir de outras formas”, finaliza Renata.




































