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A falta de combustível está afetando várias áreas da economia e da sociedade. Diversos profissionais têm encontrado dificuldades na hora de fornecer os serviços, incluindo quem trabalha no ramo de festas e casamentos. O principal desafio é driblar a ausência de alguns produtos e entregar um resultado que atenda às expectativas dos clientes. No momento, as flores são o item com maior escassez.

Referência no mercado brasiliense, a decoradora Valéria Leão não se deixou abalar pelas dificuldades. Com um casamento marcado em Tiradentes, Minas Gerais, na semana passada, ela foi pega de surpresa ao saber que a estrutura planejada não chegaria a tempo ao local. Com dois dias de prazo, familiares dos noivos e a equipe de funcionários buscaram substitutos para as plantas e flores na mata da região. A mobília foi alugada com fornecedores locais.

Denise Magalhães, da Verde Que Te Quero Verde, adotou uma estratégia diferente: alugou uma frota de táxis para levar as flores de Holambra, no interior de São Paulo, e os móveis de um casamento. A cerimônia foi realizada a 600 quilômetros de Belo Horizonte e ocorreu graças à operação de guerra montada pela decoradora. Kaká Fagundes, outro profissional do ramo, utilizou a mesma estratégia para salvar um evento.

Com um casamento marcado para este sábado (2/6), o cerimonialista Pedro Marra passou aperto, mas conseguiu resolver um problema de logística com flores. “A decoradora só confirmou as cores acertadas com a noiva há poucas horas”, relata. Ele conta que dois parceiros viajaram a São Paulo para visitar as fazendas de produtores e prometeram retornar a Brasília com caminhões carregados até o fim de semana.

 

De acordo com Kaká Fagundes, a paralisação afetou bastante a distribuição de flores vindas de São Paulo – onde ficam as maiores floriculturas do país. Para diminuir os problemas, o decorador solicitou o envio por via aérea e reagendou o atendimento a clientes. O esforço é sempre no intuito de cumprir os prazos.

Os contratos são fechados em média um ano antes do evento. Isso cria expectativas e um vínculo afetivo. Nossa rede de contatos tem facilitado as operações e transportes de mercadorias"
Kaká Fagundes

Com festa marcada em Salvador, a empresária Juliana Inglês levou os itens de decoração com ela. Flores, doces, bolo e louça ocuparam os assentos da aeronave, além do bagageiro do avião. Ela também relata  que a dona da festa distribuiu diversos itens para a família levar. “Estou viajando com  uma bolsa cheia de flor de açúcar no colo. Concordei com a greve até um determinado momento, mas, depois das condições serem atendidas, não via razão em continuar apoiando”, diz.

Arquivo Pessoal

Juliana Ingles se prepara para levar os materiais no avião

 

À frente da Rayná Doces, Rayná Nascimento deixou de realizar entregas, optando por atuar apenas com retiradas em sua própria casa. Ela torce pela regularização da situação em breve. “Seria a favor da greve se diminuíssem o valor dos impostos, mas como muitos estão sendo prejudicados, sou contra”. A empresária também comenta que fez um miniestoque com os produtos necessários para produzir os doces, além de forminhas e caixas de transporte.

Fabiani Christine, da Dot Paper, relata que se deparou com uma complicação numa festa temática inspirada no clássico Branca de Neve. Para a décor, havia idealizado uma ornamentação com centenas de rosas vermelhas, mas sem ter acesso às flores, a empresária trocou os arranjos por topiarias de maçã. A mudança só foi possível devido à relação próxima com uma empresa do segmento de frutas, que está mantendo os frutos em câmara fria.

O cerimonialista César Serra precisou trocar uma decoração inteira porque as flores não chegaram. Os tons e tipos dos insumos foram todos alterados e, por conta da situação, optou por trabalhar apenas com as versões secas. “O prejuízo é incalculável, mas estamos com a consciência limpa de que entregamos algo bonito”. A favor do protesto, ele defende o fortalecimento das malhas ferroviárias para tornar o custo do produto mais barato para o consumidor final.

Arquivo Pessoal

Arranjo improvisado por Carolina Cyrino

 

A florista Carolina Cyrino afirma que teve sorte e conseguiu entregar seus pedidos a tempo. Em meio à crise, a designer encontra uma chance de expandir os horizontes profissionais. “Fiz adaptações sem ferir a expectativa dos meus clientes e exercitei minhas habilidades de criação”, comenta.

Também florista, Higor Lima revela que teve diversos contratos cancelados. Como opção, reforçou o trabalho com elementos verdes, por causa da falta de flores.