Projeto “L’Afrikana” ajuda a mudar a vida de refugiados no Quênia por meio da moda
A catarinense Renatha Flores teve a ideia quando foi ao país concluir um curso de teatro. Verba das vendas é revertida para manter o projeto, que acolhe famílias inteiras
atualizado
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Foi no Quênia, para onde viajou para concluir um curso de teatro comunitário, que a catarinense Renatha Flores teve a epifania da sua vida. Mais do que um certificado, trouxe na mala um projeto que mudaria a sua vida e a de outras pessoas que conheceu por lá – congolenses, burundinenses e ruandeses refugiados de guerras civis em seus países ou se escondendo da fome e da miséria. Assim, junto com um grupo de sócios que conheceu no país, todos africanos, Renatha fundou a L’Afrikana, um projeto de moda social.

A marca utiliza tecidos africanos de alta qualidade e mão de obra local para produzir roupas, estampas e objetos de decoração e o dinheiro arrecadado com as vendas – o foco são os mercados de Brasil e Argentina – é revertido para bancar o projeto, que acolhe famílias e investe na cultura e na educação local. Além disso, eles contam também com atendimento psicológico, já que muitos dos refugiados carregam traumas.

“Eles têm uma situação de vida muito difícil. Uma dessas pessoas próxima a mim e muito querida tem mais de 600 cicatrizes no corpo de facadas, sua esposa já foi estuprada diversas vezes, inclusive um dos filhos deles é na verdade de ‘um inimigo’ de uma milícia que a atacou”, contou Renatha ao Hypeness.
Desde que nasceu, há dois anos, o L’Afrikana ganhou adesão de alguns estilistas e doações importantes, como de máquinas de costura. Com tecidos pintados à mão, as peças contam um pouco das histórias de tribos, da cultura africana e de religião. Só o Quênia contabiliza 54 tribos diferentes.

O projeto permite que os próprios refugiados ajudem outros refugiados da maneira que eles acham melhor. A escolha da moda como ferramenta veio deles.
Renatha Flores

A história do projeto e dos sócios está contada no site do projeto. Florence Masoka, por exemplo, foi atacada aos 14 anos por membros das Forças Armadas Congolesas. Seu pai chegou a denunciar os agressores à polícia, mas nada foi feito a respeito. Por vingança, a milícia atacou sua família torturando, estuprando e matando uma de suas irmãs. Quando teve uma oportunidade, ela fugiu, grávida, para o Quênia. Nunca mais viu e nem se comunicou com seus pais. Hoje, é cozinheira do projeto e aluna do curso de costura.
Já Echa Majaliwa, que mora há três anos no Quênia, era veterinário no Congo e fugiu quando passou a ser considerado um inimigo pelo seu próprio vilarejo, por ajudar a tratar animais da tribo rival. Uma noite, um grupo invadiu sua casa e violentou sua esposa. Os dois fugiram no mesmo dia a um campo de refugiados da Tanzânia, e depois para o Quênia. Ele foi um dos primeiros alunos de costura e hoje é professor.
