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Sávio Pereira nasceu em uma cidade que não está no mapa. Anhuma, no interior do Piauí, é um vilarejo dos mais simples. Não há água encanada, energia elétrica e muito menos banheiro. Se vive de cuidar da natureza, plantar, colher e caçar. As crianças crescem livres, vivem peladas, brincam de caçar passarinhos e não sonham com o significado da palavra televisão. As casas são feitas de palha, sem divisões internas, como uma grande oca. E, como os índios, os anhumenses dormem em redes.

Em Anhuma, só os fazendeiros têm dinheiro e terras. Eles contratam famílias locais e oferecem uma casa em troca do trabalho na roça. Dependendo da época, os empregados ganham um bezerro ou uma cabra que nasceu em uma época de bonança. Quando os patrões precisam da casa de volta, a família procura outra fazenda para morar. Foi nessa vida de nômade que Sávio nasceu.

Só existe uma escola na pequena cidade. E na escola, só uma sala. E na sala, só uma professora. Que dá aulas para todas as crianças, de todas as idades e nível de aprendizado. Outro problema é a distância: o instituto de ensino precário ficava muito longe da casa de Sávio, que tinha que caminhar no sol quente por bastante tempo com os irmãos.

À procura de uma vida melhor para seus filhos, Leide, a mãe de Sávio, decidiu se mudar com eles para a cidade mais próxima, Bertolínia. O marido continuava trabalhando na roça e os dois conseguiram construir uma casa nos moldes das de Anhuma, mas nos arredores da cidade que, com quatro mil habitantes, era enorme aos olhos deles. Lá, Sávio finalmente conseguiu estudar.

Muito ligado à escola, o então estudante gostava de desenhar e das aulas de artes. Aprendeu a escrever muito rápido e, na única lan house da cidade, fez uma amizade à distância pelo Orkut com a namorada de um amigo que morava em Recife. Passou a conversar com Mai por cartas onde derramava seus pensamentos e sonhos e, em troca, recebia livros e apoio para alçar voos mais altos bem longe dali. “Comecei a descobrir que existia um mundo fora do nosso quadradinho”, lembra.

Alguns anos depois, chegaram à Bertolínia duas mulheres responsáveis por fazer uma obra de asfaltamento na cidade. Da empresa responsável, Melina e Keila receberam uma casa completa com ajuda de custo, inclusive suficiente para contratar uma ajudante para cuidar da casa. Leide trabalhava como empregada doméstica por 150 reais mensais, que eram revertidos em compras no mercado da família. Não via a cor do dinheiro. Abraçou a chance e foi trabalhar na casa das duas. Encontrou, nas novas patroas, amigas.

“Elas tinham tudo e eu queria ser como elas. Elas foram minhas fadas madrinhas, me mostraram comidas novas, compraram roupas para a gente, pagaram minha formatura do ensino fundamental, me levaram até para outra cidade para arranjar um terno”, lembra o estilista.

Quando uma tia de Sávio, que mora em Brasília, foi visitar a família no Piauí, ele percebeu que era sua chance de sair dali. Pediu para tia para voltar com ela e estudar nutrição. Chutou qualquer curso, foi só para convencer a família. Prometeu que faria o possível para estudar. Igleide concordou e a mãe, com o coração na mão, lembrou que não podia ajudá-lo financeiramente. As fadas madrinhas entraram com o dinheiro: compraram roupas e a passagem para que Sávio, aos 16 anos, pudesse se aventurar na capital do país.

Assim que chegou à sua nova casa, no Guará II, Sávio foi cumprir o que prometeu para Leide. Se matriculou na escola pública mais próxima e em um curso de espanhol. Quando se formou, o próximo passo era entrar na faculdade. Sempre muito talentoso com lápis e papel, pensou em fazer desenho industrial. Mas decidiu cursar Moda, no Iesb. Conseguiu uma bolsa de 100% do Fies e se pôs a estudar e a trabalhar nas horas vagas para se manter. Se apaixonou pelo curso. No penúltimo semestre, teve a ideia de uma grife masculina que usaria só tecidos reciclados.

Desmontou camisas para remontá-las com pedaços de outras roupas que já não serviam ou com peças que garimpou em brechós. Em São Paulo, encontrou uma fábrica de tecidos que descartava os pedaços de pano manchados com os chamados “erros de fábrica”, quando a estampa ou a coloração saem erradas. O tecido não serve para a indústria, mas cai como uma luva no projeto de Sávio. Assim nasceu a Drew, o verbo desenhar no passado em inglês, que virou nome de marca e nome artístico.

“Me incomoda estar em um lugar e todo mundo estar usando a mesma roupa que eu. Queria criar peças exclusivas. Peguei os tecidos e criei bolsos, golas, novos recortes. E os panos nunca são os mesmos, então as camisas são peças únicas”, conta. Para viabilizar a coleção, Sávio fez vaquinha, achou os modelos na rua, um amigo fotógrafo tirou as fotos. Encontrou no Instagram pessoas que gostaria de vestir e foi com eles ao shopping descobrir o que compravam, o que deixavam na arara. A marca nasceu de um processo colaborativo.

Bem novinha, a Drew já está dando as asas que Sávio tanto queria. O projeto é finalista do concurso Novos Talentos GQ+Reserva, que procura iniciativas de moda masculina preocupadas com sustentabilidade. No dia 18 de julho, o estilista parte para o Rio de Janeiro para apresentar sua marca. Se ficar entre os dois vencedores, a Reserva venderá a coleção da Drew em sua loja on-line, a Malha, uma incubadora de moda carioca, oferecerá consultoria especial por seis meses, as roupas aparecerão em editorial na revista GQ Brasil e Sávio poderá ganhar uma viagem para a Itália.

“É um projeto que tem muito de mim. Eu sempre desenhei muita roupa, não sei se pela minha falta de roupa na infância, ou por dividir o armário com meu irmão na adolescência. A moda é algo natural, que veio comigo. Se eu ganhar, minha marca vai ser conhecida no Brasil inteiro e, se Deus quiser, no mundo.”