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A arquiteta brasiliense Bruna Zanella sempre se sentiu muito atraída pelas palavras. Não apenas seus significados, mas especialmente suas formas e curvas. Apaixonada por caligrafia desde criança, ela identificou sua fascinação por design gráfico e, após se formar, em 2011, seguiu para temporada de estudos em Madri, na Espanha.

Na Europa, Bruna se especializou em lettering. Ela explica que depois do boom da era digital, quando tudo passou a girar em torno do computador e da internet, aconteceu um movimento contrário que passou a valorizar o artesanal, o handmade.

É exatamente nesse contexto que o recurso ganha força como expressão de design. “A principal ideia do lettering é transmitir uma mensagem, contar uma história com letras e estilo”, diz.

Na capital, para ministrar a primeira edição de um workshop especializado no formato, ela pontua: “Ter vivido em Brasília, crescido em meio à poética material de Oscar Niemeyer, é fonte de inspiração constante e cada vez mais valorizo esse elo com a arquitetura e estética que a cidade oferece.”

Confira o bate papo realizado com o Metrópoles:

Qual é a diferença entre caligrafia e lettering?
“A caligrafia é a técnica, a arte de escrever. Já o lettering é a maneira de desenhar as letras e palavras. O que mais se vê é o uso de recursos da caligrafia quando se está desenvolvendo projetos de lettering. O lettering não utiliza só letras cursivas, pode-se usar também diversas tipografias e estilos não conectados.”

Quais as principais tendências dentro do mercado de lettering para 2017/18?
“No Brasil, acredito que a principal tendência são os murais e artes para quadros que utilizam a técnica de giz, como elemento de decoração de ambientes e eventos. Já na Europa, o lettering está muito presente em vitrines como recurso de comunicação, mas já com a técnica de rotulação, feita com tinta.

Já pensando em uma tendência mundial, o que chama mais atenção são as intervenções urbanas. A utilização desse recurso é infinita e pode aparecer em capas de livros e revistas, convites de festas e eventos, publicidade, identidade visual, decoração, roupas e acessórios, tatuagens…”

Reprodução

Como uma peça de lettering personalizada pode agregar valor a uma marca?
“Fontes e tipografias digitais podem ter um caráter muito impessoal, pois podem ser reproduzidas em diversos meios. Já a caligrafia e o lettering têm um apelo mais autêntico. Cada trabalho pode ter um perfil diferente, pode ser único. E como agrega-se valor? Através justamente da personalização. O trabalho personalizado desenvolvido para determinada marca ou empresa acaba passando a ideia de exclusividade, além de ajudar a construir uma identidade visual bem original.

Esse caráter de personalização, ter algo que é feito especialmente para você, desperta um sentimento especial que toda marca premium/de luxo sonha em oferecer ao cliente, mas nem sempre consegue. Cada vez mais as pessoas vão buscar essa sensação, nos mais variados campos”.

Reprodução/Instagram

Qual é a importância das redes sociais para esse boom do lettering?
“São absolutamente necessárias. Por meio das imagens e vídeos postados em plataformas como Instagram, Pinterest, Snapchat e Vimeo as pessoas podem acompanhar o processo criativo do desenvolvimento de uma peça de lettering. Isso é interessante porque esse movimento valoriza não só o resultado final, mas a construção de um projeto.

A escolha do papel, do pincel, dos marcadores gera muita curiosidade nas mídias digitais, sabia? E essa interação possibilita também a descoberta de que lettering não se trata de uma ação mecânica. Ao contrário. Envolve muita experimentação e conexão criativa.”

Como você atualiza seu conhecimento? Têm dicas de designers ou instas que você curte e servem de referência?
“Indico três artistas mulheres que são referência para mim: Martina Flor, Gemma O’Brien e Jessica Hische. Para atualizar o conhecimento, gosto de me dedicar a cursos on-line e workshops porque vejo que as técnicas e influências de cada país são bem diversificadas. É possível encontrar opções bem legais no Skillshare e no Domestika“.

 

Reprodução/Instagram

A moda e o design já se apropriaram do lettering. Como você analisa esse intercâmbio?
“A linha que separa todos os ramos do design é muito tênue, sabe? Então o limite do design de moda, gráfico e de produto é sutil. É bem comum um se apropriar dos recursos do outro para enriquecer o trabalho.

No caso das grandes marcas de moda que apostam no lettering como referência em bolsas e roupas ou até na comunicação, vejo que elas fazem isso porque o recurso passa uma imagem jovem, descolada. Elas quererem se aproximar de um público mais novo usando o lettering.”

Como surgiu o projeto de trazer o curso de lettering para Brasília?
“A ideia do workshop teve início em 2016, quando comecei a receber várias mensagens de brasilienses buscando informação sobre design, caligrafia e lettering. Formatei uma proposta e trouxe para essa primeira edição. Quando lançamos o curso, pensamos em apenas uma turma, mas a demanda foi tão grande que abrimos outra seleção e ainda tivemos uma lista de espera com mais de 60 nomes. Essa repercussão positiva praticamente confirma outros projetos em Brasília que envolvem novos módulos, técnicas e aprofundamento da etapa de digitalização do lettering.”