Dia Nacional da Adoção: cuidadora vira “mãe” de idosa abandonada

Após cerca de 60 anos sem identidade, Cota foi acolhida e agora tem uma família. Caso pode ser a primeira ação legalizada desse tipo no país

atualizado 27/05/2019 10:38

Felipe Oliveira/Especial para o Metrópoles

Histórias de adoção são comoventes – afinal, normalmente há relatos de abandonos e desencontros. No caso de Gláucia Andressa Santos, 30 anos, acolher alguém foi uma escolha que a pegou de surpresa: envolveu coragem e riscos. Ao contrário da maioria dos casos, a cuidadora se tornou responsável por Cota, uma idosa sem sobrenome e RG.

A trajetória delas começa em Araraquara, no interior de São Paulo. Em 2010, Gláucia passou a trabalhar como copeira no hospital Beneficência Portuguesa. Lá, conheceu Cota, uma senhora que não conseguia falar e morava há mais de 50 anos no local.

Cotinha – como passou a ser carinhosamente chamada pelos funcionários – tinha sido abandonada ainda criança e viveu praticamente a vida toda de favor, em um quarto próximo à lavanderia. A origem e as circunstâncias de como ela foi parar na unidade de saúde são desconhecidas. Na cidade, circulam boatos de que chegou ao hospital muito pequena, após ter sido vítima de um acidente de caminhão no qual perdeu os familiares.

Em 2016, a Beneficência Portuguesa foi fechada de forma repentina – e a vida das duas mudou completamente. “Fiquei sem meu emprego e a Cota, sem o lar dela. Na época, achei que seria provisório, mas de repente percebi que ninguém iria ficar com ela”, explica Gláucia.

A idosa estava prestes a ser encaminhada a um abrigo, quando Gláucia interferiu e a levou para casa, mesmo sem saber qual seria o próprio destino. “Eu só conseguia pensar que não podia abandoná-la”, relembra.

De lá para cá, o caminho trilhado não foi fácil, mas o afeto deu lugar a uma relação digna de roteiro de filme.

Arquivo pessoal
Gláucia e Cotinha se conheceram no hospital Beneficência Portuguesa, em Araraquara

 

Arquivo pessoal
Cota morava na unidade de saúde e ajudava os funcionários

 

Nova família
A rotina delas é simples, mas cheia de amor. Hoje, aos 67, Cota finalmente tem um lar. E ainda ganhou uma irmãzinha, a pequena Emily, de 4 anos, filha de Gláucia, com quem adora brincar de boneca e assistir TV. “Atualmente, trabalho em uma casa de repouso, então costumo levá-la comigo. Ela participa das atividades com os idosos, enquanto eu realizo as funções. Minha outra filha fica na creche. No fim do expediente, voltamos juntas para casa”, conta.

Gláucia relata que, mesmo sem falar e caminhar com um pouco de dificuldade, a idosa consegue viver com independência. “Ela não tem grandes problemas de saúde, mas precisa de ajuda para comer porque não possui os dentes, logo só ingere comidas pastosas. Ela é organizada e me ajuda muito”, diz a cuidadora.

Depois de ser adotada, Cotinha teve mudanças de comportamento. Gláucia atribui isso ao amor que a senhora passou a receber. “No hospital, ela era muito mal-humorada e brava, mas hoje é outra pessoa e até a fisionomia mudou. Sinto que ela sabe ter um lar de verdade”, compartilha. 

Além da melhora no humor, Cotinha também aprendeu algumas expressões pela metade. Uma das poucas palavras que passou a pronunciar foi “mamãe”.

Pessoas próximas também notaram a transformação. Letícia Ambrósio, que trabalhou como terapeuta ocupacional na casa de repouso, não poupa elogios: “A Cota é muito fofa, não dá trabalho nenhum. Eu organizava atividades em grupo e ela sempre participava”, lembra a amiga da família. “A interação delas é muito bonita. A Gláucia é uma pessoa extremamente simples, mas de muita força. Acho que a Cotinha percebe e tem muita gratidão”, acrescenta a profissional.

Felipe Oliveira/Especial para o Metrópoles
Cotinha se dá muito bem com Emily: elas adoram brincar juntas

 

Na Justiça
O abandono de Cota não é exceção. Segundo dados do Ministério de Desenvolvimento Social, divulgados no ano passado, o número de idosos em abrigos públicos cresceu 33% de 2012 a 2017. Além disso, as últimas estimativas do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), publicadas em 2016, apontam que aproximadamente 71% dos municípios brasileiros não contam com nenhuma instituição de longa permanência para pessoas com mais de 60 anos. Isso significa que muitos idosos estão em situação de rua ou sem registro.

Quando optou pelo acolhimento, Gláucia procurou uma defensoria pública e conseguiu a interdição para ser reconhecida como responsável pela mulher. Depois, com ajuda de duas advogadas (que colaboraram sem cobrar os honorários), abriu um processo de retificação de registro civil que durou cerca de cinco meses.

Hoje, a idosa se chama Maria Cotinha dos Santos Gomes. O sobrenome de Gláucia foi incorporado ao registro com base no princípio da afetividade. Cota também passou a ter uma data de nascimento: 12/10/1952. O ano teve por base um laudo médico e o dia foi escolhido em razão da data que comemoravam no hospital como aniversário dela.

Contudo, na certidão, o espaço da filiação segue em branco. Atualmente, a mulher de 30 anos é curadora de Cotinha, mas luta na Justiça pela adoção. A ação já está pronta, prestes a ser ajuizada.

Para Gláucia, será apenas a confirmação do amor que sentem uma pela outra. “Não tive coragem de desampará-la porque existe um sentimento de mãe e filha. Deus me colocou na vida da Cota para eu cuidar dela e para ela cuidar de mim também”, emociona-se.

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Depois de cerca de 60 anos abandonada, Cota encontrou uma mãe. Agora, ela tem um lar acolhedor

 

Uma das advogadas responsáveis pelo processo, Giulia Negrini explica que, por conta do ineditismo, a causa demandou muito cuidado. “Nós não temos casos parecidos com o delas. Até existem ações de adoção de idosos, mas todas foram julgadas improcedentes porque os juízes e o Ministério Público entendiam que só havia interesse financeiro e previdenciário na adoção, mas esse não é o caso aqui”, destaca. Ela atua em parceria com Adriele Teixeira. 

Pela legislação, quem está adotando deve ser no mínimo 16 anos mais velho do que a pessoa a ser adotada (comumente uma criança ou adolescente). No entanto, a advogada acredita que isso não será um impeditivo, embora seja uma ação complicada. O processo foi montado com base em analogias a outras leis. 

Para a especialista em direito de família Suzana Viegas, por analogia, será um processo de adoção como qualquer outro. “A lei não fala em adoção de idoso, mas nada impede que seja feita a aplicação, principalmente tratando-se de uma causa nobre que é para acolher e ajudar”, destaca a pesquisadora da Universidade de Brasília (UnB).

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Cota pode ser a primeira idosa adotada legalmente no país

 

A especialista de Brasília explica que a adoção implica em uma série de responsabilidades. “Quem adota precisa cuidar como se pai e mãe fossem. O idoso, muitas vezes, dá mais trabalho do que uma criança. A família que está buscando isso tem de estar disposta e preparada”, observa Suzana.

Quando um processo de adoção é ajuizado, a Justiça analisa fatores determinantes para conceder a guarda ou não. Quando se trata de uma criança, levam em consideração o perfil da família e as preferências. Já a adoção de alguém maior de idade depende do consentimento da própria pessoa, a não ser que ela tenha perdido a sua capacidade civil. Para que Gláucia adote Cota, de acordo com a pesquisadora, não será necessário o consentimento, mas sim uma autorização judicial.

Felipe Oliveira/Especial para o Metrópoles
A nova família tem uma rotina alegre e cheia de amor

 

Os fatores avaliados na adoção de Cotinha devem ser os mesmos de uma comum. A análise feita pela Justiça inclui antecedentes criminais (para não colocar o adotado em risco) e a renda do adotante, além da constatação de que houve a criação de vínculos afetivos.

No caso de Cotinha, a especialista da UnB não prevê barreiras. “A análise da vida financeira de quem vai adotar deve ser relativa, não absoluta. O mais importante é o período de convivência e o acolhimento da idosa. Se ela não tem renda suficiente, pode provar que tem acesso a benefícios sociais e políticas públicas que possam auxiliar na criação”, esclarece a pesquisadora.

Não é possível estimar com exatidão o tempo que o processo pode levar, mas a especialista enxerga a ação como um precedente para outras. “Esse caso é um excelente exemplo para que outras pessoas possam seguir o mesmo caminho”, supõe a advogada. O mais importante elas já têm: o carinho absoluto.

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