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Com uma espada na mão e o traje de proteção, os esgrimistas se preparam para jogar. Em um confronto que envolve estratégia, movimentos rápidos e técnica, eles praticam a arte de desembainhar armas brancas e alternam entre ataque e defesa. A esgrima nasceu como forma de combate e é um esporte que faz parte dos Jogos Olímpicos da Era Moderna desde sua primeira edição, em 1896, na cidade de Atenas.

Até 2010, o Distrito Federal era referência nacional em esgrima. Chegou a exportar diversos atletas de alto rendimento e a sediar o Centro de Treinamento de Esgrima, a melhor sala do Brasil para o esporte, em 2005. Porém, a falta de apoio fez com que os espaços fossem fechando e os praticantes ficassem órfãos. Para completar, a capital perdeu uma figura-chave: o seu mestre de armas, o instrutor.

Agora, os amantes da prática lutam por um espaço para jogar. Em Brasília, os sócios Ivan Baumgartner (bronze no Campeonato Sul-Americano de Esgrima por Equipes de 2012 e primeiro colocado no Ranking Brasileiro de Esgrima de 2011) e André Rothfeld (vice-campeão brasileiro e campeão do Pan-Americano e do Sul-Americano Cadete de 2010) se uniram ao mestre de armas Francisco Busolli para criar a Touché Esgrima – além do Colégio Militar, um dos únicos lugares que ainda possibilitam a prática do esporte.

O esgrimista André conta que ele e os sócios perceberam a demanda de mercado. “As pessoas em Brasília gostam e apoiam modalidades esportivas diferentes, e a esgrima se encaixa bem nisso, mas não é muito divulgada”, aponta. “A ideia de montar a Touché surgiu depois dos Jogos Olímpicos de 2016. Até aquele momento, Brasília estava sem esgrima, e queríamos desenvolver um projeto que renovasse o esporte na capital”, diz Rothfeld.

Ivan Baumgartner afirma que foi surpreendido, de forma positiva, com a ótima recepção do público. “Da mesma forma que eu me interessei porque gostava de lutas com espada, quando fazemos um exposição e eventos sempre percebemos as crianças ficando encantadas. Elas adoram participar e geralmente pedem aos pais para começar a praticar”, explica.

Vinícius Santa Rosa/Metrópoles Francisco Busolli de Queiroz, Ivan Baumgartner e André Rothfeld Gratone

 

Em guarda
A convite de André e Ivan, o mestre de armas Francisco Busolli retornou a Brasília. Em sua segunda temporada na capital, ele percebe uma cena com capacidade de evolução. “A cidade foi referência nacional na categoria espada por muito tempo”, lembra.

Ele ainda ressalta a importância das mulheres esgrimistas. “Durante anos, a primeira e a segunda colocadas no ranking nacional feminino foram brasilienses, e Brasília ainda teve uma atleta olímpica”, completa.

Ele se refere a Rayssa Costa, bronze no Pan-Americano de Toronto de 2015 e ouro nos Jogos Sul-Americanos de Santiago de 2014, na categoria equipe. Ela começou a jogar aos 14 anos de idade, quando foi selecionada para uma bolsa da Secretaria do Esporte. Um teste físico mostrou que Rayssa tinha aptidão para esgrima, ela começou a treinar e logo engatou uma série de vitórias. Aos 17 anos, conquistou o seu primeiro campeonato adulto, o que lhe garantiu uma vaga em disputas como Pan-Americano, Sul-Americano, Grand Prix e Mundial.

Em 2016, Rayssa representou o Brasil nos Jogos Olímpicos, tornando-se a primeira mulher brasileira a ganhar um combate em esgrima nas Olimpíadas. Contudo, foi eliminada na segunda partida. “Apesar de ter perdido, foi um resultado muito bacana, de acordo com as nossas condições e com o esporte, que não é muito tradicional aqui”, pondera. A atleta adora o desafio de se superar constantemente e tentar prever os movimentos do adversário.

Rayssa Costa posa ao lado da roupa que usou nos Jogos Olímpicos de 2016

 

A falta de espaço para treinar aqui foi um dos motivos que levou Rayssa a se mudar para a Itália. Ela afirma que Brasília é um polo grande de atletas e de pessoas que podem se capacitar, mas falta apoio financeiro.

Rayssa acredita que a capital teria equipes fortes em qualquer modalidade, não só na esgrima, se o Estado investisse mais nos esportes.”Conheci muita gente que tinha talento e determinação, mas a família não podia patrocinar. Eles não tinham condições de praticar regularmente, por isso não evoluíram e atingiram um nível maior”, comenta.

Filipe Cardoso/Especial para o Metrópoles

Ouro nos Jogos Sul-Americanos de 2014, Cleia Guilhon começou em Brasília

 

Outra grande atleta brasiliense, Cleia Guilhon entrou na esgrima por acaso, em 2003, e conquistou diversas vitórias. Entre elas: o bicampeonato brasileiro individual (2009-2010), bronze no Pan-Americano (2013) e ouro nos Jogos Sul-Americanos (2014).

Conforme ia evoluindo, a esgrimista sentiu a necessidade de treinar no exterior, então se mudou para os Estados Unidos, onde viveu por um ano e meio. “Meu treinador começou a viajar muito e se dedicar à seleção brasileira. Isso deixou uma carência em Brasília e, infelizmente, a prática foi caindo”, conta.

Cleia agradece a esgrima por uma mudança de vida. “O esporte me abriu muitas portas. Vim de uma família humilde e consegui oportunidades incríveis”, conta. Hoje, a ex-atleta joga por hobby e amor, e garante que vale a pena.

Estereótipo de esporte da elite
Outro obstáculo à popularização da esgrima é a visão de que o esporte é caro e elitizado. André Rothfeld reconhece a existência desse estereótipo, mas afirma: na ponta do lápis, a prática é acessível. “Apesar do custo inicial ser um pouco salgado, não é caro se você considerar a longevidade do material. As roupas, por exemplo, podem durar 10 anos. As máscaras podem chegar a 15. Então, ao ‘diluir’ o valor com a quantidade de meses que o equipamento será usado, é razoavelmente barato”, explica. A mensalidade da Touché já inclui o aluguel de roupa e espada.

O bancário Paulo Carbonera sempre foi fã de esportes recreativos e, por interesse do filho, começou na esgrima há nove meses. “Conhecia um pouco do esporte por acompanhar pela televisão. Fui com ele fazer uma aula experimental, então me identifiquei e comecei a praticar”, relembra. “Gosto que exige um aprimoramento, além de trazer benefícios em termos de agilidade, reflexos e pensamento rápido”.

A servidora pública Ágatha Guerra pratica esgrima há 18 anos. “Sempre fui apaixonada pelo esporte. Vi em um jornal uma notícia sobre aulas na AABB e fui atrás. Nunca parei”, relembra. Uma das partes favoritas de Ágatha é a convivência com os colegas. “É pura endorfina. É uma turma diferente e o jogo é elegante. Faço por paixão e diversão”.

A geração mais jovem também começa a se interessar pelo esporte. A estudante Luíza Coelho, 15 anos, sempre quis praticar esgrima. “Meu filme favorito na infância era Os Três Mosquiteiros, eu adorava as cenas de combate”. Com seis meses de treino, Luíza já percebe melhoras no raciocínio e fortalecimento nos músculos das pernas.

Filipe Cardoso/Especial para o MetrópolesFilipe Cardoso/Especial para o Metrópoles

 

Indicada para todas as idades, desde crianças até idosos, a esgrima traz benefícios diferenciados ao organismo. “Os primeiros sinais positivos aparecem na melhora da concentração e na coordenação motora, além do desenvolvimento de raciocínio rápido e autocontrole”, garante o mestre de armas Francisco Busolli.

Em nível nacional, o Ministério do Esporte apoia atualmente 143 atletas da modalidade por meio do Programa Bolsa Atleta, num investimento anual de R$ 2,7 milhões. De acordo com a Confederação Brasileira de Esgrima, há cerca de 4 mil esgrimistas no Brasil. Em Brasília, a estimativa é de 30 a 40 praticantes, cerca de 1% do total. Segundo a organização, existem 25 escolas e mais de 20 entidades relacionadas a essa prática desportiva. Além disso, o Brasil conta com 25 mestres de armas habilitados, apesar de nem todos permanecerem no país. Em 2018, os cofres públicos investiram R$ 2,4 milhões no esporte.