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No século 6 a.C, o filósofo grego Pitágoras foi um dos primeiros a levantar o questionamento sobre o formato da Terra. Na época, se acreditava em um planeta plano. Já em 3 a.C, o matemático Eratóstenes fez um experimento medindo as sombras de objetos em duas cidades diferentes, provou, assim, que o mundo é esférico (no mesmo horário, com a mesma incidência solar, as duas sombras eram diferentes) e, de quebra, mediu a circunferência do astro (e quase acertou).

Mas, até a época das grandes navegações, não havia consenso sobre a forma do planeta e, muito menos, se ele giraria em torno do Sol ou o contrário. Se acreditava que o horizonte era, na verdade, o fim do mundo e, depois dali, os barcos cairiam em um abismo habitado por monstros. Acima de nós, o firmamento. O navegador Cristovão Colombo, ao dar a volta no planeta, ajudou a comprovar o formato arrendondado.

Muita gente foi ameaçada ou até morreu por dizer que essa era a forma do planeta, mas hoje temos a Terra Redonda como verdade universal. Há várias fotos de satélite e a ciência afirma categoricamente: nosso mundo é redondo.

Porém, um número cada vez maior de pessoas no mundo inteiro questiona essa informação. Os chamados terraplanistas acreditam que vivemos em um planeta plano, como um disco. Ao redor dele, uma parede de gelo (como a grande muralha de Game of Thrones) seguraria os mares para evitar o vazamento nas bordas — o tratado da Antártica, que impede turistas de simplesmente se aventurarem pelo continente gelado, seria uma prova do complô entre líderes mundiais. Acima, o firmamento, em forma de cúpula. A Lua e o Sol seria muito menores e orbitariam em torno da Terra dentro desse domo.

“A Terra Plana está provada”
Se o conceito de Terra Plana não é nada novo e nunca deixou de existir, há alguns anos ele voltou a ser destaque. Recentemente, os astros do basquete Kyrie Irving e Shaquille O’Neal e o rapper americano B.o.B declararam publicamente compartilharem da ideologia terraplanista.

O autônomo e professor brasiliense Siddhartha Lemos, 34 anos, conheceu o movimento em 2015. Pesquisador de teorias da conspiração há cerca de 10 anos, esbarrou com um documentário na reprodução automática do YouTube enquanto trabalhava (ele faz maquetes eletrônicas e animação gráfica para projetos de arquitetura).

“Fiquei impressionado. Larguei o mouse e comecei a prestar atenção. Caramba, fez muito sentido. Assisti ao vídeo três vezes e, de repente, tudo se encaixou. Fiquei três dias sem conseguir dormir”, lembra.

Arquivo Pessoal

O autônomo decidiu correr atrás de mais informação. Assistiu vários vídeos, leu muito, entrou em um grupo de Whatsapp com mais de 150 terraplanistas e adentrou de vez no universo Terra Plana. “Nem todas as pessoas são capazes de aceitar que vivem em uma ilusão. A Terra Plana não é só o formato do mundo, é a ponta do iceberg e abre portas para entender muitas outras realidades”, explica. “Quanto mais eu acredito em alguma coisa, mais eu quero saber sobre aquilo”, completa.

Siddhartha se tornou um dos principais nomes do movimento Terra Plana no Brasil: é um dos donos da página A Terra É Plana (com cerca de 100 mil curtidas no Facebook), responsável pelo canal Professor Terra Plana (com quase cinco mil inscritos), e por vários outros grupos. Ele conta conhecer quase todos os formadores de opinião, donos de páginas e canais da teoria espalhados pelo Brasil. A maioria é constituída de pessoas de direita, conservadoras e dispostas a questionar a autoridade do conhecimento científico.

Os maiores desafios, segundo o polêmico pensador, são manter o ceticismo, aprender a lidar com a crítica de maneira racional e não levar o ódio da internet para o pessoal. O autônomo afirma que o maior inimigo da Terra Plana é o “controle mental imposto, responsável por forçar as pessoas a fechar os olhos e defender até a morte o modelo tradicional”.

Reprodução

Terra plana
Segundo os terraplanistas, a informação de que a Terra é um globo estaria completamente equivocada, sendo fruto de uma grande conspiração entre todos os líderes do mundo e algumas sociedades secretas. O mapa aceito pelo movimento é a Projeção Azimutal: nela, o Polo Norte ocupa o centro, utilizado como emblema da Organização das Nações Unidas (Onu) – mais uma “incontestável” prova do conhecimento governamental do real formato do planeta.

O modelo é estacionário, as estrelas não são astros, gravidade é uma mentira e o Big Bang, uma grande balela. Há outras explicações para os eclipses (inclusive o “Sol Negro” seria um terceiro corpo celeste no céu, responsável por encobrir os astros). Os satélites também são tidos como uma enganação – todas as imagens feitas seriam obra de montagens no Photoshop, e os outros planetas nem mesmo existem.

Há uma série de argumentos e experimentos feitos pelos terraplanistas para refutar as leis da ciência. Por trás de toda essa “farsa” do Globo, estariam a Maçonaria, uma das sociedades secretas mais antigas do mundo, a ordem dos jesuítas e até os Iluminatis.

Se você quiser controlar alguém, então a melhor maneira é mentir  sobre a própria realidade do mundo. Nosso planeta é governado por psicopatas que querem nos manter escravizados através de mentiras, nos doutrinando a acreditar sermos insignificantes em um vasto e infinito universo. Além de inventarem termos evoluídos de macacos, tirando o propósito real de nossas vidas. Eles o fazem para a gente não saber nossas verdadeiras origens, sobre onde vivemos e o nosso criador"
Siddhartha Lemos

Apesar do modelo ser baseado principalmente em descrições bíblicas, nem todo terraplanista crê em Deus — alguns são até ateus e há pessoas de todas as religiões —, mas o movimento nega o evolucionismo e o Big Bang. Mas, eventualmente, é preciso questionar quem criou o ser humano, por exemplo.

Siddhartha explica que a Terra Globo e o evolucionismo são ilusões criadas para as pessoas acreditarem serem poeira espacial e insignificantes. Por isso, vários terraplanistas iniciantes acabam se convertendo, usuários de drogas deixam os tóxicos e pessoas com pensamentos suicidas se curam. “A verdade é dura, enquanto a mentira te conforta e te mantém. É preciso ser um pouquinho questionador”, pondera.

A Terra Convexa
Nem todos os terraplanistas acreditam no mesmo modelo. Há outra opção, a da Terra Convexa, sugerida pela Dákila Pesquisas. Durante sete anos, os estudiosos brasileiros, em parceria com profissionais internacionais, fizeram experimentos com lasers e telescópios em vários lugares do mundo e acreditam ter chegado no que, de fato, seria o modelo ideal do planeta.

Dákila Pesquisas/Divulgação“A principal diferença entre os dois é que os pesquisadores da Terra Plana consideram o planeta 100% plano. Já na Terra Convexa, constatamos cientificamente uma planicidade total nas águas e uma suave convexidade nos continentes”, explica Urandir Fernandes de Oliveira, presidente do Dakila Pesquisas.

Nesta sugestão, existiria ainda um novo continente, localizado atrás de um dos lados da barreira de gelo. Em março de 2018, foi lançado, em mais de 90 países e em 13 línguas, um documentário que mostra os experimentos e as conclusões do estudo.

A inquietação de Urandir quanto ao formato da Terra começou com a falta de lógica dos ensinamentos no meio acadêmico, algumas vezes até contradizendo as leis da física. “Eis alguns exemplos: aprendemos que o planeta é uma esfera girando no espaço. Ora estamos na parte de cima, ora na parte de baixo, e ninguém percebe que está de cabeça para baixo, e a velocidade do giro é superior à velocidade do som; mesmo assim não somos arremessados espaço afora”, fala.

Outro problema claro, para o presidente da Dákila, é o entendimento de que as águas se curvariam sobre a superfície do globo quando a física preconiza: o comportamento do líquido tende sempre ao nivelamento.

Polêmica
Segundo Siddhartha, a Terra Convexa e a Flat Earth Society (Sociedade Terra Plana, uma das maiores associações internacionais sobre o assunto) são, na verdade, “oposições controladas”. “Trata-se de um indivíduo e ou grupo que se auto-denomina publicamente contra o sistema mas, na verdade, serve aos interesses do mesmo e promove, sorrateiramente, a sua agenda”, ataca.