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A maternidade é um parto. A frase é título do primeiro episódio da série Turma do Peito e reflete bem o conjunto da obra e a realidade de mulheres que, após se tornarem mães, lidam com as dores da maternagem e o processo de se conhecer novamente. Nas redes sociais, muitas delas fazem desabafos, desmistificam o ‘padecer no paraíso’, compartilhando o sofrimento que nasce junto com o bebê, fomentando a discussão em torno da maternidade real.

No fim de abril, a atriz Samara Felippo, de 40 anos, disse em uma publicação no Instagram que ama as filhas, Alícia e Lara, mas não ama tanto ser mãe. A declaração repercutiu e houve quem se identificasse e quem achasse um absurdo, mas ela garante que recebeu muito mais apoio do que críticas negativas.

“É muito culposo falar isso. [A mulher] Vai ser tachada como mãe ingrata, egoísta, cruel. É uma sociedade inteira apontando o dedo desde que você engravida”, disse Samara ao E+. Com o apoio de outras mulheres, mães ou não, ela percebeu que o que sentia era normal e buscou não se culpar por estar sendo uma “péssima mãe”.

A reação contrária a declarações como a de Samara faz parte de uma cultura que vê a mulher como predestinada à maternidade. Pelo mesmo motivo, condena aquelas que decidem não serem mães. Mesmo quando o ambiente deveria ser de compreensão e acolhimento, de alguma forma, a mulher que se torna mãe é vista dentro de um modelo padrão.

“A primeira coisa que questionei foi como as mães são marginalizadas pelo feminisno tradicional. Simone [de Beauvoir] dizia que a mulher era escrava da espécie porque gerava e criava [filhos] o tempo inteiro. Acho que é um argumento muito triste para o feminismo contemporâneo, porque rejeita a maternidade como uma condição de liberdade de realização em vez de ver a maternidade como um grande poder feminino”, comenta a escritora feminista Nana Queiroz, de 33 anos, autora dos livros Presos que Menstruam e o mais recente Eu, Travesti, sobre a vida de Luisa Marilac.

Mãe de Jorge, de oito meses, Nana usa suas redes sociais para compartilhar reflexões sobre a maternidade. Ela já falou sobre a perda de identidade da mulher que se torna mãe, a dificuldade da amamentação (ela perdeu um terço de um mamilo), o padrão de beleza no pós-parto e sobre a divisão de tarefas e carga mental com o marido.

Outra mulher que compartilha suas experiências da maternidade é a designer e ativista Thaiz Leão, de 29 anos, autora do livro O Exército de Uma Mulher Só. Sabe aquela história de “vou ter de desenhar para entenderem”? Pois é, ela foi lá e desenhou. Por meio do perfil @a_maesolo no Instagram, ela ilustra como é ser mãe solo e critica termos ‘encorajadores’ como “mãe guerreira”.

“Isso é tipo um golpe e as pessoas aceitam cair no golpe. É golpe você se submeter a dar tudo de si e mais um pouco para, no final, alguém falar: ‘é fazer o que tinha de ser feito’. E quando muito ganha um ‘guerreira’. Eu não quero viver minha vida para chegar no final aniquilada, sem autonomia social. A maternidade cobra uma conta hoje que faz você chegar aniquilada no final e ganhar um ‘parabéns'”, avalia Thaiz.

A pressão social para ser mãe
Marília Lamas, especialista em sociologia política e cultura, abordou o papel social atribuído à mulher e às mães em seu livro De Menina e De Menino. “A ideia de que toda mulher sonha com a maternidade está muito mais relacionada à cultura que valoriza o papel da mãe do que, de fato, a uma tendência natural e inata, a um instinto”, escreve. “Essa pressão social é apreendida e absorvida tão intensamente pelas mulheres que elas mesmas se tornam as maiores porta-vozes desse discurso da obrigação”, completa.

A antropóloga Mirian Goldenberg, professora na Universidade Federal do Rio de Janeiro, foi uma das autoras que serviu de base para o livro de Marília. Em entrevista ao E+, ela comentou o mito do instinto materno. “Quando você não compreende que a cultura determina valores, acaba recorrendo a questões biológicas, da natureza. Mas esta também é uma construção da cultura. Se [maternidade] fosse instinto universal, não teria mulheres que não querem ter filhos”, diz a antropóloga.

Essa cultura e pressão estão tão enraizadas na nossa sociedade que as mulheres as reproduzem sem perceber. Samara Felippo acredita que, inconscientemente, a mãe dela mostrou que a base familiar era a coisa mais importante na vida de uma mulher. “Ela nunca foi uma mulher frágil, sempre trabalhou, mas traz com ela uma sociedade muito machista.” A atriz afirma que idealizou a maternidade e hoje diz que, quando decidiu ser mãe, aos 30 anos, não sabe se foi “por vontade própria ou pela criação que tive”.

Mirian, que estuda a cultura e as mulheres alemãs, conta que a decisão de ser mãe ou não é vista de forma muito mais natural na Alemanha do que no Brasil. “Ter filho continua sendo uma experiência obrigatória aqui se comparado com outros países. [Ser mãe] É uma escolha, mas não tão livre quanto em outras sociedades”, afirma.

As diferenças também ocorrem de uma época para outra. Em seu livro, Marília Lamas cita a filósofa francesa Elisabeth Badinter, autora do livro O Mito do Amor Materno, que analisou as formas de maternidade comuns no século 18. Naquele tempo, a maioria das mães entregava seus filhos, logo após o nascimento, aos cuidados de uma ama. A criança viveria longe da família biológica e só encontraria a mãe novamente anos depois. Essa prática era totalmente comum e não gerava nenhum sentimento de culpa à mulher, que não era julgada por isso.

A quebra do mundo perfeito
Thaiz Leão não esperava ficar grávida aos 23 anos. Demorou até cair a ficha. Ainda no hospital, após fazer o teste que comprovava a gestação, já começou a ouvir frases do tipo: “você é muito jovem, vai estragar sua vida”. No seu círculo social, havia apoios e críticas por decidir seguir com a gravidez sozinha. “A partir do momento que o mundo descobriu que eu estava grávida, estava constantemente num lugar de ausência, de não cumprimento social, que é casar, morar junto. Desde o começo, eu estava num não lugar: nem de autonomia nem de escolha”, conta a designer.

Samara, que tinha idealizado a maternidade, diz que não sabe exatamente quando começou a questionar esse papel social, mas a separação do ex-marido foi um fator importante. “Quando me separei, percebi que aquela estrutura familiar que a sociedade impõe não era o que eu tinha esperado, não deu certo. É um sentimento de frustração muito grande e a sociedade não ensina a lidar com a frustração.”

A maternidade também quebra com o mundo da mulher que sempre existiu antes de ser mãe. “Ser mãe é uma proposta de aniquilação da mulher. Quando a mãe vem, a sociedade mata a mulher, mas como ela não morre, a gente caminha com depressão, angústia, que alimenta depressão pós-parto”, diz Samara. Nana e Thaiz relatam que, desde a gravidez, eram excluídas de forma sutil de seus círculos sociais, como se a maternidade não pudesse fazer parte do mundo. A postura é contraditória, uma vez que existe a pressão para a maternidade.

A culpa e a libertação de ser mãe
“Amo ser mãe, mas nos dois primeiros meses odiei. Acordava a cada duas horas, meu peito doía, empedrou. Foi a época mais infeliz da minha vida, eu estava exausta”, conta Nana Queiroz. “Nunca imaginei que me sentiria culpada por não estar amando amamentar, gritando de dor. Tive crise de pânico e tomei antidepressivos.”

A culpa também vem da sociedade que, além do mito do instinto materno, “vem com o mito do que é ser mãe, que ninguém sabe direito o que é, mas é um pacote pesado”, diz a antropóloga Mirian. “Quando tentam colocar essas regras, você fica perdida, porque é contraditório: ‘deixe seu filho independente, mas o proteja do perigo’. É uma sensação de fracasso e inadequação permanente, culpa por estar errando independente do que fizer.”

Nana, Thaiz e Samara compactuam com o fato de que uma rede de apoio é essencial para as mães. “Só de poder trocar com outras mulheres, no grupo de amamentação, eu pude refazer minha estabilidade emocional. Aprendi que isso é transitório, que é normal sentir medo e culpa”, diz a escritora.

Pensando nisso também, Thaiz criou o projeto A Casa Mãe, que busca financiamento virtual a fim de proporcionar um espaço em que as mães dividam experiências. “Temos de sair da perspectiva de sonho e começar a ver a realidade [das mães] sem agredir. Porque a realidade de uma mãe é a de milhares de mulheres”, diz a designer.

Samara considera que a rede de apoio é essencial também para os dias em que a mulher quer dedicar tempo para si, sem os filhos. Mais do que oferecer apoio, as mães também precisam reconhecer esse apoio. “A rede é muito importante para mães que, às vezes, se colocam em posto de mulher maravilha e não aceitam ajuda.”

“A vida é muito difícil para todo mundo, com ou sem filho”, diz Mirian. “O filho pode ser fonte de conforto e pode ser o oposto disso. O ideal é pensar que, apesar de existir idealização e pressão social para as mulheres serem mães, quando se mostra a realidade do País e de outras culturas, elas podem ter mais liberdade de escolher e lidar com os problemas”, afirma a antropóloga.