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(Atenção: imagens não recomendadas para menores de 18 anos).

Enquanto o nu feminino — desde que caiba em um padrão — é aplaudido e consumido pela sociedade, a visão de um homem pelado pode incomodar muita gente. Projetos fotográficos de arte erótica querem naturalizar a nudez masculina, descobrir da onde vem o desconforto com essas imagens e diante do próprio corpo.

O resultado dessas iniciativas são revistas virtuais ou tradicionais. Os ensaios envolvem homens comuns, com vários biotipos. As fotos são feitas na casa do “modelo” ou em espaços abertos, como cachoeiras e prédios abandonados. A figura do homem supermalhado, milimetricamente esculpido, fica em segundo plano. Ela também tem espaço, mas não é o único modelo possível a ser retratado.

Brasília ganhará a sua primeira publicação com esse tipo de ensaio artístico, em breve. O fotógrafo André Carlos elaborou a revista “Nudus”, como trabalho de conclusão de curso de fotografia. Convidou 10 modelos para tirar a roupa na frente de suas lentes. Oito brasilienses e dois goianos aceitaram a proposta.

“Recebi críticas porque o padrão dos homens retratados é malhado e bonitão, mas é a nossa primeira edição e fiz com quem aceitou posar. Qualquer um pode se oferecer. Não é fácil encontrar quem tope. O preconceito vem muito relacionado à sexualidade. O homem hétero, em especial, se preocupa muito com o que vão pensar dele, se vão dizer que ele está na G Magazine, que não tem nada a ver com a Nudus”, explica André.

A Nudus precisa de apoio para sair da internet e ganhar vida. André faz uma campanha no cartarse para conseguir o dinheiro necessário para edição e impressão. O colaborador (ou colaboradora) leva um exemplar e pode escolher o modelo que deseja ver na capa.

São 10 ensaios, no total. Quem quiser ajudar tem até 21 de março para fazer o pagamento. Se conseguir vender todos os exemplares, André poderá custear também sua ida a Londres, onde tem convite para fazer uma exposição fotográfica.

Entre os homens que tiraram tudo nas páginas da Nudus está Lucas Kubitschek, que levou o título de Mister Universo Brasil, em 2013, mas perdeu a coroa em seguida, justamente em uma polêmica sobre fotos sem roupa. O organizador do concurso alegou que os candidatos não poderiam ter feito, em nenhum momento da vida, fotos nuas. Lucas argumentou que o material era artístico e somente fotos pornográficas eram vetadas. Ele entrou na Justiça para reaver o título, mas não teve sucesso.

vambora gente ✨? www.catarse.me/nudusmagazine

Uma foto publicada por André Carlos (@andreccarlos) em

É arte e, acima de tudo, trabalho"
Lucas Kubitschek, em uma rede social.

Diversidade

Quem não se identifica com os gominhos da barriga de Lucas Kubitschek — e quem se sente mais atraído por outros tipos de beleza — também tem vez. Em meio aos trabalhos brasileiros que ressignificam o nu masculino, a revista virtual Flesh Mag, do Rio de Janeiro, acerta na diversidade. Homens altos, baixos, gordos, magros, de todos os tons de pele e estilos estampam a página.

Um dos ensaios chama a atenção de maneira especial: o arquiteto Tito Cunha, de 70 anos, se despiu para as lentes de Rafael Medina e João Maciel. “Nossa ideia principal é dizer que todo corpo, independente de atender a determinados modelos, pode ser desejável e belo. O nu não precisa estar associado ao sexo, o corpo é algo natural”, explica Rafael Medina.

Flesh Mag / Rafael Medina

O arquiteto Tito Cunha, 70 anos, foi um dos modelos

Flesh Mag / Rafael Medina

O nu frontal masculino e o choque da sociedade: elementos do trabalho da Flesh Mag

A Flesh Mag começou em maio de 2015. Um novo ensaio é publicado a cada 15 dias. Os modelos são voluntários. “A ideia é fazer uma revista on-line que dê visibilidade a vários modelos de beleza — dentro e fora desse padrão –, à diversidade dos corpos masculinos”, diz Rafael.

Queremos dizer que o nu não é digno de vergonha ou moralmente reprovável. Não é desmoralizante"
Rafael Medina

O público da revista é formado majoritariamente por homens gays, mas as mulheres já representam 40% da “audiência”. “A sociedade lida muito mal com o nu, há uma questão machista envolvida. Aceita-se o nu feminino só para objetificar a mulher. É um esforço nosso para que isso seja menos fetichizado e problemático, para que as pessoas se relacionem melhor com o próprio corpo”, afirma o fotógrafo.

 

“Hoje todo mundo posta nude. Que nu você quer mostrar? Por que mostrar o nu, se existe essa cultura de nude? Para pensar politicamente essa nudez: para falar com as pessoas fora do padrão. É um esforço em direção a uma mudança. A gente sempre recebe mensagens de gente que se sentiu mais confortável consigo mesma depois de ver as fotos”, questiona Medina.

 

Outros projetos
“O nu masculino não é mais o mesmo. Virou lugar comum, está em todos os lugares, quase não choca. E isso não é necessariamente ruim. Mas como trabalhar essa questão sem cair no clichê do kitsch, do gratuito, da rotina?”, são as perguntas que o SNAPS, do fotógrafo Gianfranco Briceño, se propõe a responder.

Reprodução do Facebook

Quando o fanzine começou a ser publicado, há um ano, a questão ainda não era essa. Era para ser um portfólio, um zine de amigos posando para amigos folheando. Mas a repercussão transformou o projeto em outra história – que tomou corpo e nos fez repensar e redescobrir a cada edição, explica a descrição da página.

O SNAPS também é um projeto de pesquisa, que pretende saber mais sobre como se formou o ideal de beleza clássica ocidental e o conceito de sexualização do corpo jovem. “O Davi de Michelangelo é o ponto de partida primordial, base na qual foi construído a imagem calcada no pensamento do desejo do homem moderno – seja refletido em si, ou no outro”, diz o texto de apresentação.

The Lonely Project, Ricardo Rico

 

Washington Fonseca, The Lonely from São Paulo..Projeto completohttps://instagram.com/the.lonely.project/..

Publicado por The Lonely Project em Quarta, 20 de janeiro de 2016

 

A linguagem da solidão dá o toque especial — e diferencial — ao projeto de Ricardo Rico, que “tem a intenção de mostrar a beleza masculina de uma forma intimista”. Ele se propõe a ser natural e ousado, ao mesmo tempo, ao mostrar a beleza e a intimidade masculinas como algo cotidiano.

“Em junho de 2015, resolvi abrir uma ficha de inscrição em uma conta no Instagram, com a ideia de encontrar homens que topassem abrir a porta de sua casa pra mim. Em dois meses, sem divulgar a ideia, fui surpreendido com quase 300 inscritos espalhados pelo Brasil, e a partir de então o The Lonely Project começou a tomar forma e cresceu vertiginosamente. Fiquem à vontade e olhem pela janela o que pude ver de perto”, diz Rico, em sua página oficial.

‘Chicos’, Fábio Lamounier e Rodrigo Ladeira

“É um projeto/publicação de arte, gay e independente, que busca essa pluralidade por meios de registros que nós dois realizamos, e também de colaboradores que dialoguem com este tema. Um olhar de dentro da história e experiência individual de cada participante gay. Emprestado do espanhol e dos ‘Franciscos’, o projeto será composto de entrevistas + ensaios: todos relacionados com a experiência pessoal e coletiva do que somos no dia-a-dia, o nosso corpo, nossas descobertas e opiniões”, explicam Fábio Lamounier e Rodrigo Ladeira.

Foto: Fábio Lamounier/Chicos Foto: Rilbert Andrade / Chicos

 

 

 

 

 

  • Onde encontrar:

Snaps Fanzine
https://www.facebook.com/snapszine
http://www.snapsfanzine.com.br/

Chicos
https://www.facebook.com/aboutchicos
http://www.chicos.cc/

Flesh Mag
https://www.facebook.com/fleshmag
http://flesh-mag.com

The Lonely Project
http://thelonely-project.tumblr.com/
http://www.ricardorico.com/loja/thelonelymag/
https://www.instagram.com/the.lonely.project/

André Carlos
https://www.facebook.com/andrecarlosfotografia
https://www.catarse.me/nudusmagazine



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