Chega de gordofobia: é possível ser gordo, ativo e saudável

Pessoas acima do peso dão o exemplo e pesquisas médicas ajudam a tirar o estigma de que obesidade equivale a ser sedentário

Stela Woo/Metrópoles

atualizado 20/07/2018 14:34

Você já riu do corpo de outra pessoa? Falou mal daquele amigo que engordou? Disse para alguém perder peso por causa da saúde? Todas essas atitudes se enquadram em gordofobia e demonstram como o preconceito com essa parcela da população está enraizado na sociedade.

Por não se encaixarem no padrão de beleza tradicional, pessoas com corpos gordos ficaram sem representação e, por isso, começaram seus próprios movimentos para serem vistas e escutadas. Um deles é o body positive (positividade corporal, em tradução livre). Essa corrente deseja mostrar que todos os tipos corporais são bonitos e quebrar a imagem dos gordos como sedentários e sem saúde.

“Durante a infância e adolescência, sempre fui muito magra, gordofobia nem passava pela minha cabeça. É um tipo de segregação extremamente velada e quase impossível de se pensar quando você não está na mira, até porque a gente aprende que ‘ser gordo é estar doente'”, afirma Tereza Eickmann, de 23 anos, jornalista e desenvolvedora do site As Gordas Também Amam

A associação entre peso elevado e problemas de saúde é reforçada no meio médico, no qual a obesidade e o sobrepeso causam preocupação. “O excesso de gordura leva a um processo inflamatório crônico, capaz de acarretar uma sucessão de problemas. Esse acúmulo pode produzir substâncias responsáveis por gerar distúrbios a longo prazo – por exemplo, inflamação tecidual, artérias entupidas e doenças vasculares”, explica a endocrinologista do Hospital Santa Luzia Cristina Blankenburg.

No entanto, esclarece a especialista, não se pode generalizar. Gordo não é sinônimo de doente. Existem pessoas obesas livres de indicadores de diabetes ou doenças vasculares, por exemplo. “O sedentarismo é até mais importante. Indivíduos [com IMC na média] sem costume de praticar atividades físicas às vezes morrem com maior frequência do que aqueles acima do peso e ativos”, comenta.

Para o estudante de arquitetura e urbanismo João Sathler, 18 anos, ser questionado sobre a saúde é a discriminação mais frequente no dia a dia. “A sociedade enraizou em nós que, automaticamente, a pessoa gorda é sedentária. Esse é meu biotipo, consigo ter uma condição boa sem precisar ser magro”, avalia.

“A gordofobia não acontece apenas por meio de xingamento ou piadas, ela se dá também quando seus direitos são negados por ser uma pessoa gorda. No começo do ano passado, tive dificuldades para entrar em um plano de saúde porque achavam que eu era doente ou queria fazer bariátrica”, diz Flávia Durante, de 41 anos, criadora do Pop Plus – feira de roupas e cultura plus-size em São Paulo.

Divulgação
Flávia foi vítima de ataques gordofóbicos na internet


Depois de participar de uma propaganda, a empresária foi bombardeada com mensagens sobre sua saúde – algumas garantiam que ela iria morrer a qualquer momento.
 “Cheguei a pensar em divulgar meus exames para mostrar meu ótimo estado, mas lembrei de quando as pessoas iam a público, nos anos 1990, mostrar exames de HIV para provar não serem soropositivas”, conta. “Não precisamos nos justificar”, completa.

Pelo fim do preconceito
A negação do plano de saúde para Flávia é mais um capítulo da gordofobia presente nos consultórios médicos. Para combater essa discriminação e incentivar atendimentos melhores, a comunidade norte-americana Health at Every Size incentiva a aceitação do corpo e o desenvolvimento de um estilo de vida saudável, em vez de dietas restritivas.

Uma pesquisa do Instituto Nacional de Câncer americano revelou, em 2012, um dado surpreendente: indivíduos moderadamente obesos e “acima do peso” vivem cerca de três anos a mais do que quem é magro. Nos últimos anos, estudos divergentes do discurso da magreza têm ganhado mais espaço na comunidade médica.

Arquivo pessoal
João não se incomoda com a negatividade, mas se preocupa com a falta de acessibilidade

 

Falta acesso
Além dos xingamentos, comentários invasivos e preconceito constante, pessoas gordas também reclamam da falta de acessibilidade. “A sociedade faz um preconceito indireto com o nosso corpo, como a catraca pela qual só magros conseguem passar, a cadeira do ônibus que suporta apenas indivíduos até certo peso e a apertada poltrona de avião”, fala João.

Em meio a tantas discriminações, trabalhar a mente é essencial. “Se você não se amar ou se aceitar, esse controle da sociedade irá destruir sua autoestima. O mais importante é trabalhar a autoconfiança. Quando você se comprende por inteiro, o pensamento do outro perde efeito”, aconselha a psicóloga Lia Clerot.

“Não admito levar desaforo por ter um corpo grande. Tento ao máximo mostrar para a sociedade que eu sou saudável e tenho vida ativa. Não sou sedentário, posso fazer tudo, tenho vida sexual e os mesmos direitos. Ser gordo é ser eu mesmo, e isso é maravilhoso”, conclui João.

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