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O ar-condicionado mantém a temperatura em frios 19ºC, contrastando com o calor escaldante do lado de fora daquela pequena sala comercial no Sudoeste. Ainda assim, um sopro percorre meu corpo da cintura até a nuca como um afago que aquece a pele e alivia o nervosismo.

Estou totalmente despido na companhia de uma pessoa desconhecida. Mas, antes de a imaginação partir para divagações não publicáveis, apenas recebo a primeira massagem tântrica da minha vida. Entre o receio inicial de vivenciar aquela experiência e as dezenas de orgasmos não ejaculatórios que me fizeram ver meu corpo de outra forma, há um mercado ascendendo em Brasília.

Muito mais que a busca de prazer sexual, o tantra encontrou na cidade um ambiente de união do autoconhecimento a um público bem informado e disposto a pagar para conhecer melhor os caminhos até o prazer — entre massagens e workshops, os custos podem variar de R$ 250 até R$ 2 mil. “O cliente aqui é diferente de São Paulo. Lá, as pessoas sempre estão testando um terapeuta novo. Em Brasília, se você faz um bom trabalho, vai repeti-lo. Eles são muito fiéis”, garante a paulista Maya Shivani, que atende na capital há dois anos.

Arquivo Pessoal

Maya Shivani. “O cliente aqui é diferente de São Paulo. Lá, as pessoas sempre estão testando um terapeuta novo. Em Brasília, se você faz um bom trabalho, vai tê-lo de volta. Eles são muito fiéis”.

Mesmo sem um ranking estabelecendo quais cidades mais exploram o tantra, o fluxo de terapeutas vindos de outras regiões atesta que os brasilienses estão dispostos a vencer as barreiras do preconceito para entender melhor a si mesmos e aos parceiros. Tiago Brumatti é de São Paulo, tem 29 anos e pretende, em 2018, abrir um centro de terapias alternativas no Lago Sul. A empreitada começou quando ele aportou no Planalto Central trazendo a massagem tântrica como carro-chefe.

“Nosso espaço em São Paulo era muito procurado por moradores de Brasília. Eles diziam para eu investir aqui. Me surpreendi com o público”, conta. Tiago afirma que, diferentemente de outros locais onde a clientela chega em uma busca mais direcionada apenas pelo prazer físico, quem é atendido aqui se mune previamente de todas as informações possíveis. “Os clientes vêm com uma base de pesquisa sobre o tantra, mostrando compreender a parte terapêutica. Há uma atenção pela cultura por trás disso”, garante.

O que é o tantra? 

Soraya Vidya e Viren: terapeutas de tantra e relacionamento consciente


O prazer além do sexo
Apesar de muita gente discordar, tantra não é (apenas) sobre sexo. Ainda que os estímulos sejam sexuais e envolvam toda a extensão do corpo — incluindo as zonas erógenas —, aquelas mãos percorrendo minha pele estavam ali como um instrumento de percepção. E, ainda que o sexo tântrico remeta a um gozo transcendental, praticá-lo vai além da libido e de imagens do Buda pelo quarto. É justamente esse preconceito, reforçado por serviços que deturpam a concepção milenar, a causa do afastamento de muita gente desse universo.

“A forma como muitos enxergam o tantra é distorcida porque estamos inseridos em uma sociedade que reprime o prazer. No entanto, ele vai muito além da parte sexual. Eu me reconectei comigo”, garante a empresária Juliana Jacinto, 36 anos. Ela teve a primeira experiência a convite do marido, mas levou meses para se decidir. “Fomos logo em uma imersão, com vários casais. Para mim, o sexo nem era a parte mais difícil. Mas, sim, ficar nua. No local, esse era o menor dos pontos. Além de sentir um orgasmo talvez jamais experimentado, o mergulho em si é sensacional.”

Michael Melo/ Metrópoles

“A forma como muitos enxergam o tantra é distorcida porque estamos inseridos em uma sociedade que reprime o prazer. Vai muito além da parte sexual. Me reconectei comigo”, garante a empresária Juliana Jacinto

A empresária participou de um dos encontros promovidos por Prem Gurutama, um dos mais conhecidos terapeutas tântricos do Distrito Federal. Ele garante que, mesmo com algumas concepções deturpadas, Brasília tem um perfil inclusivo e a cidade se destaca em relação a outras capitais. “Muitos nos buscam por indicação de psicólogos. A diversidade é grande, mas, em comum, eles têm uma espiritualidade menos repressora, capaz de entender a necessidade de ressignificar a energia sexual”, comenta. Esse “ressignificar”, muitas vezes, se traduz em uma tentativa de mitigar traumas carnais do passado ou presente que podem levar às disfunções sexuais.

Eduardo Bertero, coordenador geral do Departamento de Andrologia e Sexualidade Humana da Sociedade Brasileira de Urologia (SBU), afirma que, do ponto de vista médico, não há nenhum nível de evidência científica sobre a eficácia de terapias alternativas no tratamento de problemas relacionados ao sexo. “A SBU acredita na alopatia. Contudo, de um ponto de vista psicológico, as pessoas podem se beneficiar disso, pois mexe com partes muito íntimas do ser”, afirma.

De acordo com o especialista, até 40% dos distúrbios ligados a uma boa performance na cama têm fundo emocional. “Principalmente entre homens de 35 a 40 anos. Embora a diretriz da SBU indique a procura de um terapeuta sexual, o tantra pode ser algo que adicione”, completa.

A forma certa de escolher
Os tabus que envolvem o sexo claramente tornam a aceitação do tantra mais difícil, principalmente em uma sociedade de histórico repressor como a brasileira. Tabus machistas, como a exploração do períneo, precisam ser deixados de lado para o corpo sentir, de fato, o agrado do toque.

Há homens com dificuldade de aceitar o prazer como algo feito por uma mulher com a qual eles não estão transando. Já outros, chegam aqui me contando situações que jamais disseram para a outra pessoa, porque nunca tiveram coragem de se abrir."
Maya Shivani

A tradição milenar sugere que a sessão deve ser feita entre pessoas de sexos opostos, por isso, muitas mulheres temem procurar o tantra sozinhas. “Os homens são estimulados a se tocar. Isso ainda é difícil entre as mulheres. Ela tenta ficar 100% à vontade”, completa.

Dessa maneira, a forma mais segura de chegar ao tantra ainda é por meio de indicações. A fisioterapeuta Juliana Braz Queiroz, 39 anos, lembra que sua criação foi toda baseada em reprimir o sexo, não apenas em um âmbito de prazer, mas até no nível das conversas básicas.

Leonardo Arruda / Metrópoles

Gurutama e Daricha promovem workshops de tantra. “90% da minha clientela vem de indicações. Esse não pode ser um serviço que você acha nos classificados”

Por isso, quando decidiu procurar esses ensinamentos, precisou se certificar com amigos que já haviam tido a experiência anteriormente para, de fato, mergulhar nas possibilidades oferecidas. “Sou de uma época sem comunicação sobre a busca de satisfação sexual. Com o tantra, pude manter insights no meu corpo por semanas. Não é um prazer momentâneo, mas uma nova forma de entendê-lo. Por isso, é preciso confiar na pessoa que está ensinando”, frisa.

Segundo Gurutama, 90% dos clientes chegam até ele por indicações. De acordo com o mestre, as referências são fundamentais para entender que o tantra não é uma viagem puramente sexual. “Você se despe, não somente das roupas. Isso não pode ser algo para achar nos classificados. Ao aceitá-lo, permite alguém entrar em seu espaço de vulnerabilidade. Se feito bem, pode ajudar. Se mal, destruir”, conclui.

Abrir-se para o tantra exige, sim, uma boa dose de coragem. Entender que os terapeutas, ao tocarem seu corpo desnudo, vão te oferecer uma viagem sensorial no qual o gozo é quase perene e não um fim em si, é algo difícil de compreender — levar isso para a relação, pior ainda. Principalmente por vivermos em tempos nos quais o sexo é cada vez mais fácil e nem sempre exige conexão com o parceiro.

Mas, ao envolver a sexualidade, a terapia também mostra algo além do orgasmo puro e simples. “Buscar sua sexualidade é buscar a si mesmo. É uma experiência de negar o ego, o tempo, para você conseguir, de fato, vivenciar a sua essência”, afirma Gurutama. Que tal tentar?

 



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