Amor e psicopatia: o que leva as pessoas a se apaixonarem por assassinos?

Fãs-clubes, casamentos, relacionamentos dentro e fora da prisão... Experts analisam a identificação com psicopatas

atualizado 04/10/2021 15:49

PsicopataiStock

Com certeza você já ouviu histórias de serial killers e até estupradores que recebem cartas de amor, de admiradores secretos e que, até mesmo, têm fãs-clubes por aí. A situação não é incomum e é um fenômeno que acontece em todo o mundo, inclusive no Brasil.

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Recentemente, fãs-clubes de Suzane von Richthofen, que chocou o país em 2002 quando foi acusada de planejar a morte dos próprios pais, começaram a aparecer em algumas redes sociais. O trágico episódio foi retratado em dois filmes que estrearam na última semana: O Menino que Matou Meus Pais e A Menina que Matou os Pais.

“Maravilhosa, fadinha! Sempre linda em todas as fotos”, diz um dos perfis dedicados a exaltar Suzane.

Além disso, a vida amorosa da mandatária do assassinato dos próprios pais também foi alvo de discussões nas internet nos últimos dias. Por dois anos, a criminosa foi casada com Sandra Regina, sequestradora que foi condenada a 27 anos de prisão. Sandrão, como também é chamada, é ex-namorada de Elize Matsunaga – tão conhecida quanto Suzane e que foi presa pela morte e esquartejamento do marido, Marcos Matsunaga. Mas afinal, por que alguém se apaixonaria por pessoas assim?

Identificação

De acordo com a psicóloga e professora de psicologia forense da PUC-Paraná Maria de Fátima Franco, não apenas é possível como há algumas explicações bastante lógicas para isso: essa paixão acontece por existir algum tipo de identificação por essas figuras. “Pode ser o fato de admirar alguém que tem a coragem de cometer crimes bárbaros. E, se ela admira, é porque ela tem muito a ver com isso em termos de estruturação da sua personalidade”, explica.

“Mesmo que esses crimes bárbaros sejam condenados socialmente, ela acha que aquilo é algo louvável, que chama a atenção. Talvez goste de ouvir sobre os crimes, talvez aquilo que a pessoa cometeu lhe dá, de alguma forma, certa adrenalina por estar na companhia de alguém tão cruel”, esclarece a especialista, que fez trabalhos psicológicos com detentos em prisões.

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Mesmo após ter confessado que matou 36 mulheres, Ted Bundy recebia cartas de amor, presentes e chegou a se casar e ter uma filha
Identificação com o criminoso

Para a psicóloga, tudo se resume a uma inversão de valores. “Aquilo que deveria ser condenável por todos, para algumas pessoas não é. E não é porque elas não poderiam fazer isso [cometer crimes], mas por várias questões de educação familiar, de grupos sociais aos quais ela pertence ou, às vezes, até mesmo a religião. Ou seja, existem vários fatores que reprimem essa vontade de cometer crimes graves e, então, faz-se uma projeção”, emenda Maria de Fátima Franco.

A fama e a atenção da mídia em torno desses casos também ajuda a justificar esse tipo de comportamento, de acordo com a especialista.

“Pode, inclusive, passar pela cabeça desses fãs algo como ‘gostaria de ser daquele jeito’, ‘gostaria de ser uma pessoa agressiva/violenta’. E muitas são assim em determinadas proporções, basta observar”, ilustra a psicóloga.

Admiração do caos

Outra hipótese levantada, na percepção do médico psiquiatra e pesquisador na Universidade de Brasília (UnB) Luan Diego Marques, é a possibilidade desses fãs estarem em busca de uma identidade. “Algumas são pessoas novas, adolescentes em processo de autoconhecimento… São pessoas com uma fragilidade interna e que precisam mostrar que gostam do radical, para se sentirem como parte de um grupo”, analisa.

O serial killer de Goiânia matou 39 pessoas e, após ser condenado, advogadas do acusado recebiam mensagens e e-mail de admiradoras pedindo para visitá-lo
Características em comum

Para o médico, geralmente tratam-se de pessoas emocionalmente dependentes e com complexo de inferioridade.

O especialista conta que o perfil do psicopata é o de se adaptar, uma vez que costumam ser marcados pela frieza e pelo excesso de calculismo. “Eles não desenvolvem emoções e tudo o que fazem é visando um benefício próprio. Quando identificam esses grupos vulneráveis, preservam o discurso e a oratória para prender e conquistar a vítima”, pontua.

Alguns estudos indicam que ninguém nasce psicopata, o ambiente em que a pessoa vive é que favorece esse transtorno. Mas outras pesquisas já sugerem que pode existir uma combinação de traço genético e do ambiente que seja favorável para o florescimento desse transtorno. “Podemos pensar em uma pessoa que tem um pai ou mãe psicopata. Ela já tem aquela herança genética, se será desenvolvida ou não, vai depender do meio em que ela vive”, exemplifica Marques.

Os psicopatas se apaixonam?

A resposta é não. Apesar de se envolverem romanticamente, elas são incapazes de desenvolver sentimentos. O que acontece, de acordo com os experts, é que esse indivíduo vê o outro como um objeto no qual o principal objetivo é extrair um benefício. “Egocêntricas e o narcisistas, vale ressaltar que esse envolvimento amoroso só acontece até que ocorra uma devolutiva, ou seja, quando o psicopata atinge um ganho pessoal”, descreve o psiquiatra.

Normalmente, o que motiva essas pessoas é a raiva, bem como a relação de ganho e perda. Não há amor, empatia ou gratidão, por exemplo. “Vai ser sempre: o que eu ganho e o que eu perco com isso? As atitudes, as decisões e as escolhas vão partir do princípio de ganhar algo em troca”, ressalta Luan.

É isso que os torna frio. “Esse traço as fazem cometer crimes com facilidade, por não causar qualquer comoção em seu interior. Não existe arrependimento ou remorso para o psicopata.”

Richard Ramirez
Acusado de matar e estuprar mulheres e crianças, Richard Ramirez recebeu milhares de cartas de “amantes” que se diziam apaixonadas. Mesmo após ser condenado a morte, o criminoso se casou em 1996 e a relação só chegou ao fim em 2013, quando morreu de câncer 

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