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Rosângela Levy sempre gostou de ver a vida sob uma ótica positiva. Mas ela confessa que a saúde sempre foi deixada em segundo plano. Com a correria do dia a dia, ficava cada vez mais difícil para a psicóloga de 47 anos agendar exames de rotina e fazer check-ups.

Isso viria a mudar em abril de 2016, quando foi diagnosticada com câncer de mama. Curada em menos de oito meses, ela enxerga o obstáculo muito mais como um aprendizado do que uma batalha. À família e às amigas de oração, ela atribui papel fundamental nessa jornada que, até então, começou após uma visita despretensiosa ao endocrinologista.

“Queria fazer dieta e ele me pediu vários exames, inclusive a mamografia. Quando cheguei em casa, meu marido, que é médico, notou uma alteração na imagem. A princípio achei estranho porque não havia nenhum caso na família”, explica.

O marido de Rosângela, Sérgio Levy, ligou para um amigo radiologista e enviou o exame. Ele também achou estranho o formato. De forma rápida, ela já estava no mastologista para fazer uma biopsia, que viria confirmar um carcinoma em estágio inicial no seio.

“Perguntei ao médico quando havia espaço na agenda para ele me operar logo. Eu tenho filhos, um ainda criança. Entre estética e saúde, sempre escolho a saúde”.

Bruno Pimentel/Metrópoles

 

Após alguns dias, o resultado apresentava um tumor triplo negativo. Esse tipo, apesar de muito pequeno, é mais agressivo e se desenvolve rapidamente. Os médicos acabaram decidindo retirar as duas mamas. “Um câncer pode ser muito difícil para quem fica só, mas quando cheguei ao hospital, estavam todas as minhas amigas. Até eu entrar na sala de cirurgia, elas e meus familiares me encheram de amor e carinho”, recorda.

Apesar de o tumor ter apenas seis milímetros, os profissionais alertaram Rosângela sobre a necessidade da quimioterapia. Ela acabou descobrindo que se tivesse feito a mamografia no final do ano, como era de costume, pelo tamanho ele não seria percebido pelos médicos. Como ele se desenvolve muito rápido, estaria fazendo o tratamento exatamente agora e, talvez, não teria salvação.

Mesmo com as primeiras sessões de quimioterapia sendo agressivas, Rosângela manteve o pensamento positivo, o ritmo de oração e tentou seguir a mesma vida antes do diagnóstico. Segundo ela, contar sobre a doença para os filhos foi uma parte preocupante do processo. Por isso, escolheu tratar o câncer como uma realidade a ser vencida.

 

“Não queria que eles tivessem a percepção errônea desse momento, pois a maioria das pessoas sempre associa câncer com morte. Queria deixar para eles a lição de que diante das situações devemos ter uma atitude positiva. Por isso, me esforcei para a rotina deles permanecer idêntica — mesmo enjoada ou cansada. E isso foi muito bom porque não me permitia ter tempo de lamentar a doença”, relembra Rosângela.

O tratamento demorou seis meses para terminar. Durante esse tempo, ela eventualmente foi perdendo os cabelos. Os fios mais compridos receberam um corte bem curto em uma festa carinhosamente organizada pelas amigas. Porém, aos poucos, eles iam caindo em maior quantidade.

Arquivo Pessoal

 

Embora muitos acreditem que a queda do cabelo seja o momento mais dramático do tratamento, para Rosângela, o período é lembrado de maneira divertida. Após um bate-papo descontraído com o filho menor, chamou meu marido e juntos decidiram: os meninos iriam raspar a cabeça dela. “No final, uma coisa superpesada virou uma festa com os dois se revezavam para passar a máquina. Minha cabeça ficou cheia de caminho de rato”, diverte-se.

Bruno Pimentel/Metrópoles

 

Se por um lado ficar sem cabelos não tenha trazido tantos problemas para a autoestima de Rosângela, o ganho de peso realmente a incomodou. Como as doses de corticoide eram muito altas, ela ganhou de 2 a 3kg em cada quimioterapia, chegando a engordar 20kg ao final do tratamento.

“Mas eu falava para mim mesma: ‘Estou saudável e, aos poucos, tudo vai voltar ao normal’. Uma coisa muito importante nesses casos é olhar sempre para sua vida e história.”

Bruno Pimentel/Metrópoles

 

Rosângela terminou o tratamento no dia 16 de novembro de 2016 e foi recebida com festa na saída do Hospital Sírio-Libanês por familiares e amigas do grupo de dança. A camiseta rosa representava mais do que a luta pela prevenção ao câncer de mama. Nela, uma mensagem de carinho e apoio contornava o Salmo 30:5 da Bíblia Sagrada: “O choro pode durar uma noite, mas a alegria vem pela manhã”.

Arquivo Pessoal

 

Ao contrário do que muitos imaginavam, ela não sentiu os tradicionais efeitos colaterais de quem passa pela quimioterapia. Antes mesmo da última sessão, o cabelo de Rosângela voltava a crescer.

Para ela, as orações e o propósito de não procurar ou pesquisar os sintomas da doença foram a chave para manter o equilíbrio diante de um quadro tão trágico. “O câncer levou meu cabelo e meus seios, mas me trouxe momentos lindos de amor e amizade. Disso nunca vou me esquecer. Se alguém estiver passando pelo tratamento, confie que sua história é única e Deus tem algo bom para você. Milagres existem.”



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