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Há exatos 30 anos, a Rede Globo estreava em suas manhãs o programa Xou da Xuxa. A apresentadora Xuxa Meneghel, ainda não muito experiente, viria a apresentar um dos programas mais emblemáticos da década de 1980 depois de expirados os anos de contrato com a extinta Rede Manchete, onde ela comandava outra atração infantil: o “Clube da Criança”.

Apesar de já ser conhecida pelo grande público como modelo, a fama de Xuxa através do programa seria catapultada a nível mundial e a consagraria com o título de “Rainha dos Baixinhos”. O programa foi exportado para mais de 17 países e Xuxa comandou atrações semelhantes na Espanha, na Argentina e nos Estados Unidos. No entanto, muitos diziam na data de estreia que a carreira da animadora e o programa não durariam nem um ano.

O início
Antes de entrar na Rede Manchete, Xuxa brilhava em desfiles e capas de revista que a fizeram símbolo sexual dos anos 1980. Ao dar uma entrevista, onde ela divulgava um de seus ensaios sensuais, o diretor de TV Maurício Sherman chamou a relutante modelo para comandar o “Clube da Criança”, atração (a princípio) matutina da extinta rede de televisão.

“Durante os programas, ela mostrava grande irritação com as crianças. Eu peguei uns filhos de funcionários, botei e ela cutucava, dizia: ‘Sai, sai, você não serve para brincar, sai, sai, vou brincar com ela.’ Em seguida, dizia: ‘Já enjoei de você.’ E pegava outra. Tinha essa intimidade com as crianças. E, para minha surpresa, elas adoravam isso”, explicou Shermann em uma entrevista ao Terra.

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O programa, que não contava com diretor, era considerado “segunda linha” e não recebia muita atenção porque Sherman cuidava do resto da programação da Rede Manchete. Até Xuxa querer se profissionalizar e exigir um diretor. Ainda de acordo com ele, o primeiro que assumiu o papel tirou a naturalidade da apresentadora e ele logo mandou o cara zarpar.

Só aí entra em cena Marlene Mattos, produtora da Rádio Roquete Pinto e assistente de Sherman, que, apesar de resistente em ouvir os pedidos de uma modelo, logo começou a trabalhar com ela.

Enquanto o “Clube da Criança” ganhava cada vez mais a atenção, o “Balão Mágico” apresentado na Rede Globo tinha audiência estável, mas logo entraria em declínio diante da popularidade de Xuxa. A emissora decidiu cancelar o programa comandado por Fofão, Simony, Tob, Mike e Jairzinho e convidou Xuxa para estrear no canal.

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Inicialmente previsto para entrar no ar em abril de 1986, o programa sofreu diversas prorrogações. Uma delas devido ao cenário assinado pela cenógrafa Leila Moreira, que era praticamente uma segunda versão de sua antiga atração na TV Manchete — sendo reprovado pela apresentadora.

Logo, Xuxa chamou o cartunista Maurício de Souza para criar outro cenário extremamente colorido que misturava de forma alucinógena um parque de diversões com elementos intergaláticos – com a famosa nave inspirada no carro da Penélope Charmosa e no herói da infância de Xuxa, o Capitão Aza.

“Show da Xuxa” ou “Xuxa Show” foram as duas alternativas dadas pelo diretor de núcleo da atração José Bonifácio de Oliveira Sobrinho, o Boni. Pensando em implementar a linguagem do “X”, o “Xou da Xuxa” estrearia no dia 30 de junho de 1986, às 8h da manhã.

Reprodução YouTube

Dirigido por Paulo Netto (Marlene só viria a dirigir o programa em 1987, depois que Paulo ficou doente), a atração contava com desenhos animados, ginástica, atrações circenses, brincadeiras e quadros especiais. Xuxa agia com a mesma naturalidade, mas agora recebia o auxílio de ajudantes de palco que controlavam as mais de 200 crianças que faziam parte das gravações do programa.

O primeiro time de paquitas era formado por três meninas: Andréa Veiga, Andréia Faria e Louise Wischermann. Esse número viria a aumentar significativamente com o passar dos anos, ganhando inclusive um time masculino em 1989.  A “profissão” de Paquita seria uma das mais desejadas pelas adolescentes da década de 1980 e 1990.

Outros personagens também formavam a “Turma da Xuxa”. Dengue (Roberto Bettini, conhecido como Palhaço Muriçoca) e Praga (Armando Moraes) viriam a ser os primeiros, para logo depois aparecerem Xuxo (inspirado no cachorro da Xuxa), Frentinha e Moderninho, que surgiam na hora do sorteio de prêmios do programa.

Arquivo TV GloboNos primeiros meses da atração, a Revista Veja publicou uma longa matéria em 1986 falando do sucesso de Xuxa e chamando pela primeira vez a apresentadora de “Rainha dos Baixinhos”. Contratos de merchandising, campeã de cartas na Globo e maior vendedora de discos da época, a apresentadora conseguiu atingir a marca de vendagem de mais de dois milhões de cópias, batendo o recorde sul-americano de vendagem de um só disco com o lançamento do seu primeiro álbum.

A fórmula Xuxa estava dando certo, especialmente porque era inovadora, criativa e contava com algumas particularidades, como a linguagem em primeira pessoa, que fazia com que as crianças sentissem um ar de proximidade, como se ela estivesse falando com cada uma delas.

No entanto, nem tudo era tão cor-de-rosa como sua nave. Como tudo que ganha muita notoriedade, Xuxa começou a ser duramente criticada. Diziam que a mais nova “babá eletrônica” era a responsável por incentivar a erotização infantil através de suas roupas, estimular um consumismo desenfreado com a propaganda de seus produtos na televisão e popularizar como único padrão de beleza o estilo loira de olhos azuis.

Atribuíram seu sucesso aos seus relacionamentos com homens famosos como Pelé e Ayrton Senna, questionavam sua integridade profissional dizendo que seu passado como modelo e o polêmico filme “Amor Estranho Amor” a definiam como artista, chegando ao absurdo de dizer que seus méritos aos 24 anos só poderiam ter surgido por causa de um pacto com forças malignas.

 

Mesmo assim, as críticas pareciam não abalar a apresentadora. Em temporadas posteriores a 1986,  preservação da natureza, inclusão de pessoas com síndrome de Down e noções de Libras foram temas de alguns quadros e músicas do programa. O álbum Xou da Xuxa 3, lançado em 1988, colocou a apresentadora no livro dos recordes ao vender 3,2 milhões de cópias. No disco estavam canções como Ilariê, Arco-Íris, Abecedário da Xuxa e Brincar de Índio.

Em 1991, Xuxa foi eleita uma das mulheres mais ricas do mundo pela revista “People”. Segundo publicação da revista Veja dessa mesma época, Xuxa faturava 220 milhões de dólares por ano com licenciamentos de produtos, shows em estádios, filmes que tinham recorde de público nos cinemas e seu programa na Rede Globo, que a projetou para a carreira internacional.

Na Argentina, comandou a versão latina da atração intitulada “Show de Xuxa”. Logo depois vieram os convites da Espanha, onde apresentou o “Xuxa Park”, e dos Estados Unidos, em um show que levava apenas o nome da apresentadora – todos com a mesma fórmula do original.

MTM/ Divulgação

Quando os países não conseguiam produzir um programa com a verdadeira Xuxa, eles faziam da mesma forma que as outras emissoras brasileiras: contratavam alguém para tentar interpretar o estilo da apresentadora. Foi o que aconteceu com “Todo El Mundo Está Feliz” na Colômbia, “Nubeluz” no Peru e ( o pior de todos) “El Clan de Patsy” na Argentina –  todos bem exóticos, cada um à sua maneira.

 

Na sétima temporada do programa, Xuxa anunciou que o “Xou da Xuxa” chegaria ao fim. A exibição da última gravação aconteceu no dia 31 de dezembro de 1992, totalizando 2.000 exibições, contando todas as reprises. O programa que serviu de trampolim para a carreira de Xuxa fez a apresentadora ser conhecida mundialmente e a tornou um ícone do Brasil.

Divulgação/Tv Globo

A partir daí novos programas foram acrescentados ao currículo da animadora, mas nenhum deles teria a força do Xou da Xuxa. Para alguns, a atração é a representação de uma infância; para outros, é apenas o dia que a Xuxa deixou de ser “verde”. De qualquer forma, vale lembrar que, mesmo com tantas críticas, Xuxa se tornou uma personalidade consagrada mundialmente. No mais: beijinho, beijinho e tchau, tchau.