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Uma multidão se aglomerava nos arredores de um ginásio onde “Os Trapalhões” fariam um show na década de 1990. A grande massa era promessa de que Didi e seus companheiros teriam casa cheia, mas não foi o que aconteceu: apenas um terço da plateia foi ocupada. Isto porque apenas a elite de Angola, onde o show ocorreu, tinha condições financeiras de assistir. Chateado, Didi anunciou: “Hoje é aqui, mas amanhã é de graça no Cine Karl Marx”. Aí sim, tiveram plateia lotada.

Este é apenas um dos momentos mais marcantes da vida de Antônio Renato Aragão, comediante que marcou gerações de brasileiros e neste sábado (13/1) completa 83 anos de vida e 58 de carreira na televisão. O E+ (seção de notícias do portal do jornal O Estado de S. Paulo) preparou uma retrospectiva para homenagear uma das personalidades mais importantes da televisão brasileira.

Renato nasceu em 1935 na cidade cearense de Sobral. Era o oitavo filho de sua família. Aos 20 anos, ingressou na Universidade Federal do Ceará para cursar Direito e, no último ano de seus estudos, já trabalhava para o Banco do Ceará. No entanto, não tinha certeza de que era essa a profissão que desejava seguir.

Isso porque Renato era fã de Oscarito, comediante hispano-brasileiro. Sendo assim, ele tinha um desejo secreto de ser palhaço e já escrevia scripts de programas de comédias quando ainda trabalhava na instituição bancária, mas guardou tudo para si. “Eu escondia porque achava pecado alguém estar na faculdade e ficar sonhando em ser artista”, disse em entrevista a Leila Neubarth em 1988.

Ida para a televisão
Tudo mudou quando foi inaugurada a TV Ceará, em 1960. A emissora abriu concursos para encontrar talentos dispostos a trabalhar lá e, entre eles, estava Renato Aragão. Ele se candidatou a um cargo que acumulava direção, produção e atuação.

Foi aprovado e seu primeiro programa foi Vídeo Alegre, em 1960. O curioso é que ele gravou o ensaio de sua estreia sem contar a nenhum conhecido. As pessoas próximas a ele só ficaram sabendo quando o programa foi ao ar. E Renato era tão divertido que todos acabaram aceitando a decisão dele de trabalhar na televisão.

A tecnologia da época não permitia que os programas ficassem gravados. Mas o comediante foi tão bem recebido pelos telespectadores que os comentários elogiando seu trabalho atravessaram o Brasil e chegaram até as emissoras do sudeste do país. E, assim, ele chegou ao Rio de Janeiro contratado pela TV Tupi.

AgNews

Foi na cidade maravilhosa que Renato conheceu um dos comediantes com quem formaria a parceria de uma vida inteira: Dedé Santana. Os dois fizeram alguns trabalhos juntos e ele, naquela época, já admirava Renato como um dos grandes nomes da comédia nacional.

“Quando li os scripts dele, eu disse: ‘No dia em que você souber contar as piadas que escreve, você será o maior comediante do Brasil'”, falou Dedé Santana ao Arquivo N, da Globo News.

Os Trapalhões
Após dois anos, agora em 1966, Renato Aragão foi contratado pela TV Excelsior. Na nova emissora, criou o programa Os Adoráveis Trapalhões. Ele dirigiu e atuou no humorístico ao lado de Wanderley Cardoso, Ivon Cury e Ted Boy Marino.

Os Adoráveis Trapalhões fazia sucesso, porém se extinguiu pouco mais de um ano depois porque cada ator tinha seus planos pessoais. Então ele voltou à dupla com o Dedé e os dois foram contratados pela TV Record, do então dono Paulo Machado de Carvalho.

Arquivo Estadão

Nesse período, um grupo musical chamou a atenção de Renato. Os Originais do Samba contava com um integrante que, além de bom músico, era um personagem engraçado. Dessa forma, Aragão pediu a Dedé que convencesse Antônio Carlos Bernardes Gomes, o Mussum, para se juntar a eles. Antônio aceitou e agora eles formavam um trio. Na TV Record, apresentaram o programa Os Insociáveis.

Em 1974, dessa vez na TV Tupi de São Paulo, Renato recebeu a tarefa de produzir um programa de duas horas. Era a hora de engrossar o grupo e ele já tinha alguém em mente. “Eu tinha uma carta na manga que chamava Mauro Gonçalves. Era um ator de teatro, mineiro, que era o Zacarias”.

Assim surgiu Os Trapalhões, programa que se consagraria como um dos mais populares da televisão brasileira. Os altos níveis de audiência registrados desde o começo do programa empataram e superaram com os do Fantástico, o que levou a Rede Globo a contratar o grupo em 1977.

De março de 1977 a agosto de 1995, o programa foi ao ar todos os domingos às 19h. Em 1997, entraria para o Livro Guinness dos Recordes como o humorístico que permaneceu por mais tempo em exibição na TV.

“Os Trapalhões eram a cara do Brasil. Você tinha eu, um nordestino que tentava ser esperto para ganhar a vida; tinha o Dedé que era o galã da periferia de São Paulo, do Sul do país; o Mussum, que era malandro de morro; e o Zacarias, mineirinho ingênuo, que agradava muito as crianças, parecia um desenho animado vivo”, disse Renato em entrevista a Jô Soares em 2013.

Filmografia
Em diversas entrevistas, Renato Aragão ressalta que o que falta de seriedade a Didi, sobra nele. De fato, sem profissionalismo e seriedade com a carreira, ele não teria chegado onde chegou. Uma prova de seu foco no trabalho é que, em 1977, criou a Renato Aragão Produções Artísticas para produzir os seus filmes e controlar seus negócios.

Em 2018, Renato Aragão estrelará seu 49º filme, Didi e o Fantasma do Teatro. De toda essa filmografia extensa, 41 longa-metragens são filmes dos Trapalhões, distribuídos de 1965 a 1999. A produção cinematográfica do grupo só confirma sua popularidade: dos 15 filmes nacionais com maior público da história, seis são dos Trapalhões.

O mais visto foi O Trapalhão nas Minas do Rei Salomão (1977), com quase seis milhões de espectadores, atualmente ocupando a sétima posição dos mais vistos. Outros bastante populares foram Os Trapalhões na Guerra dos Planetas (1978) e Os Trapalhões na Serra Pelada (1982).

Muitos artistas consagrados também se renderam ao carisma de Didi, Dedé, Mussum e Zacarias, participando de sua obra. Os Trapalhões no Reino da Fantasia (1985) e Os Trapalhões no Rabo do Cometa (1986), por exemplo, contaram com o talento de Mauricio de Sousa para misturar animação e live action no mesmo filme. Já Chico Buarque compôs a trilha sonora de Os Saltimbancos Trapalhões (1982).

Personalidades da televisão como Xuxa Meneghel e Gugu Liberato também contracenaram com o grupo, mas a participação mais curiosa veio do mundo do esporte. Pelé participou de Os Trapalhões e o Rei do Futebol (1986), filme no qual o personagem de Renato marca um gol de cabeça após ele mesmo cobrar o escanteio.

Década de 1990
O grupo que tanto animou as pessoas acabou de forma muito triste O primeiro abalo aconteceu com a morte de Zacarias por embolia pulmonar em 1990. Muito tristes, os três comediantes decidiram continuar o humorístico em homenagem ao amigo. No entanto, Mussum seguiria o mesmo caminho em 1994, e um ano depois Os Trapalhões deixava de ser gravado.

Ainda no ano 1991, dois momentos marcaram a vida de Renato. O primeiro aconteceu em setembro, quando foi declarado o primeiro embaixador do Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef) no Brasil em prol da infância brasileira.

“Aceitei, como uma honra que não tem preço, o posto de embaixador do Unicef e, com determinação e responsabilidade, tento fazer valer a vocação humanitária do Unicef na defesa do nosso amanhã. Um amanhã que se abre em sol, em sorrisos infantis”, escreveu em sua biografia Renato Aragão – Do Ceará para o coração do Brasil.

O outro momento marcante foi a escalada do Cristo Redentor. Televisionada, os brasileiros puderam ver Renato se equilibrar sobre o braço direito do monumento, preso a cabos de segurança, e beijar a mão da estátua. Ele conta que fez o gesto como uma forma de agradecer por tudo o que havia alcançado até então. Renato voltaria a fazer um gesto religioso em 1999, quando fez o percurso de São Paulo a Aparecida do Norte a pé.

Criança Esperança
Renato Aragão é a principal personalidade relacionada ao Criança Esperança, projeto filantrópico da Globo em parceria com o Unicef e a Unesco. O programa surgiu a partir de uma ideia do comediante em 1985, que procurava meios de arrecadar dinheiro e mantimentos para combater os efeitos de uma seca severa no Estado do Ceará. O programa S.O.S. Nordeste arrecadou um volume tão grande de doações que deu origem ao Criança Esperança e que ocorre anualmente até os dias de hoje.

A edição de 2004 foi especial para Renato. Diante da plateia e de todos os telespectadores, ele se reconciliou com o antigo parceiro Dedé. Veículos de comunicação afirmavam que os dois haviam brigado e se separado entre o final da década de 1990 e começo dos anos 2000, embora os dois neguem isso atualmente. Fato é que no Criança Esperança de 2004 os dois se abraçaram no palco e trocaram palavras sobre a importância da amizade.

Nova fase
Em 1998, estreou na Globo o programa dominical A Turma do Didi com os atores Roberto Guilherme, Luís Salem, Vanessa Bueno e Pedro Kling, dessa vez sem Dedé. O humorístico permaneceu no ar até 2010 e contou com muitos convidados e mudanças no elenco. Em 2008, seu antigo parceiro voltou a contracenar com ele.

Wilton Junior/Estadão

Em 2011, a escola de samba X-9 Paulistana desfilou no Sambódromo do Anhembi com o enredo De eterna criança a embaixador da esperança… Renato Aragão, Didi trapalhão! Com alegorias representando o Cristo Redentor e os quatro Trapalhões, o desfile contou com a presença do próprio Renato e de amigos que foram fundamentais em sua jornada como, por exemplo, Dedé Santana.

Em 2017, a Globo e o Canal Viva lançaram uma nova versão de Os Trapalhões.Além de Didi e Dedé, o humorístico conta com Lucas Veloso, Bruno Gissoni, Mumuzinho e Gui Santana que fazem, respectivamente, Didico, Dedeco, Mussa e Zaca, os sobrinhos dos personagens originais.