Uma nova Julia Petit: influenciadora conta por que mudou a carreira

Pioneira nos vídeos de automaquiagem, publicitária encerrou o Petiscos, site com milhões de acessos, para criar marca "indie” de skincare

atualizado 22/07/2019 15:27

Sallve/Divulgação

Qualquer pessoa com mais de 20 anos e um celular em punho se deparou, em algum momento, com tutoriais de maquiagem em vídeo. Antes que frases clichês como “não está focando” se tornassem memes nas redes, um nome se estabeleceu como ícone do segmento: Julia Petit. Com materiais publicados todas às sextas-feiras, a ex-modelo e publicitária atingia a marca de 1 milhão de views com a mesma facilidade que aplicava sombra nas pálpebras.

O Instagram ainda não existia quando Julia criou o Petiscos, plataforma digital pela qual ficou conhecida e onde eram postados os DIY (ou faça você mesmo) de makes. O ano era 2007. Com conteúdos nas áreas de moda, beleza, música e tecnologia, o site chegou, em seis meses no ar, a mais de 2 milhões de acessos, sem somar a esse número os views da Petiscos TV no YouTube.

A paulista de 47 anos nem sequer imaginava, à época, que seria uma das pioneiras desse formato no Brasil. Com pincéis em mãos, a ruiva de olhos expressivos e fala agitada reunia multidões interessadas em seu jeito despretensioso de ensinar a arte que, até então, era pouco divulgada na internet.

Em 2017, quando o Petiscos ainda era um dos mais importantes sites do país no segmento, a inquieta produtora de conteúdo decidiu interromper as postagens por tempo indeterminado. O fim da página causou frisson e gerou dúvidas. Pouca gente sabia mas, naquele momento, Petit desenhava um novo futuro para si.

Uma boa maquiagem não deveria nascer para esconder imperfeições, mas sim para valorizar cada poro de quem vê na ferramenta uma forma de autoexpressão. Ciente disso, Julia entendeu que produtos para esse fim, antes escassos, existiam aos montes.

Faltava, entretanto, uma marca de skincare que facilitasse os cuidados com a pele e aliasse bom preço, comunicação horizontal e itens multifunções. Nasceu, assim, a Sallve.

Divulgação
Depois de ensinar truques de automaquiagem a milhões de mulheres, Julia Petit criou a própria marca de skincare

 

Bastou um ano sabático para a ruiva do signo de Câncer entender seu novo propósito.

Mudar é preciso. E ela o fez. Atualmente, responde como chief creative officer da marca “independente” de produtos para a pele e que, antes mesmo de ser lançada, teve mais de 200 mil clientes cadastrados on-line. Também está comandando o Lindos Poros, site no qual a pele e os tutoriais voltam a ser protagonistas.

Em uma conversa franca com o Metrópoles, Julia Petit traça uma linha do tempo de sua história. O legado? De maquiagem puro glitter ou cara lavada, propaga uma mensagem de autoamor a toda prova.

Inspirações

“Quem me ensinou a me maquiar foi a minha mãe, Inês Mendonça Petit. Ela nunca foi ‘supermaquiada’, mas sempre teve uns produtos lindos. Eu ficava louca e queria mexer em tudo. Adolescente, fui trabalhar como modelo e comecei a conhecer vários profissionais. Acabei me tornando amiga de muita gente, pessoas que estão na carreira até hoje. Aprendi muito com elas. Era uma época em que não havia tantos produtos de cosméticos e maquiagem no Brasil. Mesmo fora, tudo era muito caro ou não tinha diversidade.

Quando queríamos inventar algo, precisávamos improvisar. Foi uma época criativa. Aprendi muita coisa por causa disso. Não tinha o que fazer e você precisava se virar para aprender.”

Histórico

“Venho do mercado de publicidade. Trabalhei em agência a vida inteira, depois como produtora de som. Foi na publicidade e convivendo com essa área que tive acesso à moda e beleza. Esse interesse veio junto da paixão pelo design, que herdei do meu pai [o publicitário espanhol Francesc Petit, um dos fundadores da agência DPZ].

Em determinado momento, precisei colocar isso em algum lugar e criei o Petiscos. Como tinha muitos clientes da época em que trabalhei com publicidade e já tinha as minhas produtoras de som [Ludwig-Van e Menina Produtora], conhecia bem o mercado publicitário e para onde eram destinadas as verbas. Pensei que poderia construir um veículo de comunicação de estilo simples. Foi uma experiência de conteúdo mas também para testar novos formatos de publicidade. O site foi criado em 2007 e ficou no ar durante 10 anos.”

Tutoriais de maquiagem

“A dimensão dos tutoriais de make foi enorme e zero proposital. Foi algo do tipo: ‘Faz uns vídeos aí para ensinar as pessoas a se maquiarem como você’. No começo, era um formato muito duro para o que eu pensava. Aos poucos, fui me soltando, criando esse modo como fazemos até hoje. Eu ficava espantava com a destreza de algumas pessoas ensinando maquiagem e, para muita gente, era estranho uma não maquiadora mostrando o passo a passo. Não era raro pessoas me perguntarem se eu não tinha vergonha de aparecer sem maquiagem, mas, para mim, era natural.”

Petiscos

“O site cresceu rápido. Fomos do zero para 80 mil usuários únicos por dia em seis meses. Naquela época, as pessoas queriam isso, mas não sabiam que queriam. No final, os tutoriais de maquiagem eram apenas um entre os vários conteúdos que postávamos. À época, colocávamos um post novo a cada 30 minutos, das 9h às 19h. Cheguei a ter uma equipe com 16 profissionais, a maioria jornalistas.”

Fim do site

“Não houve um plano de acabar com o Petiscos, e sim um desejo de mudar novamente. Repensar o papel do conteúdo na vida das pessoas, como elas consomem esse material e como ele pode ser monetizado sem estar conectado somente à publicidade. Hoje, há publi demais nas plataformas. Pensava em como fazer isso, mas sem assediar os leitores.

Poderíamos ter continuado no ar, porque a audiência era ótima. Todavia, vi que estava na hora de fazer coisas novas. Todas as minhas mudanças estão conectadas. Fui da publicidade para o conteúdo e, agora, evoluí do conteúdo para uma conversa de cuidado com a pele, aplicando meu conhecimento de gerenciamento de redes e comunidades na internet. Está tudo ligado nessa nova empresa

Julia Petit
O nascimento da Sallve

“No último ano e meio de existência do Petiscos, passei a desenvolver minha linha de skincare. Não apenas maquiagem, pois acredito que já tem bastante nas prateleiras.

Tirei um ano sabático de férias e, no fim desse período, conheci os meus sócios, Dani Wjuniski e Márcia Netto, que eram amigos de outras startups e negócios digitais. Eles me chamaram para falar sobre conteúdo e, quando nos demos conta, estávamos desenhando o mesmo negócio.”

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Skincare

“Quero simplificar e desmistificar o cuidado com a pele, que é algo meio compulsório. Em algum momento da vida, você vai precisar se atentar a isso. Não por escravidão, mas para, no fim, ter o direito de decidir o que fazer. A maquiagem continua sendo meu amor maior. É algo mágico, lúdico e muito poderoso.

E é uma escola pessoal. Maquiagem para mim é liberdade total. Podemos ser desde uma pessoa sem olheiras a um monstro de filme de terror. Isso é libertador. Óbvio que, se de alguma maneira, você se sente preso a qualquer rótulo, deixa de ser uma pessoa livre. Quando é usada para se divertir, ótimo. Se te aprisiona, te faz sentir inadequada, fuja.”

Linha de make

“A Sallve chegará a vários segmentos. Não sabemos o próximo passo, porque agora estamos focados em skincare, área na qual ainda há muito espaço para criarmos. A comunidade que nos acompanha precisa disso, e nossas escolhas, como empresa, vêm da demanda das pessoas. Trabalhamos com cuidado da pele, mas isso não é uma limitação. Podemos perfeitamente desenvolver uma linha de make no futuro.”

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Comunicação

“Percebemos que, em vez de lançar o produto e só depois apresentá-lo, seria mais interessante descobrir o que o público deseja, e só aí lançar os itens. A Sallve veio em um período que as pessoas querem que as marcas de skincare se comuniquem de maneira diferente com elas. A partir do momento que falamos de um modo aberto e simples, elas se sentiram atraídas. Não tenho fãs, mas amigos.

Temos ideia do que falta no mercado brasileiro, mas não há nada mais legal do que distribuir o que faltava para aquele grupo de pessoas. Para entrar em um segmento tão popular, foi inevitável: encontre seu caminho e tente chegar até ele de maneira fácil e direta.”

Tendências

“Tenho outra sócia maravilhosa, Juliana Shor, que tem 20 anos de mercado de cosmético, e o químico Carlos Praes, profissional excelente. Entendemos que o público quer controle de oleosidade, vitamina C com preço bom, e controle de poros e manchas. Foi quando surgiu o nosso hidratante antioxidante, com muitos princípios ativos. Ele cumpre etapas, é simples de usar e tem preço ótimo.

O Brasil tem poucas marcas indie, e espero que a gente encoraje outras empresas. Havia uma expectativa enorme, e todas as previsões que tínhamos foram provadas. Até o fim do ano, nosso catálogo contará com 10 produtos”, finaliza.

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