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A incrível paleta de cores no grafite da brasiliense Brixx Furtado

Após superar a timidez com ajuda da arte, a profissional conquistou a admiração da alta sociedade

atualizado

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Bruno Pimentel/Metrópoles
Brasília (DF), 26/02/2018 Brixx Furtado Local: Parque da Cidade
1 de 1 Brasília (DF), 26/02/2018 Brixx Furtado Local: Parque da Cidade - Foto: Bruno Pimentel/Metrópoles

Brixx Furtado sentiu-se incomodada no primeiro dia do evento ao lado da joalheira Cristina Pessoa. Ela pensava consigo mesma: “Como o mundo é economicamente injusto…”. Porém, quando a alta sociedade olhou o trabalho da grafiteira com admiração semelhante a das ruas, a empatia aconteceu.

“Achei muito interessante ter um feedback daquele público tão peculiar. Percebi que são pessoas como eu, só têm realidades e princípios diferentes”, disse.

Era 16 de fevereiro de 2012 quando Brixx Furtado e Cristina Pessoa encontraram-se pela primeira vez. Elas expuseram lado a lado na Arte Radical, mostra organizada no Espaço Cultural Contemporâneo (Ecco), com curadoria de Karla Osório.

Cinco anos depois, em dezembro de 2017, a designer convidou a grafiteira para participar de um evento na loja de Cris, no Lago Sul – bairro nobre de Brasília.

“Eu achei aqueles traços muito delicados para um trabalho urbano. Impressionou-me a extraordinária paleta de cores e a sensibilidade das composições. As clientes também adoraram o colorismo dela”, explicou Cris Pessoa, antes de embarcar para Paris, onde buscará inspiração para desenvolver a nova coleção.

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Brixx Furtado expõe seus grafites nas muretas do Parque da Cidade


A segurança da grafiteira para expor no evento da alta sociedade brasiliense foi conquistada após superações pessoais. Brixx encontrou na arte uma forma de vencer a timidez.

Eu vestia uma máscara neutra, como maneira de sobreviver em sociedade, já que as pessoas têm dificuldade em lidar com quem é introspectivo. Dessa forma, coloco meus monstros internos para fora e sou bem recebida.

Brixx Furtado

Aos 30 anos, a brasiliense sente-se segura o suficiente para assumir a vocação artística.

O primeiro contato de Brixx com tinta foi em aulas de arte. Aos 14 anos, um de seus quadros abriu a exposição da feira de talentos da escola que estudava. No dia seguinte, a tela foi roubada. Ela nunca mais teve notícias da imagem.

O grafite surgiu depois, no aniversário de 23 anos. Com o “dinheirinho” que ganhou da avó, comprou sprays de tinta. Saiu de casa autoconfiante, disposta a pintar um muro. Ao ver a jovem grafitando, um rapaz de bicicleta pediu para juntar-se a ela na arte. Solicitação estranha, porém, aceita.

Foi quando Brixx teve certeza da vocação.

“Conversei naturalmente com um desconhecido e fiz arte urbana. Empolguei-me. Virou uma loucura. Passei a sair todo fim de semana para pintar”, contou.

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Brixx Furtado assina grafites no Parque da Cidade, em Brasília

 

Brixx desenhou o próprio nome em um muro da Comercial Norte, em Taguatinga. A chamada tag ganhou uma letra de cada cor. “Ficou bem malfeito e feio”, ela avalia. Mas, quem liga?

Disposta a encarar a arte de uma forma mais séria, ela precisava “superar o medo de gente”. Foi quando teve o insight: se pintasse na rua, seria vista, abriria espaço a críticas e elogios e aprenderia a ser abordada pelas pessoas.

Evolução artística
A arte de Brixx começou com traços geométricos e caminhou para uma fase “arredondada”, com série de autorretratos representando mulheres (ela nunca pintou homens) de cabelos curtos, algumas de coque. A face neutra dos desenhos é iluminada por olhinhos e bochechas rosadas.

A pintura de plantas surgiu como resquício do projeto de artesanato Passarinho Colorido, tocado ao lado da irmã, Daniella Furtado, 31 anos.

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Spray sobre madeira para o evento da joalheira Cristina Pessoa
Quadro pintado ao vivo em Santiago, no Chile, em novembro de 2017
Mochila Frida feita com tecido 100% algodão
Casaco customizado – desenho feito com retalhos 100% algodão
Pintura em quarto infantil – "A cliente me pediu para desenhar animais. Nunca tinha feito isso antes. Escolhi flamingo e raposa", conta Brixx Furtado
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Monstrolândia – primeiro quadro, óleo sobre tela, pintado em 2010

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Spray sobre madeira para o evento da joalheira Cristina Pessoa

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Quadro pintado ao vivo em Santiago, no Chile, em novembro de 2017

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Mochila Frida feita com tecido 100% algodão

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Casaco customizado – desenho feito com retalhos 100% algodão

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Pintura em quarto infantil – "A cliente me pediu para desenhar animais. Nunca tinha feito isso antes. Escolhi flamingo e raposa", conta Brixx Furtado

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Pintura em tela criada para a capa do disco da banda paulista Casca Instrumental

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Grafite feito no interior do Pará, em fevereiro de 2018

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Colar de madeira com corrente de metal pintado à mão. Foi inspirado na obra da foto

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Painel pintado na Colômbia, a convite do evento Cap Fest

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Grafite na Comercial Norte de Taguatinga, pintado em fevereiro de 2018

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Pés, para que os quero, se tenho asas para voar? – obra da exposição Solitude; técnica mista

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Existo, logo, resisto – acrílica sobre linho. Obra pintada para a exposição individual Solitude

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Olaria cultural – painel pintado em São Sebastião

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Colar de madeira pintado à mão com corrente de metal. Inspirado na obra da foto

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Bolsa Frida – Inspirada na artista Frida Kahlo. Feita com tecido 100% algodão e corrente de metal

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Pássaro Geométrico – óleo e acrílica sobre tela

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São Mateus – grafite na Vila Flávia, no bairro de São Mateus, em São Paulo

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Colar de madeira pintado à mão com corrente de metal. Inspirado na obra da foto

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Contexto criativo
Fabrícia Ovídio Furtado é a filha mais nova de Belquis Ovídio, 52 anos. A brasiliense, funcionária pública, criou suas duas filhas para serem independentes. A morte do pai, quando a caçula tinha 6 anos, fortaleceu ainda mais a união entre as mulheres da família.

Desmotivada por opiniões gerais de que, se estudasse arte, morreria de fome, a artista graduou-se, com a ajuda da avó, em design de interiores, pelo Centro Universitário Planalto do Distrito Federal (Uniplan), em 2011.

Após a formatura, mudou-se para São Paulo, disposta a fazer uma pós-graduação. Mas, a ideia do curso não vingou. Decidiu viver experiências práticas na cidade. Foram quatro anos vendo a megalópole paulista borbulhar. Conheceu artistas, participou de exposições e consolidou a vocação.

Entre as percepções culturais adquiridas em São Paulo, Brixx reflete sobre as semelhanças entre a pichação e o grafite – com a diferença de o segundo ter mais cor. “Por isso, foi assimilado como algo belo, enquanto a pichação e a tag são sinônimos de marginalização”, diz.

Se o Estado tem direito de cortar árvores e construir estradas, entupir a cidade de prédios e propagandas, por que não posso escrever nas paredes da cidade?

Brixx Furtado

Em Brasília, Brixx gosta de fazer grafite e de desenhar. Segundo ela, em São Paulo, o picho faz parte da cultura, mas, na capital, essa expressão artística ainda engatinha.

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Quadro Autorretrato

 

Antigamente, Brixx hostilizava Brasília pela falta de pontos culturais. Durante a temporada em São Paulo, percebeu que as manifestações artísticas aconteciam por causa da atitude dos próprios profissionais. “E eu aqui, reclamando… Por que não faço alguma coisa pela minha cidade?”, questionou-se.

De volta à capital, Brixx uniu-se à amiga de infância Rafaela Moraes no espaço cultural Bras.ilha, na 502 Sul. Lá, organizou exposições em 2016 e 2017, antes de o local encerrar as atividades.

Em agosto de 2017, a artista apresentou sua primeira exposição individual na galeria Bras.ilha. Para a mostra Solitude, criou alguns colares inspirados nas obras expostas. Os acessórios reforçavam a relação de Brixx com a moda. Quando criança, moldava vestidinhos para as bonecas e brincava na máquina de costura da avó.

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Escultura de casinha chamada São Mateus, de Brixx Furtado

 

A artista brasiliense Juliana Borgê foi umas das primeiras mulheres a inspirá-la. “Uma das pioneiras no grafite, ainda em atividade”. Michelle Cunha também entra na lista. “Ela faz um trabalho com aquarela fantástico. É paraense e agora está em Brasília”.

Além do grafite, Brixx trabalha com produção artística, telas e acessórios.

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Brixx Furtado

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