Aos 69 anos, ex-cabeleireiro cursa medicina no Paraguai
Após concluir o EJA, Cleones deixou salão no Brasil e hoje está no 4º semestre do curso de medicina em Cidade do Leste
atualizado
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Aos 69 anos, o ex-cabeleireiro Cleones Silveira trocou a rotina de 45 anos no salão de beleza pelos corredores de uma faculdade de medicina no Paraguai. Morando há cerca de dois anos em Cidade do Leste, na fronteira com Foz do Iguaçu, ele está no quarto semestre do curso e afirma viver a primeira experiência real com os estudos. “Nunca é tarde para aprender”, resume em post no Instagram.
O ingresso na graduação só foi possível após concluir o ensino médio pelo programa Educação de Jovens e Adultos (EJA), aos 67 anos. As boas notas abriram caminho para realizar um sonho que, segundo ele, parecia impossível.
Entenda
- Retorno tardio à sala de aula: Cleones começou a estudar aos 64 anos, incentivado pela esposa e pelos filhos, depois de uma vida inteira dedicada ao trabalho.
- Mudança de país aos 67: sem condições de pagar uma faculdade particular no Brasil, vendeu o salão, aposentou-se e mudou-se sozinho para o Paraguai.
- Integração e rotina na fronteira: mora a poucos quilômetros da fronteira, faz compras no Brasil e destaca a facilidade com a língua e o custo de vida.
- Plano de atuar no Brasil: após a formatura, pretende prestar o Revalida para trabalhar com atendimento humanizado a populações vulneráveis.
Da tesoura aos livros
Cleones conta que começou a trabalhar ainda na infância e praticamente não frequentou a escola. “Eu não estudei quase nada na vida. Tudo o que vejo hoje é novidade. Posso dizer que estou estudando de verdade pela primeira vez agora”, afirma.
O incentivo para retomar os estudos partiu da família. Aos 64 anos, matriculou-se no EJA e concluiu o ensino médio três anos depois. As notas permitiram o ingresso no curso de medicina.
“Nunca sonhei em ser médico. Parecia algo fora da minha realidade. Mas pensei: passei a vida cuidando das pessoas como cabeleireiro. Por que não continuar cuidando, agora de outra forma?”, relembra.
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Escolha pelo Paraguai
Sem recursos para custear uma graduação privada no Brasil, pesquisou alternativas na Bolívia, Argentina e Paraguai. Optou por Cidade do Leste pela proximidade com o Brasil e pela estrutura oferecida pela Universidade Central do Paraguai (UCP), onde estuda.
Segundo ele, em relato feito no Instagram, a faculdade fica a cerca de três quilômetros da fronteira. “A rotina inclui compras em supermercados brasileiros e deslocamentos frequentes até Foz do Iguaçu.” Cleones destaca a facilidade com o idioma, a oferta de transporte gratuito para alunos e o custo mensal estimado em cerca de R$ 4 mil para moradia, alimentação e mensalidade, em uma vida modesta.
Dados da Direção Nacional de Migrações do país mostram que, apenas em 2025, mais de 12 mil brasileiros solicitaram visto de estudante. Nos últimos cinco anos, foram mais de 43 mil autorizações concedidas, sendo 32.745 temporárias e 10.481 permanentes — a maioria para cursos de medicina.

O aluno mais velho da turma
No quarto semestre, Cleones acredita ser o estudante mais velho da instituição — possivelmente mais velho que alguns professores. “Fui muito bem recebido. Participo dos grupos, faço trabalhos e até oração antes das provas, quando o pessoal está nervoso”, conta.
Ele reconhece as dificuldades. “Estudar aos 69 anos não é fácil. É um ato de fé, coragem e persistência. As dificuldades são diárias, mas a vontade de vencer é maior.”
A história ganhou repercussão nas redes sociais após a publicação de uma foto com o uniforme da faculdade. A imagem ultrapassou dois milhões de visualizações, e seu perfil reúne mais de 30 mil seguidores. Desde então, recebe mensagens de adultos e idosos interessados em retomar os estudos.
“Comecei sem pretensão nenhuma. Nem gostava de redes sociais. Mas percebi que minha história pode incentivar outras pessoas”, afirma.

Próximo passo: Revalida
Após concluir o curso, Cleones pretende prestar o Exame Nacional de Revalidação de Diplomas Médicos (Revalida), exigido para médicos formados no exterior que desejam atuar no Brasil. O objetivo é trabalhar com atendimento humanizado, especialmente voltado a populações vulneráveis.
“Não faz sentido começar medicina nessa idade pensando em dinheiro. Quero ajudar pessoas. Se eu conseguir ajudar uma pessoa por dia, já valeu a pena”, diz.
