Wanderléa, a ternurinha e a transgressora sobem juntas ao palco do CCBB
Consagrada pela Jovem Guarda, cantora quebrou tabus ao construir carreira eclética e ligada à música negra brasileira
atualizado
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Se fosse escrever uma novela, a trama, com direito a todos os clichês do gênero, teria as gêmeas Wanderléa e Wandeca, cantoras e rivais, como protagonistas do dramalhão. Dona de sucesso nacional, a primeira seria conhecida pelos íntimos por A Ternurinha. Cheia de atitude, faria a linha roqueira e moderna. Vestida com bustiê de franjinhas, minissaia de couro e botas pretas de cano alto, pararia o casamento do galã amado bem no meio do sermão do juiz.
A outra, chamada de A Maravilhosa, fugiria a todos os moldes do seu tempo, inclua aí o “santo matrimônio”. Ao contrário da irmã, esconderia as madeixas loiras debaixo de uma audaciosa peruca black power e mergulharia em sons da música negra num estilo experimental, progressivo e livre. Ao lado de dois amigos que disputariam o seu coração, cortaria a estrada de Santos num jipe cantando “É Preciso Saber Viver”.
Juntas, as duas movimentariam uma narrativa recheada de fãs aos seus pés, romances desencontrados e corridas de carro. Ah, para dar uma pitada de suspense ainda aconteceria o sumiço de um raro diamante cor de rosa, com direito a um vilão impiedoso à la o inesquecível ator José Lewgoy. O folhetim, sucesso garantido, terminaria com as irmãs unidas no palco formando uma dupla que vai parar o país: Ternurinha & Maravilhosa. Aliás, esse poderia ser o título da obra de ficção. Mas, antes que me acionem judicialmente por plágio, vou logo avisando que qualquer semelhança com a trajetória da cantora Wanderléa (a Wandeca para os íntimos) é mera coincidência.
A locomotiva que parou o Brasil
A primeira pop star do Brasil, Wanderléa ergueu uma carreira musical de sonoridades múltiplas. Aos poucos, a Ternurinha dos anos 1960 deu espaço para A Maravilhosa dos anos 1970, quando, numa sintonia com as influências da black music, quebrou tabus e aproximou-se de uma novíssima safra de compositores que africanizaram a MPB: Fábio, Hyldon, Djavan, Jards Marcalé, Caetano Veloso, Gonzaguinha, Jorge Mautner, Gilberto Gil, Moraes Moreira e Capinan.
Confira Wanderléa cantando “Chuva, Suor e Cerveja”, de Caetano Veloso
Toda essa mistura é o que sou. Naquela época, foi um tanto transgressor. A Ternurinha da Jovem Guarda, no entanto, marcou a minha vida e toda uma geração. Tenho muito carinho por todo o início da minha carreira.
Wanderléa
Luz do cerrado
É exatamente sobre esse começo estrondoso de carreira que Wanderléa aporta em Brasília para encerrar o projeto Jovem Guarda 50 anos – Em Ritmo de Festa (domingo, 27/09, às 20h30, no CCBB).
A luz do cerrado é inigualável! Brasília tem um céu maravilhoso.
Wanderléa
Aqui, vai relembrar essa fase apoteótica. Wanderléa guarda cenas emblemáticas na memória. Duas, aliás, estão materializadas em filmes. Se pudesse, projetaria no telão do CCBB.
Tem uma cena do meu filme ‘Juventude e Ternura’ em que chego ao aeroporto e, quando desço do avião, os fãs invadem a pista. Essa cena aconteceu de verdade. Não eram figurantes.
Wanderléa
Sessão nostalgia
O clássico “Juventude e Ternura”, de Aurélio Teixeira, está na íntegra no YouTube.
https://www.youtube.com/watch?v=Co6lztLbCO8
A outra é o desfecho de ‘Roberto Carlos e o Diamante Cor de Rosa’… Eu, Erasmo e Roberto seguimos a estrada em um jipe cantando “É Preciso Saber Viver.
Wanderléa
Olha só que maravilha
Wanderléa, Erasmo e Roberto em “É Preciso Saber Viver”.
Nova estação
Inquieta, Wanderléa está cheia de planos para além da agenda de aniversário dos 50 anos de a Jovem Guarda. Ainda saboreando o mais recente DVD, “Nova Estação”, indicado ao Grammy Latino, planeja um livro autobiográfico e de poemas.
Existem alguns projetos na área do cinema documental. Adoraria ter um programa de TV com música ao vivo e de qualidade.
Wanderléa








