Propaganda racista da Dove é desumana e legitima o boicote à marca
A empresa holandesa Unilever reincide em peças publicitárias de cunho racista. Em 2011, fez outra campanha lamentável
atualizado
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No primeiro momento em que vi a propaganda racista da Dove, pensei se tratar de uma campanha falsa. Uma armadilha para destruir a integridade da empresa. Só poderia ser fake. Não é possível que algum departamento de marketing aprove tamanha barbaridade em outubro de 2017.
Eis que o pedido de desculpas oficial chegou timidamente. Assim, em meias palavras. Não se tratava de uma enganação. O crime de ofensa, injúria e racismo foi gestado, pensado e aprovado pela marca pertencente à poderosa holandesa Unilever. Na peça publicitária completa, há ainda uma terceira transformação: a mulher branca de cabelos loiros vira uma morena de cabelos escuros. O que parece mais um paliativo para conter a maldade da transformação inicial.https://www.youtube.com/watch?v=xMUPC8KRuDI
E o pior: é uma reincidência. Em 2011, houve uma propaganda similar, sem a mesma repercussão negativa. Nessa outra peça lamentável, três modelos apareciam como uma escala de tons de pele antes e depois do banho de Dove.

É muito difícil que a comunidade de afrodescendentes e todas as pessoas que consideram o racismo como um crime hediondo perdoem a marca Dove. Não adianta postar um sucinto “erramos” depois de ofender tão profundamente os negros, com um argumento doentio que associa a pele escura à “sujeira”.
No século 19, quando os humanos pareciam ser mais brutais, esse tipo de propaganda racista seguia livre mundo afora. Duzentos anos depois, não nos resta uma outra reação à mente que não seja a de boicote.
Na lógica do mercado, a única saída capaz de mudar mentalidade tacanha, como a dos envolvidos nessa peça publicitária lamentável, é mexer no que move intimamente empresas não humanistas: o dinheiro.
Eu não compro mais a marca Dove por um simples motivo: ao passá-la sobre o meu corpo brasileiro e miscigenado, vou reproduzir a dor de milhares de negros que se sentiram ofendidos por essa propaganda infeliz. Não posso compactuar com a ideologia tão mesquinha da superioridade de raça.
Os negros, sobretudo no Brasil, já pagam um preço incalculável da violência, da injustiça
social, da falta de oportunidade, da condenação histórica da escravidão e de sua alforria de fachada. Ocupam, não à toa, maciçamente, a base da pirâmide social e os piores índices de desenvolvimento humano.
Por que fazer coro a um perdão de uma multinacional que humilha mundialmente nossa formação de povo?
A partir de agora, comprar uma marca que escracha o negro como se fosse um ser não merecedor de sua natureza, de seu DNA, de sua história, parece-me compactuar com esse descalabro.
Em tempos em que algumas pessoas atacam as outras pela cor da pele, a responsabilidade social de uma empresa de visibilidade é como um laço estabelecido com seus consumidores. A marca Dove o rompeu e o transformou em chicote, que, em tempos remotos, acoitava a pele negra até sangrar.










