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Por que as imagens de José Mayer e Victor se estilhaçaram em pedaços?

Nenhuma empresa de comunicação vai se alinhar a um funcionário que supostamente violou o estado de direito de minorias organizadas

atualizado

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Paulo Belote/ TV Globo
José Mayer
1 de 1 José Mayer - Foto: Paulo Belote/ TV Globo

Ainda não há provas sobre os supostos assédios moral e sexual do ator José Mayer contra a figurinista Su Tonani. No entanto, a TV Globo agiu com velocidade: tirou o intérprete da próxima novela das 21h de Aguinaldo Silva. O caso de agressão do cantor Victor à mulher grávida, Poliana Bagatini, também não foi concluído pela polícia, mas ele imediatamente foi limado do programa, campeão de audiência, “The Voice Kids”.

Estariam os dois artistas sendo julgados antes da hora?

Não. A ação é de cautela e estratégia da empresa que os emprega. As acusações envolvem mulheres, violam leis e tocam numa ferida que sangra a sociedade brasileira do aqui e agora: o machismo, que, secularmente, devasta vidas e segue ainda ostentado por estruturas sociais que resistem à contemporaneidade.

Contra essa nova ordem, levanta-se uma força feminina que cresce como uma tsunami. Nas redes sociais, nas ruas e no dia a dia, mulheres militam por respeito e pelo fim de um Brasil patriarca. Levantam a voz com gosto e gritam “basta” à impunidade, de tratar essa problemática machista como se fosse um mero dado social.

Essa opinião pública qualificada redesenhou a relação de forças com o manejo das redes sociais. Em questão de horas, os posts negativos se multiplicam numa equação exponencial. Quem ficar contra ela assinará embaixo o atraso. Uma instituição contemporânea não pode regredir porque tem um funcionário que supostamente ainda raciona como se estivesse num tempo bárbaro.

A questão não é mais se Victor e Zé Mayer são culpados, mas se as vítimas mulheres estão tendo crédito. Se são ouvidas. Não há como ficar do lado de um homem suspeito em violar direitos que estão sendo defendidos nas unhas e na garganta por mulheres cansadas de verem mulheres violadas e mortas. Lógico, que nem sempre foi assim. Os enfrentamentos agora são outros.

Todos sabemos que, de pronto, uma mulher de vítima se torna rapidamente algoz por argumentos destituídos de razão. Aquela velha história: foi estuprada porque estava de roupa decotada. Assediada sexualmente porque flertava com quem bem queria. Espancada pelo marido porque não conseguia compreendê-lo como esposa. Tabus arcaicos que estão sendo estilhaçados na guerrilha digital diária e vêm ganhando as ruas em atos políticos como “A Marcha das Vadias”. A própria Lei Maria da Penha nasceu de uma luta por justiça.

Infelizmente, no senso comum, paira ainda a dúvida sobre o que uma mulher declara diante de uma violência masculina

Ao homem, é dada a palavra de honra. À mulher, aquele “malfadada” astúcia. Isso está plantando no imaginário doentio da sociedade. Estar presente em velhas escrituras, nas bases de educação familiar, nos contos de fadas e até nas constituições de países obscuros.

A rapidez da TV Globo nos dois casos passa por essa preocupação. É preciso estar em consonância com a nova opinião pública feminina. Numa dimensão tão grave quanto, a Record demitiu Marcão do Povo por manifestações racistas contra a cantora Ludmila. O SBT está sentindo na pele a decisão questionável de contratá-lo. O programa já foi remexido e padece de audiência.

Imagina se alguém que considera ser inadmissível uma manifestação de racismo vai parar o que faz para ouvir o que diz esse cidadão?

A credibilidade é a base do processo que faz uma pessoa virar figura pública. E essa credibilidade se estabelece nessa relação de confiança entre espectador e persona, que molda uma máscara social de ser humano que respeita o outro. Se a máscara cair e revelar o monstro, não há razão alguma para admirá-lo.

O que se quer não só o estabelecimento das “verdades”. Mas a reflexão de que esses supostos atos degradantes não podem mais ser vindos de agentes sociais que deveriam dar o exemplo de humanidade. Esse, aliás, sempre foi o alto preço cobrado pela fama. De alguma maneira, José Mayer e Victor estão lidando com esses novos tempos, nos quais o poder de uma celebridade não é mais tão intocável quanto daqueles que os admiram.

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