Ocupação Dulcina Vive resiste forte ao silêncio do Ministério Público

Há 20 dias, ensaio dentro da Ocupação Dulcina Vive e testemunho a paixão de alunos, professores e funcionários pelo patrimônio em risco

atualizado

metropoles.com

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Quinta-feira (17.03), às 19h – Alguns estudantes lavam dinheiro na entrada da Faculdade Dulcina de Moraes. A performance-protesto tem endereço certo: a crise institucional dos três poderes brasileiros. Enquanto deixam as notas bem limpinhas, outros atores circulam pelas imediações com rostos maquiados com purpurinas e lantejoulas.

No foyer do teatro, o produtor cultural Kaká Guimarães mostra fotos das melhorias no subsolo da instituição antes e depois das festas que passou a produzir no movimento cultural Dulcina Vive. As transformações são impressionantes. Dono de uma das melhores baladas da cidade, ele tornou as instalações, antes insalubres, em galerias vivas, com muros grafitados.

Enquanto Kaká folheia o álbum de imagens, uma estudante guia um grupo que nunca tinha entrado no prédio histórico erguido por Dulcina de Moraes, nas décadas de 1970 e 1980. Eles seguem para o teatro assinado por Oscar Niemeyer.

Luís Filipe Lima e Watusi na Ocupação: luta também contra os ácaros

 

Lá, observam Watusi, a primeira negra a estrelar um musical no Moulin Rouge de Paris (1976), ensaiar cenas do musical “Eu Vou Tirar Você Deste Lugar – As canções de Odair José” ao lado de elenco brasiliense. Estão todos sob a batuta do diretor musical e pesquisador Luís Filipe Lima, responsável por espetáculos do quilate de “Sassaricando”.

Nos andares de cima, as salas estão ocupadas por professores como os diretores Fernando Guimarães e Túllio Guimarães (30 anos de casa). A atriz Silvia Paes, que é diretora da instituição, despacha normalmente em seu gabinete. Numa sala do segundo andar, onde funciona o QG, alguns cozinham, outros tiram um cochilo.

Porta-voz do movimento, a ex-aluna Julie Wetzel atualiza a todos dos passos complexos para sair da crise.

Dulcina Vive intensamente e não daremos um passo atrás!

Julie Wetzel
Os segredos da maquiagem ajudam nas performances

 

Num ritmo intenso de atividades, essa comunidade de estudantes, funcionários, professores e colaboradores, que há um mês ocupa a Faculdade Dulcina de Moraes, respira conhecimento, arte e, sobretudo, formas de articular uma saída para a crise que se estabeleceu com a destituição dos interventores pelo Ministério Público. Resistem ao silêncio do promotor que afastou administradores sem consultar ninguém, levando ao cargo uma pessoa alheia ao movimento e com envolvimentos em delação premiada.

Na semana que vem, haverá uma assembleia na qual serão explicadas detalhadamente a perseguição e a criminalização em relação ao Movimento Dulcina Vive, além das propostas de atos públicos para trazer a visibilidade da situação e a importância de lutarmos por um centro cultural que sofre ameaça da especulação imobiliária

Julie Wetzel
Ocupação Dulcina Vive
Oficina de perna de pau para todos: arte de resistir

 

Há mais de vinte dias, estou circulando pelos corredores da instituição, residindo, como artista que ocupa o Teatro Dulcina de Moraes, no período da noite. Testemunho, portanto, a seriedade e o empenho dessa comunidade em trazer de volta uma instituição cultural ameaçada por más administrações.

Comunidade decide todas as questões em conjunto

 

Na ocupação Dulcina Vive, tudo é muito organizado e decidido em Assembleia. Não se pode entrar hoje no Dulcina sem passar pela portaria e registrar nominalmente a chegada e a saída. Os estudantes e professores se dividiram em comissões que cuidam de tudo: da comunicação à coleta de alimentos

O trabalho é intenso e, semanalmente, há oficinas de artistas voluntários, como Kika Moraes (maquiagem), o diretor José Regino (corpo cômico) e Aluizio Augusto Carvalho (perna de pau). A ideia é quebrar com o preconceito intencionalmente disseminado na sociedade de que os ocupantes são “desocupados”. Estão ali para destruir o patrimônio e usar drogas, desviando assim o objetivo de luta.

A luta está nos olhos de cada um que encontro pelos corredores, na passagem corrida para o ensaio no teatro. Essa paixão renova a obra de Dulcina de Moraes, que os poderes públicos agora renegam. Não se pode deixar um patrimônio desse porte morrer. Para uma cidade de 56 anos, a falência da Fundação Brasileira de Teatro, primeira instituição voltada para o ensino do teatro, em 1955, no Rio, é a assinatura do fracasso público.

A ocupação resiste forte e precisa de você. Doe alimentos, produtos de limpeza e até uma palavra de apoio. Dulcina vive!

A Ocupação, desde a semana passada está recebendo alimentos não só para se manter, mas também para trazer o mínimo de possibilidade dos funcionários continuarem os seus trabalhos

Julie Wetzel

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