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Tipo Assim

O desafio de fazer o espectador desligar o mundo que corre nas mãos

Teatro é ritual que implica no pacto de interesse entre palco e plateia. Não é possível estabelecer a narrativa se uma das partes se ausenta

Sérgio Maggio24/12/2017 05:30, atualizado 24/12/2017 09:55
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Getty Images
O desafio de fazer o espectador desligar o mundo que corre nas mãos

Se a essência da arte teatral só se revela diante da plateia, estes primeiros tempos do século 21 põem o encontro entre processo criativo e espectador como um dos grandes problemas das artes cênicas contemporâneas. Aqui e ali, é comum ouvirmos artistas reclamando dos teatros esvaziados e da falta de política pública para formação de plateia e do abissal distanciamento entre teatro e escola. O lamento procede.

É claro que, se fôssemos um país onde o teatro estivesse presente na rotina dos nossos meninos e meninas, teríamos uma relação quantitativa – e qualitativa – diferente com quem senta na poltrona de teatro. Esse, aliás, é um problema também da música erudita, da ópera, da dança e, quiçá, das artes visuais e performáticas.

Apesar do visível desinteresse de parte do público pelo teatro, o que se impõe como um questionamento urgente é de outra ordem. Talvez, da natureza do ser humano contemporâneo. Como lidar com esse espectador afetado pela tecnologia que traz no bolso? Da cabine de luz e som de um teatro, de onde nós, diretores, padecemos para que a arte do ao vivo se estabeleça dentro de um parâmetro de excelência, a imagem é, por vezes, desoladora.

A caixa escura do teatro, urgente para quebrar as conexões com o mundo externo que seduz e atormenta o espectador, é rasgada por pequenos clarões que explodem das telas dos aparelhos móveis

Por alguns segundos, aquele que deveria estar em comunhão, ou em conflito, com o palco, desprende-se da narrativa para se conectar com o universo externo. Desliza os dedos sobre o visor, desconcentra quem está ao lado, põe o diretor/elenco em estado de aflição e se divide entre esses dois mundos inconciliáveis para que o rito do teatro se estabeleça.

É uma questão de educação, brada alguns que acreditam em medidas coercitivas, como a de pedir para o cidadão desligar o aparelho ou se retirar do teatro. Será que a plateia deve ser tratada como se pertencesse ao jardim de infância? O espectador contemporâneo, sobretudo o jovem, nasce em meio às novas tecnologias. Tem a visão fragmentada. É capaz de operar várias janelas de informação simultânea. Estuda, trabalha, caminha, almoça, flertando com Facebook, Twitter e WhatsApp.

Alguns não conseguem ficar meio minuto sequer sem verificar as 1001 atualizações. Imagine ter que se desligar de tudo e de todos por duas horas de teatro na veia? E se a narrativa lhe levar ao estado de tédio? Ou, ao contrário, a peça é tão instigante que ele resolve fazer um post no calor da hora. Ou ainda, apreender uma cena, filmando ou fotografando, mesmo que isso tenha sido repreendido pela produção antes do terceiro sinal.

O espectador é o que há de mais complexo para o teatro no século 21. E os artistas precisam pensar nessa questão não de forma externa, vociferando contra os algozes como censores do jardim de infância. É preciso levar esse problema para dentro do processo criativo. Não como uma forma de concessão visando facilitar a vida desse espectador disperso e afetado pelo mundo contemporâneo.

A construção da narrativa precisa se deparar com a recepção contemporânea bem antes da estreia como se fosse uma difícil equação matemática a ser encarada. Para resolvê-la, é preciso gastar horas de neurônios.

Talvez seja um daquelas problemas sem solução. Talvez consigamos achar um resultado que equilibre o desejo de estar no teatro enquanto o mundo corre velozmente nas mãos