O Brasil das redes sociais vira palco de guerra
Sem habilidade para manter o discurso reflexivo, o ambiente virtual ficou chato, intolerante e insalubre. Um risco para as manifestações de carne e osso que prometem continuar tomando as ruas
atualizado
Compartilhar notícia

Não houve confronto nas manifestações deste domingo histórico, 13 de março de 2016. Esse fato evidencia a maturidade do estado democrático brasileiro e mostra, ao mundo, que somos capazes de aceitar a diversidade de opiniões. Isso indica que vivemos em um país onde parte da população tem legitimidade para se vestir de verde e amarelo e sair, em centenas, pelas vias das cidades pedindo uma nova ordem política. Demonstra também que o percentual dos que discordam desse movimento podem, consequentemente, ter uma visão crítica sobre a manifestação, gerando um instigante debate e levando a nação a repensar seus rumos nos próximos anos.
Essa aparente harmonia, no entanto, encerra-se no exato momento em que nos conectamos ao wi-fi, escorremos o dedo no visor do dispositivo móvel e ficamos diante da trincheira chamada de redes sociais. Ali, o pau está comendo solto, com direito a bloqueios, xingamentos de toda ordem e amizades encerradas em caquinhos.
Quem se arrisca a expor seu ponto de vista nas redes sociais é atacado como se sua página fosse uma vitrine de banco apedrejada pelos Black Bloc. Foi assim com o deputado federal Jean Wyllys (PSol/RJ) que perdeu o controle sobre sua página no Facebook, invadida por hackers e violada em suas ideologias. Tem sido assim com que se arrisca a se posicionar, não importar de qual lado esteja. Basta discordar politicamente para virar alvo do patrulhamento virtual.
Convívio insalubre
A cada postagem sobre o que se pensa do atual momento delicado que o país atravessa, comentários cortantes são lançados como se fossem jatos de gás pimenta, balas de borrachas e cacetetes sobre o corpo.
Aliás, o convívio virtual tem ficado insalubre a tal ponto que muitos usuários resolveram abandonar as suas contas no Twitter e no Facebook e viver a vida pautada no olho no olho
Entre iguais
Muitos não admitem ter uma rede de amigos diversificada. De preferência, todos devem pensar da mesmíssima forma, marcarem presença nas mesmas manifestações e fazerem selfies com camisetas de dizeres encomendados, como se pertencessem a um bloco de carnaval uniformizado.
Nos grupos de WhatsApp, a censura está institucionalizada. Mesmo nos mais amenos, como “o reencontro dos formandos de 2001” ou do “pessoal que frequenta o bar da moda”, não é possível conviver com que posta algum link ou imagem discordantes. Há quem pregue um manual de regras para que todos possam estar juntos por algum motivo de afinidade, só assim será possível cultuar a palavra “amor”.
Cadê os memês?

Até o humor dos brasileiros, com seus memes geniais, tem ficado a fio quando o tema envolve palavras-chaves como “impeachment”, “renúncia, “Dilma”, “Lula”, “Aécio”, PT”, “PSDB”, “coxinha” e “petralha”. A arte de zoar o outro, com humor mordaz, inteligente, que não zomba os direitos humanos, escoou pelo ralo nessas manifestações.
Precisamos rir do nosso ridículo para entender aonde vamos chegar como população de voz ativa e de massa crítica
Os memes que nascem prontos, como o da senhora bem nascida que bebe espumante na passeata ou do ex-presidente que se compara a uma cobra jararaca, estão perdendo a graça diante de olhos cheios de sangue.
Nesses tempos esquisitos, é preciso ter firmeza para instituir o limiar entre o respeito e a vontade para bancar uma postagem de opinião. Falta bom senso e sobra o exercício de impor um ponto de vista sobre o outro. As redes sociais tornam-se esse mar de sentimentos de toda ordem que fomentam um tsunami em curso. É como se estivéssemos gestando, sobre a proteção da distância física que nos separa, um barril de pólvora que pode ser detonando a qualquer momento nas ruas, colocando a ordem pública e o estado democrático sob risco.
Esse choque de verdades produz um discurso estéril e chato, sem as subjetividades provocadas pelo que desperta o riso, alguns com qualidade de reflexão. Quem foi às ruas acredita que faz o melhor pelo país. Quem não foi não compactua com um golpe contra a democracia. Entre esses dois mundos, há um entre que cabe num universo de possibilidades. É nesse que precisamos habitar para construir um Brasil possível e habitável para mais de 200 milhões de cabeças diferentes.
