Uma rosa com amor: Marília Pêra aspirou o delicado perfume de Dulcina

Desde que a dama do teatro brasileiro trouxe para Brasília a Fundação Brasileira de Teatro (FBT), atriz e diretora sempre manteve laços com a obra e a história daquela que foi sua maior inspiração para o jeito de fazer comédia

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Arquivo Fundação Brasileira de Teatro
1 de 1 - Foto: Arquivo Fundação Brasileira de Teatro

A menina Marília vivia nas coxias dos espetáculos da Cia. Dulcina-Odilon, onde trabalhava os seus pais, Manuel Pêra e Dinorá Marzullo. Às vezes, a peça corria no palco e, ela estava por ali a se encantar com entra e sai dos atores para a troca de figurino e posicionamento de cena.

Certa vez, Marília viu Dulcina de Moraes trocar de roupa e entregar a peça ao camareiro, que a posicionou no cabideiro. Não resistiu. Com ar de travessura, movimentou-se silenciosamente para tocar na peça e cheirar o perfume da atriz, como se aspirasse o seu dom de fazer rir.

Sempre fui apaixonada pelo perfume dela. Ah, Dulcina, como era linda aos meus olhos de menina. Entrava em cena e, o espetáculo se transformava com seus gestos largos. Aqueles lábios vermelhos e óculos imensos (parece que ela era meio míope, não tenho certeza).

Marília Pêra

Guardiã da memória
Era muito fácil entrevistar Marília Pêra se o assunto fosse Dulcina de Moraes, a mestra e musa que lhe ensinou o caminho da comédia sutil e cheia de intenções. A atriz estava sempre disposta a falar daquela que foi uma das maiores personalidades do teatro do século XX. Ela sempre tinha tempo, em sua agenda corrida, para enaltecer a mulher que tanta a inspirou. Em 2011, ao lado de Nathália Timberg e Bibi Ferreira, reinaugurou, com série de depoimentos, o Teatro Dulcina de Moraes, no Rio.

Funarte/Divulgação

Sempre gosto de falar de Dulcina de Moraes, de Procópio Ferreira e de Henriette Morienau, estrelas raríssimas, que, hoje, caíram no esquecimento. Sinto-me na missão de reavivá-los.  

Marília Pêra

Espelho de comédia

Acervo Fundação Brasileira de Teatro
Dulcina de Moraes, belíssima, em “O Imperador Galante”

 

Dulcina era para Marília a mãe teatral. A menina que estudava balé ficava intrigada com a suavidade e a elegância da dama, que mais parecia flutuar no palco. Observando Dulcina, ela aprendeu a dirigir. Não era exagero dizer que Marília quis ser Dulcina, o seu espelho de comédia.

Sou de uma linha de atrizes que descendem de Dulcina. Muitos das minhas personagens tiveram a cor da Dulcina. Sempre penso nela quando componho tipos. Rafaela Alvaray, de ‘Brega & Chique’, era muito Dulcina.

Marília Pêra

https://www.youtube.com/watch?v=NhJPjmBAGyQ

Quando Marília pensava em Dulcina, definia o tom de comédia, o ritmo com que traria a personagem à vida. Todas elas traziam o humor sutil que nunca caía no escracho, sem recorrer em tons muitos fortes, cheio de segundas e terceiras intenções. A cantora lírica Florence Foster Jenkins, do musical “A Gloriosa”, é muito Dulcina.

https://www.youtube.com/watch?v=t7Wwg2tvPvQ

Tudo vermelho
A influência de Dulcina era tanta que Marília Pêra chegou a compor personagens com cabelo, unhas e bocas vermelhas em homenagem àquela que chamava de fada madrinha, a que deu a menina o primeiro velocípede.

Em 1967, quando contracenou com Dulcina de Moraes na “Ópera dos Três Vinténs”, todo dia Marília visitava a mestra no camarim. No palco, Dulcina era Jane Espelunca; Marília, Polly Peachum, personagem, aliás, cobiçado por Elis Regina.

Uma vez ouvir dizer que Dulcina não era bonita, mas quando entrava no palco ficava linda. Quando se mudou para Brasília, sentia muitas saudades. De tudo, da sua graça.

Marília Pêra

Na morte de Dulcina de Moraes, em 28 de agosto de 1995, Marília Pêra foi uma das poucas artistas que vieram do Rio para o enterro em Brasília.

Estávamos aqui eu, Nicette Bruno, Paulo Goulart e Bibi Ferreira, Acho que isso diz muito sobre o respeito ao ofício de interpretar no Brasil. Uma mulher como Dulcina não merecia morrer esquecida, morando de favor e recebendo três salários mínimos..

Marília Pêra

Palestra em Brasília
Toda vez em que Marília Pêra vinha a Brasília com um espetáculo, era uma festa para Dulcina, como a foto em destaque no início da matéria (as duas ao lado do saudoso coreógrafo Fernando Azevedo).

Marília voltou outras vezes à capital para defender a obra de Dulcina de Moraes. Numa dessas viagens, em comemoração ao centenário de nascimento (em 2008), veio falar aos estudantes da Faculdade de Dulcina de Moraes sobre a importância dessa mulher.

Dulcina era a Carmen Miranda das artes cênicas.

Marília Pêra

Carmen Miranda trazia charme, beleza, elegância e felicidade à música. Talvez, por isso, a Pequena Notável tenha sido uma das grandes personagens vividas por Marília Pêra em sua casa, o teatro.

Abaixo, dois raros vídeos de Marília Pêra. O primeiro com Ney Matogrosso, de 1980. O outro com Elis Regina de 1971. Em ambos, a influência de Carmen Miranda.

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