De varredor de palco a um dos mais admirados atores de Brasília
Aos 79 anos de idade e 64 de carreira, Gê Martú traz em si os fragmentos da história do teatro candango
atualizado
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Nesta semana, o ator e diretor Gê Martú ganhou serenata debaixo do bloco. A prova de amor é pelo aniversário de 79 anos de idade (64 de teatro). Veio de uma meninada que o admira. À distância, o tempo parece comprido quando a gente pensa em sua trajetória. No entanto, basta alguns minutinhos perto dele para entender que a leveza é a chave com a qual girou tantas portas e tornou-se um dos mais respeitados artistas do Distrito Federal.
Com um sorriso sempre a postos e uma delicadeza ímpar, Gê sempre tem “um filhão” (ou filhona) à boca para tratar seus companheiros de cena. Quando se despede de alguém, puxa um tal de “abraçãobeijão”, que deixa todo mundo envolvido. É quase impossível não se sentir sua cria. Gê acolhe, divide histórias e fragilidades (é humano de carne e osso).
Chama poderosa
Tive a honra, em 2010, de dirigi-lo para o projeto Mitos do Teatro Brasileiro, no CCBB, em homenagem a Procópio Ferreira, um dos fenômenos de plateia do século 20. Ao lado do ator Jones de Abreu, fiquei diante de um homem fragilizado, que estava com medo de voltar a atuar. Desde 2007, ele não subia no palco. Uma bronquite asmástica, apelidada de “asmada amante”, era uma doença possessiva. Queria ele para si, a ponto de um médico recomendar o adeus aos palcos.

Nos ensaios, aquele ator inseguro dos primeiros dias foi acendendo uma chama tão poderosa, que, no dia da apresentação, sob o testemunho de um teatro lotado, arrancou lágrimas dos espectadores ao reviver a primeira função na maquinaria teatral: o de zelador. Na cena criada, Gê Martú era o homem que limpava o camarim e as coxias, frequentados por Procópio.
Ele não sabia que combinamos de homenageá-lo em cena aberta. De repente, estava aquele ator grandioso varrendo o palco do CCBB, quando o ator Jones de Abreu anunciou que estávamos diante de um mito.
Vem Gê, vem viver o Coelho Juju (primeiro personagem feito na capital federal em 1965). Vem mostrar a Brasília seu amor ao teatro
Jones de Abreu
A plateia se levantou espontaneamente, muita gente chorava, abraçava-se e Gê, diante de uma emoção implacável, percebeu que seu coração estava forte como nunca (ele usava marca-passo). A foto que abre esta coluna singulariza este momento. Gê, abaixado, colocando a mão no peito. Emocionado, na coxia, ele me pegou pelo braço e disse.
Filhão, obrigado, acabo de voltar ao teatro. Agora, ninguém me segura
Gê Martú
Memória teatral
E não segurou. Gê não para de fazer filmes (tem mais de 50 no currículo), peças (mais de 80). É um articulador cultural, apaixonante e apaixonado por Brasília. Aliás, é possível contar a história do teatro candango a partir dos fragmentos que habitam a cabeça desse artista precioso. A peça “Bela Ciao”, do genial e saudoso Mangueira Diniz, salta das lembranças. Ele volta há 1991, quando a Oficina do Perdiz virava teatro respeitado, e rememora diálogos. De repente, estou ali diante do ator que se deliciava com uma macarronada de verdade. Sinto até o cheiro de café feito na hora, que ele me descreve tão apaixonadamente.
Na época, Gê Martú foi coroado o melhor ator da temporada e já estava com quase 40 anos de carreira, iniciada, no Rio, entre uma varrida no palco e o pedido para fazer o papel de “povo” numa peça. Ali, aprendeu todos os segredos do teatro
Quando o Coelho Juju chegou à capital federal, ele nem sabia que vinha morar aqui em 1971, trabalhando no Ministério da Educação e descobrindo as delícias do teatro amador. Gê Martú viu o teatro brasiliense florescer. Como ator, passou pelas mãos de gerações de diretores que aqui experimentaram arte.