Conheça Nicolas Magalhães, o primeiro DJ homem trans do DF

Modelo e tatuador, ele começou a transição de gênero há três anos e, hoje, exibe orgulhoso sua identidade masculina

atualizado 03/03/2019 12:01

Arquivo pessoal

Quem vê o DJ Nicolas Magalhães comandando as pickups de uma balada pode sentir em seus olhos o brilho da felicidade plena. Com o corpo malhado e um sorriso radiante, ele segue firme na estrada de ser um homem trans numa sociedade ainda incapaz de compreender as questões de identidade de gênero e efetivar políticas de proteção para uma parcela da população cuja expectativa de vida é de 35 anos.

“Você só tem uma vida. Então, faz o quer, independentemente de ser trans, cis, binário não binário, feminino ou masculino. Tudo não passa de capa. Se você está sofrendo para não ser você, então seria melhor que sofrer sendo você”, diz o jovem.

Arquivo Pessoal

 

Nascido em Planaltina, Nicolas saiu de casa precocemente, aos 13 anos, quando ainda não estava em discussão sua identidade de gênero. É modelo profissional, tatuador e bartender na boate Victoria House. Agora, torna-se o primeiro DJ homem trans do DF. A profissão é novíssima (há um mês apenas) e, de cara, aumentou a empregabilidade do moço.

“Sou muito focado no trabalho. Nunca fiquei completamente sem trabalhar, sempre um bico apareceu. Minha meta é me manter”

Nicolas Magalhães

Há três anos, Nicolas fez a “travessia”. Não se lembra mais de como era o seu corpo de mulher. A fisionomia só recorda porque tem fotos do antes e do depois. Ele não tem medo de que as pessoas saibam que, no passado, estava com outra “roupagem’. Mantém uma saudável relação com a família: mãe, avó e irmãos. E tem consciência de que ser solitário faz parte de sua condição trans.

“Vivi 23 anos socialmente como mulher. Hoje, só, com três anos de hormônio, sou um homem da porra”, afirma.

Nicolas tem passibilidade como homem cis. Ele passa na rua e dificilmente alguém vai ter uma impressão dúbia sobre o seu gênero. Essa passagem social permite que ele circule sem camisa e caia numa piscina. Mas, quando descobrem que é trans, surgem, muitas vezes, preconceitos que se acumulam. Ao longo da vida, sofreu agressões físicas e verbais (ora fantasiadas de opinião, ora de piadas).

“É complicado ser trans no país que mais mata trans. Não há nada de errado em ser quem somos”, atesta.

Antes de começar a transição, Nicolas era casado com uma mulher lésbica. O casamento acabou e ele foi para o Sul do país, onde começou o tratamento psicológico seguido do hormonal. Voltou, um ano depois, para descortinar um novo mundo a sua volta. Experimentou as maravilhas de ser o que é e outras sutis formas de preconceito, como o fetiche.

“Às vezes, sinto que me transformam num objeto de desejo e esquecem que tenho sentimentos”

Nicolas Magalhães

Nicolas quer que a sociedade reveja os estereótipos sobre transgêneros e que isso se reflita na empregabilidade. Que empresas criem um ambiente de trabalho onde essas fantasias sejam substituídas por uma compreensão sobre identidade de gênero.

“Eu sou homem e vou lutar pelo homem que sou. Não há ninguém que vai desmerecer minha identidade”, conclui.

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