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Biografia constrói a imagem pulsante de Honestino Guimarães

Betty Almeida era uma menina cheia de sonhos quando dona Maria Rosa Monteiro Guimarães a chamava de nora. Orgulhosa do rebento, a mãe de Honestino adorava brincar de arranjar “casamentos” entre os seus filhos e as filhas das amigas. Certa vez, a pretendente viu o prometido noivo de olhos azuis brilhantes lendo um livro, que tinha a frase “Abaixo, o grande irmão”, repetida inúmeras vezes na página.

Era o livro “1984”, de George Orwell, obra-prima sobre a delirante e esmagadora forma de poder totalitária, que, em pouco tempo, sucumbiria com a vida do idealista estudante de Geologia da UnB. Naquele dia, o rapaz fez um convite à menina. Queria que ela se iniciasse nos estudos do marxismo. Betty desconversou.

Era difícil não gostar dele à primeira vista. Sua sinceridade transparente fazia com que se confiasse instintivamente nele. Esse magnetismo pessoal contribuía para que Honestino fosse tão amado pelos estudantes da UnB

Betty Almeida

Dedicação de uma vida
A admiração ao líder estudantil sequestrado, preso, torturado, morto e desaparecido pela ditadura militar moveu a vida de Betty Almeida, professora aposentada da Universidade Federal da Paraíba e autora da biografia inédita “Paixão de Honestino”, programada para ser publicada pela Editora da UnB até o final do ano.

O Metrópoles teve acesso exclusivo à obra inédita de Betty Almeida, que refaz, de uma forma humanista, a curta e intensa trajetória do menino Honestino Monteiro Guimarães, mergulhando no contexto político da época, no movimento estudantil de uma UnB em ebulição e barbaramente devassada pelas forças militares.

Impossível esquivar-me das emoções que a obra suscita, pela intimidade com que a autora penetra na vida pública, pessoal e familiar de uma criança, de um jovem, de um homem brasileiro, de um militante massacrado. Revela, por um lado, um Honestino igual a qualquer outro brasileiro comum; por outro, um ser humano singular e avassalador, pela força que sempre irradiou sobre as outras humanas criaturas com que ia se deparando em sua acelerada caminhada e pelas ações que empreendeu

Maria de Nazaré Pedroza, professora da UnB, que assina o prefácio

Herói ao chão


Guardiã do acervo de dona Rosa Monteiro Guimarães, a mãe extremosa que lutou incessantemente para descobrir onde estariam os restos mortais do filho, Betty quebra a imagem de herói e traz, ao leitor, um jovem cheio de sonhos, que queria ser presidente do Brasil.

Tentei – não sei com quanto sucesso – transformar uma massa de informação, fatos e ideias, junto com minhas próprias memórias e opiniões, em um relato que mostrasse um pouco o que foi a resistência à ditadura e a luta pelo socialismo empreendidas pela minha geração

Betty Almeida

Betty trata cada detalhe da vida de Honestino como uma peça preciosa. A infância livre é refeita em detalhes com memórias de mergulhos no rio e peladas (ele adorava futebol, jogava de óculos, mas era ruim de bola), na pequena Itaberaí (GO).

No colégio, Honestino tinha ótimas notas, mas era levado e brigão, apesar das surras que levava em casa por causa das brigas de rua em que se metia com frequência. Fazia questão de ser o primeiro da classe e uma vez chegou em casa soluçando por ter ficado em segundo lugar – a coleguinha Maria Aparecida arrebatara-lhe o primeiro

Betty Almeida

Brasília pulsante


Betty constrói os primeiros anos desse menino apaixonado pelo circo, devorador de livros e bom de palavras (ele recitava poemas para impressionar as meninas) até chegar a vinda a Brasília, numa caminhonete Chevrolet em 20 de dezembro de 1960, onde Honestino foi estudar no Elefante Branco, no CIEM e, posteriormente, na Universidade de Brasília.

Maria Rosa, procurando o nome do filho, foi subindo, subindo, até chegar ao topo da lista: Honestino Monteiro Guimarães, que ainda não tinha completado 18 anos, foi o primeiro colocado, em toda a UnB, no vestibular do ano de 1965 (fez 257 pontos de um total de 260). Seu Monteiro esfregava as mãos de contentamento e, emocionado, dava tapinhas no ombro do filho

Betty Almeida

Teatro no campus
Na UnB, que teve poucos anos de liberdade, a política e a arte ocupavam as salas e corredores. Havia formação de grupos de teatro que encenaram peças de autores como Brecht, Tchecov e o argentino Osvaldo Dragun. Jovens de todo o país eram atraídos para a universidade.

Betty conta que Ariano Suassuna, antes de uma concorridíssima e divertida palestra, viu encenada por alunos da UnB sua peçaO Vaso Suspirado”, no superlotado auditório Dois Candangos, que também foi palco de “A Exceção e a Regra”, de Bertolt Brecht. “Piquenique no front”, de Arrabal, foi apresentada por um grupo da UnB, dirigido por Roberto Gnatalli. Luiz Carlos Miéle encenou, no mesmo auditório, seu espetáculo “Febeapá”, uma hilariante antologia das gafes dos militares no poder. A empatia entre público e artista foi intensa e acabou acontecendo uma catarse geral.

Além dos estudos e da política, faziam-se também muitas festas. Ouvia-se música, dançava-se, bebia-se, namorava-se – alguns casais mais ousados procuravam lugares discretos para ficar à vontade. Fumava-se também, mas só os produtos da Souza Cruz, pois o uso das alternativas artesanais à base de cannabis sativa era considerado um desvio pequeno-burguês por aquele pessoal politizado. Boa parte dos estudantes da UnB, na verdade, tinha como classe de origem a pequena burguesia, mas renegava a ideologia dessa classe sem perspectiva histórica, que aspirava a se tornar burguesia, mas dentro do capitalismo estava fadada a se proletarizar

Betty Almeida

Faltaram três disciplinas
Não demorou para que o nome de Honestino Guimarães caísse na lista de perseguidos da ditadura militar. A liderança nas ruas e dentro do campus o colocou na linha de frente dos procurados. O estudante parecia ter pressa para se formar.  Cursou em seis semestres 189 dos 200 créditos exigidos para pegar o diploma. Em 1968, quando faltavam três disciplinas para se graduar, ele foi expulso.

O campus vivia cheio e a ameaça de uma nova invasão inquietava a todos. Alguns estudantes sugeriram ir direto para a quadra de basquete, de mãos para o alto, assim que a polícia chegasse. Outros começaram a fabricar, com pedaços de vergalhões de ferro dobrados com alicate e borracha de câmaras de ar de pneus velhos, estilingues para resistir à invasão

Betty Almeida

A vida que seguiu foi de perseguições, prisões e clandestinidade, com pausa para o romance entre Honestino e Isaura Botelho, com nascimento da filha, Juliana.

Aos 21 anos, o rapaz louro de olhos azuis começava outra vida, na sombra. Isaura escolheu acompanhá-lo por amor e também por desejar tornar-se militante. Mas os dois não podiam ter uma vida regular e continuaram a viver de casa em casa, de quem se dispusesse a hospedá-los, nunca muitos dias no mesmo lugar. Estavam casados havia quatro meses e passaram a viver ainda mais escondidos, sempre dormindo um dia aqui, outro dia em outro lugar, como nômades em eterna fuga – o que de fato eram

Betty Almeida

A biografia “Paixão de Honestino” segue para além do dia do desaparecimento, 10 de outubro de 1973, quando Betty reúne várias versões para a morte do biografado. O livro não traz a versão oficial nem aponta o destino dos restos mortais, mas aproxima para o ano de 2016 a impressão forte e real de Honestino Guimarães.

Honestino nunca quis ser um mártir, nem tornar-se herói. Lutou com as forças de que dispunha – principalmente suas ideias – e viu-se jogado nas sombras da clandestinidade, sempre acreditando que tudo o que cada um fizesse poderia juntar-se para formar algo grande e forte. Por isso não quis partir para uma suposta segurança como refugiado político em outro país, para não deixar de cumprir seu papel na História e, sobretudo, para não abandonar os que ficavam

Betty Almeida

 

Eu construo a verdade do mundo

e a busco na igualdade de todos

e na liberdade do homem.

Pois eu construo a festa

cantando e lutando por um mundo liberto e igual,

pelo mundo que vai chegar

com a manhã mais bela que as manhãs todas,

com a festa dos homens livres.

E eu luto pela festa do mundo.

Honestino Monteiro Guimarães, 27 de novembro de 1965

Sérgio Maggio

Jornalista, diretor e dramaturgo do Criaturas Alaranjadas Núcleo de Criação Continuada. Autor dos livros Rumo ao Planeta Gargalhada, um perfil biográfico da Cia. de Comédia Os Melhores do Mundo, e Conversas de Cafetinas, com o qual ganhou o Prêmio Jabuti de Literatura.

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