Inscreva-se no canal MetrópolesTV no YouTube
Tipo Assim

Aos 50 anos, “Chifrudo” está abandonado na divisa entre DF e Goiás

Criado pelo escultor de Nice Ange Falchi, monumento “Solarius” foi presente do governo da França à recém-inaugurada capital do Brasil

06/06/2017 05:33, atualizado 06/06/2017 09:09
Aos 50 anos, “Chifrudo” está abandonado na divisa entre DF e Goiás
Aos 50 anos, “Chifrudo” está abandonado na divisa entre DF e Goiás

Era para ser uma das esculturas mais imponentes e respeitadas do Distrito Federal. No entanto, 50 anos depois de instalada, “Solarius” está completamente esquecida do circuito turístico de Brasília.  O pior: é alvo de chacotas (chamada de “Chifrudo” ou “Formigão”) e está fisicamente devastada. Há sinais de pichação, arrancaram as placas indicativas e pintaram a escultura de um azul medonho (o original eram tons terrosos).

Um presente do governo francês para o Brasil, a peça traz em si toda a síntese da criação de Brasília. Na época, o artista Ange Falchi, da cidade de Nice, pesquisou pelos noticiários informações sobre a construção da capital no interior do país. Viu a imagem impressionante de trabalhadores, os candangos, migrando de todas as regiões do Brasil para o canteiro de obras, todos cheios de esperança.

Símbolo do Pioneiro Indômito, que conquistou a região agreste e pungente do Planalto Central.

Ange Falchi

“Solarius” chegou a Brasília em 1967. Veio dividida em sete blocos, pesava 10 toneladas e tinha a pretensão de ser instalada em frente à Torre de TV. O escultor Ange Falchi veio à cidade e acompanhou as discussões.

Entre no canal de WhatsApp do Metrópoles
“Significa a territorialidade de Brasília e o esforço de todos os brasileiros em construí-la. Dizem que a mudança de local se deveu a Lúcio Costa. Ele olhou a obra e indicou que ela deveria estar num ponto de entrada da cidade para ser admirada por quem chega”, conta o jornalista e pesquisador Silvestre Gorgulho.

“Solarius” então foi para na BR-040, à margem esquerda de quem deixa a capital federal. A região é quase divisa entre DF e Goiás e entrada para quem vem de Minas Gerais, Rio de Janeiro e São Paulo. A inauguração ocorreu em 26 de novembro de 1967, com pompa e banda de música do Colégio La Salle. Nas primeiras décadas de Brasília, as pessoas paravam para tirar fotografias.

“Lembro-me perfeitamente da primeira vez que a vi! Vinha numa excursão estudantil, de ônibus, conhecer Brasília, em 2 de fevereiro de 1971, finalzinho de tarde. Ao avistá-la, todos nós ficamos boquiabertos com aquela coisa enorme e indefinida, perdida no cerrado! O que será isso? Terá vindo de Marte? Jovens curiosos, mas desinformados, vindos do interior de Minas doidos pra conhecer a capital.” O relato é de Jaci Costa num post da comunidade Memória de Brasília, do Facebook. Nesse mesmo grupo, Angélica Rodrigues postou uma foto incrível com os irmãos mostrando as cores originais da escultura “Solarius”.
Angélica Rodrigues e os irmãos: tons terrosos

“Solarius” é suntuosa. Tem 16 metros de altura e é feita de ferro galvanizado, com enchimento de lã de vidro e concreto. Hoje, pertencente à Região Administrativa de Santa Maria, num local de intenso engarrafamento por conta dos condomínios que surgiram no Entorno e constantes acidentes. Em nada a escultura lembra o tempo bucólico de chegada à cidade, quando funcionava como uma espécie de marco zero, anunciando que, em breve, os visitantes estariam na nova capital do Brasil

“Ela perdeu a cor original e rude do concreto. É uma obra icônica porque representa o bandeirante, o candango, o homem simples que veio para construir o sonho coletivo.”

Marcelino Cruz, artista plástico
Aos 50 anos, “Chifrudo” está abandonado na divisa entre DF e Goiás