A arte diz não ao abuso sexual contra crianças

A linguagem artística e a educação são duas poderosas frentes de luta contra esse flagelo mundial que dizima a infância

atualizado 04/05/2018 10:41

IStock

Sou artista. Sou contra toda forma de violência e de barbárie. Em 2011, montei o monólogo “Eros Impuro”, dono de uma estrada triunfante. Por cinco anos, viajamos por 17 capitais de todas regiões brasileiras.

Nós, Criaturas Alaranjadas Núcleo de Criação Continuada, ficamos um mês em cartaz em São Paulo, ganhamos prêmios teatrais e levamos à salas de espetáculos diversas mais de 15 mil espectadores. Foram 120 sessões e, em algumas delas, ouvimos espontaneamente relatos tocantes de adultos que tiveram a sua infância violada. Pessoas que nunca tiveram coragem de se expor levantaram-se das poltronas e soltaram a voz. Falar cura.

Uma a cada cinco crianças sofre abuso sexual

Em sua grande maioria, esses espectadores foram maculados em locais que deveriam ser territórios de proteção: o lar, a escola, a igreja, as casas de parentes, de amigos e de vizinhos. O abuso sexual contra crianças e adolescentes é um flagelo mundial, que precisa ser exposto, pois se fortalece no silêncio e na mordaça, na chantagem e na vergonha.

Somente 1 a cada 10 casos de abusos é relatado

Quando escrevi e dirigi a peça, um monólogo para o ator e artista plástico Jones de Abreu, estava motivado por uma série de sentimentos. Um deles: o de justiça. Vi uma amiga minha de infância, vamos aqui chamá-la de “Jota”, enlouquecer em vida adulta, já uma profissional bem-sucedida na área de direito. Essa mulher, uma linda menina, foi sequencialmente abusada por um “tio postiço”, um senhor de carreira policial que seviciou covardemente as sobrinhas e as próprias filhas. Um criminoso que envelheceu impune pelo medo das vítimas.

O abusador é, geralmente, uma pessoa de confiança da criança

Minha amiga “Jota” morria de medo quando era adolescente. Ele a ameaçava de forma vil. Dizia que mataria a mãe se ela contasse algo. Ele a abusou de todas as formas, fisicamente e psicologicamente. Ela nunca teve coragem de denunciá-lo. É de uma geração que entendia essa barbárie como uma sina. “Jota” foi vencida pelo horror. Enlouqueceu lentamente. Desapareceu por várias vezes pelas ruas de Salvador, onde foi sucessivamente violada por estranhos. Que triste destino. Uma vida destruída pela sede infame e criminosa desse senhor que, como disse, envelheceu fragilmente como se fosse um inocente velhinho de mãos trêmulas.

A violência sexual associada à psicológica é a raiz das sequelas emocionais, por vezes, irreversíveis

O maior aliado do abuso sexual é essa ausência, esse grito mudo, esse processo solitário dentro da alma. Precisamos falar sobre esses crimes. Soltar esses segredos nefastos. Estamos vivendo esse momento doloroso quando ouvimos as histórias brutais que aconteceram nas quadras e nos vestiários da ginástica artística brasileira. Mas não duvide. Seria mais cruel se tudo ainda estivesse silenciado.

A vítima de abuso pode sofrer depressão e tentar o suicídio

É preciso educar nossa população contra o abuso. É desolador testemunhar esses atletas serem revitimizados pela ignorância de muitos. Quando alguém desdenha desses rapazes, ocorre um segundo abuso, tão cruel e indigno como o original. Se esses meninos ficaram calados, foi porque havia um abismo entre a alma dilacerada e voz da denúncia. Foi isso que fez minha amiga “Jota” perder a razão. Ela foi engolida nesse abismo sem fim.

O dia 18 de maio é a data de combate nacional contra à exploração sexual infanto-juvenil

Precisamos defender nossas crianças do abuso. A educação e arte são aliados importantíssimos porque usam a linguagem dos afetos para ensinar como se defender. O conhecimento é a melhor forma de dizer não ao algoz. É preciso vencer os pudores porque só o diálogo pode estancar tanta violência. Se alguém tivesse tido a coragem de falar sobre os horrores que ocorriam naquelas quadras, muitas dessas crianças teriam sido salvas dessa selvageria. Ao que parecem, adultos complacentes optaram em rir dessa desgraça humana. Tornaram-se cúmplices dessa maldição.

87% dos abusos ocorrem dentro da família ou envolvem pessoas de convivência das crianças

Queremos justiça. Precisamos que os abusadores não só sejam condenados como tratados no corpo e na alma. Eles vão voltar para a sociedade. Precisam voltar tratados. Precisamos interromper esse ciclo de barbárie por isso “A arte diz não ao abuso contra crianças” é como um grito. Tem que virar um movimento nacional.

No dia 22 de maio, às 16h, no espaço cultural Ele Mora no Brás, nós estaremos em São Paulo para usarmos a linguagem da arte como uma forma de prevenir essa tragédia íntima. Estaremos ao lado de poetas, escritores e artistas de diversas linguagens. Lá, vamos distribuir a cartilha “A Arte Diz Não Ao Abuso Sexual Contra Crianças”, fruto da nossa trajetória teatral com “Eros Impuro”. Que isso se multiplique em cada cidade e só cesse quando o Brasil se tornar intolerante a esse crime.

Disque 100 para denunciar o abuso sexual contra crianças

Quem quiser ter acesso a cartilha virtual entra na pagina da Criaturas Alaranjadas e envia uma mensagem solicitando este material.

Últimas notícias