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Solidão é fator de risco tão grave quanto fumar, explicam psiquiatras

Solidão persistente aumenta risco de demência, infarto e morte em até 26%, segundo especialistas

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1 de 1 Mulher refletindo sozinha- Metrópoles - Foto: Freepik

A solidão deixou de ser vista apenas como um estado emocional passageiro para se tornar tema central na saúde pública. Estudos internacionais indicam que a solidão crônica pode aumentar o risco de mortalidade em níveis comparáveis ao tabagismo, um dado que acendeu alerta entre especialistas.

O psiquiatra Daniel Martinez, que atende em São Paulo, afirma que a solidão é um determinante social relevante. “A gente sabe que a solidão crônica aumenta o risco de declínio cognitivo, demência, piora doenças cardiovasculares e eleva a mortalidade. Há estudos mostrando um risco até 26% maior”, explica.

Segundo ele, pesquisas de longo prazo indicam que esse fator pode ser comparável ao tabagismo e até à obesidade em impacto na saúde. “A solidão não é só uma experiência emocional. Ela pode alterar o cérebro, o sistema imunológico e aumentar o risco de doenças.”

Não é apenas estar sozinho

Especialistas ressaltam que solidão não é sinônimo de isolamento físico. Daniel diferencia: “Estar sozinho é algo objetivo. Solidão é uma experiência subjetiva. A pessoa pode estar rodeada de gente e ainda assim se sentir profundamente sozinha.”

A psiquiatra Natália Magno Araújo Ferreira também destaca essa diferença. “A solidão acontece quando existe uma diferença entre o nível de interação social que a pessoa gostaria de ter e aquele que percebe na sua vida”, afirma. Ou seja, trata-se da sensação de falta de conexão, não apenas da ausência de companhia.

Impacto na saúde mental

A solidão persistente está associada a diversos transtornos psiquiátricos. “O principal acaba sendo a depressão”, diz Daniel. “Mas também vemos relação com transtornos de ansiedade, ansiedade social e transtornos por uso de substâncias.”

Natália acrescenta que os quadros mais ligados à solidão crônica são depressão, doença de Alzheimer e comportamento suicida, incluindo ideação e suicídio consumado.

Além disso, a solidão pode tanto ser causa quanto consequência de transtornos mentais. “Um pode alimentar o outro”, alerta Daniel.

Efeitos biológicos mensuráveis

O impacto não é apenas psicológico. Há alterações fisiológicas associadas à solidão prolongada.

Daniel explica que estudos já demonstraram elevação de marcadores inflamatórios, como a proteína C reativa (PCR), além de alterações hormonais ligadas ao estresse crônico, como aumento do cortisol. Esses mecanismos podem contribuir para maior risco cardiovascular.

Natália reforça que a maior parte das pesquisas se concentra nas doenças cardiovasculares, mas há associação também com diabetes, doença pulmonar obstrutiva crônica, câncer e alterações do sistema imune. “Alguns autores defendem que as relações sociais deveriam ser consideradas fator de risco para mortalidade, assim como tabagismo, obesidade, dieta inadequada e sedentarismo”, afirma.

Jovens hiperconectados também sofrem

Apesar da presença constante nas redes sociais, jovens não estão imunes à solidão. “É possível que a pessoa seja muito ativa nas redes e ainda assim experimente sentimentos intensos de solidão”, explica Natália. A hiperconectividade digital nem sempre se traduz em vínculos profundos fora das telas.

Quando procurar ajuda

A solidão se torna sinal de alerta quando é persistente e começa a afetar outras áreas da vida. Daniel cita sintomas como isolamento progressivo, perda de interesse em atividades antes prazerosas, alterações importantes de sono e apetite e pensamentos recorrentes de desesperança ou morte.

“Quando começa a gerar sofrimento significativo ou prejuízo na vida do paciente, é hora de buscar ajuda”, resume.

Natália complementa que o impacto no trabalho, nas relações interpessoais e na rotina é um critério importante para considerar intervenção clínica.

O tratamento pode envolver psicoterapia, treino de habilidades sociais, ampliação da rede de apoio e, em alguns casos, acompanhamento psiquiátrico. Estratégias como participação em atividades coletivas e grupos comunitários também fazem parte do que especialistas chamam de “prescrição social”.

Conexões como proteção

Um dos estudos mais conhecidos sobre o tema, conduzido por décadas nos Estados Unidos, concluiu que a qualidade das relações é um dos principais fatores de proteção para a saúde e longevidade.

“A solidão pode matar”, afirma Daniel. “Ter alguém com quem contar é um dos maiores fatores protetores.”

Se fumar compromete o pulmão e o coração, a solidão prolongada compromete corpo e mente de maneira silenciosa. E, segundo especialistas, ignorar esse risco pode custar caro à saúde coletiva.

 

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