A importância da preparação mental para mudanças no estilo de vida
Especialistas explicam por que mudar hábitos vai além da força de vontade e como um novo estilo de vida se constrói no dia a dia
atualizado
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Mudar a alimentação e começar a se exercitar costuma ser uma decisão cheia de expectativa. O problema é que, com o tempo, a empolgação inicial diminui e muitas pessoas acabam desistindo.
Segundo especialistas, isso acontece porque mudanças no estilo de vida não dependem apenas de força de vontade ou disciplina, mas, principalmente, de preparo mental.
A forma como cada pessoa lida com a comida, com o próprio corpo e com o esforço físico é construída ao longo da vida. Emoções, experiências passadas, rotina, saúde mental e funcionamento do cérebro influenciam diretamente a capacidade de manter hábitos saudáveis. Por isso, cuidar da mente é tão importante quanto escolher o treino ou montar o prato.
Preparação mental é um processo contínuo
A psicóloga Quézia Lucena de Almeida, do Complexo Hospitalar Santa Casa de Bragança Paulista, explica que a preparação mental não é algo que se faz uma vez e está resolvido.
“A gente precisa entender que a preparação mental é constante. Não é um treino com começo, meio e fim. Tudo é uma construção, e a pessoa vai se adaptando conforme as mudanças vão acontecendo, tanto na alimentação quanto nos exercícios”, afirma.
Segundo ela, pensar de forma rígida, como se fosse tudo ou nada, aumenta a frustração. Observar o que funciona, reforçar o que dá certo e adaptar o que não faz sentido ajuda a manter o processo mais leve e possível.
A relação com a comida, por exemplo, começa muito cedo. “Ela vem desde a amamentação e da infância. Muitas vezes, a comida foi apresentada como recompensa, conforto ou alívio emocional”, explica a psicóloga.
Comer também é um ato social, ligado a celebrações e afetos — e tudo isso influencia as escolhas feitas na vida adulta. Outro ponto importante é a constância. Para Quézia, manter hábitos só é possível quando aquilo faz sentido para a pessoa.
“Quando alguém faz só porque mandaram, porque é o certo ou porque viu em algum lugar, vira algo mecânico. A constância acontece quando a mudança entra na rotina e faz bem”, ensina.
Práticas que ajudam a manter dieta e treino, segundo especialistas
- Planejar as refeições e os horários de treino para evitar decisões no impulso.
- Começar aos poucos, sem mudanças radicais.
- Aceitar que algum desconforto inicial é normal e passageiro.
- Repetir o comportamento até que ele vire hábito.
- Valorizar o esforço diário, não apenas o resultado final.
- Entender que escolher o saudável é uma decisão, não uma obrigação.
- Buscar ajuda profissional quando a dificuldade vira sofrimento.

Por que o cérebro resiste tanto a mudar hábitos?
Do ponto de vista médico, o psiquiatra Lenon Mazetto explica que o cérebro prefere o que já conhece. “O cérebro é conservador. Ele busca economia de energia e previsibilidade. Rotinas antigas já estão ligadas a circuitos consolidados de hábito e recompensa. Mudar exige esforço cognitivo e tolerância ao desconforto inicial”, diz.
Esse mecanismo ajuda a explicar por que, mesmo sabendo que algo faz bem, a pessoa tende a voltar para antigos padrões. Condições como ansiedade, depressão e TDAH podem dificultar muito a adesão a mudanças no estilo de vida.
“Esses transtornos afetam motivação, planejamento, controle do impulso e tolerância ao desconforto. Não é falta de vontade, é um funcionamento cerebral diferente”, afirma Mazetto.
A desregulação emocional também está ligada à compulsão alimentar e ao abandono precoce do exercício. Nesses casos, comer ou desistir do treino pode funcionar como uma forma inconsciente de aliviar emoções difíceis, como ansiedade e frustração.
Disciplina não precisa ser sofrimento
Os especialistas reforçam que disciplina não precisa doer. O sofrimento costuma vir dos pensamentos negativos sobre o esforço, como “não consigo” ou “é difícil demais”.
Quando a pessoa aprende a lidar melhor com esses pensamentos, a disciplina fica mais leve e sustentável. A ajuda psicológica deixa de ser opcional quando a pessoa entra em ciclos repetidos de começar, desistir e se culpar, usa a comida para lidar com emoções ou se torna muito dura consigo mesma.
Já a avaliação psiquiátrica é indicada quando há sofrimento persistente, sintomas intensos ou prejuízo na vida pessoal e profissional. Em alguns casos, medicamentos podem ser necessários para tratar o transtorno de base — não para emagrecer, mas para permitir que a pessoa tenha energia, foco e equilíbrio emocional para sustentar mudanças reais.
Para os especialistas, mudanças duradouras não nascem da cobrança ou da comparação, mas de um cuidado integrado, que envolve mente, corpo e rotina.
