“Parei no tempo”: o peso emocional que cuidadores informais carregam

Famílias inteiras mudam de vida para cuidar de idosos e doentes, mas quem oferece suporte a quem dedica o tempo e a saúde a esse papel?

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Arquivo pessoal
Foto colorida de mulher jovem segurando a mão de idosa, enquanto sorri para foto. -Metrópoles.
1 de 1 Foto colorida de mulher jovem segurando a mão de idosa, enquanto sorri para foto. -Metrópoles. - Foto: Arquivo pessoal

Ana Cláudia dos Reis, 51 anos, sabe bem o que significa abrir mão da própria vida para cuidar de quem ama. Formada em Recursos Humanos e hoje trabalhando como vigilante, ela passou cinco anos se dedicando integralmente à avó, Isabel da Costa, diagnosticada com Alzheimer e demência aos 94 anos.

No início, Isabel precisava apenas de atenção constante, mas logo perdeu a autonomia. Aos 95 anos, uma queda agravou o quadro e a deixou acamada por dois anos.

“Ela não comia sozinha, não tomava banho sozinha. Eu cuidava de tudo — da higiene, da comida, das roupas, da casa. Por muitas vezes passava dias no hospital sem voltar para minha casa”, lembra Ana.

A rotina extenuante fez com que ela deixasse o trabalho, o convívio social e até o autocuidado. “Eu sentia muita exaustão, não tinha tempo pra mim, às vezes esquecia até de tomar banho”, diz. A maioria dos familiares morava longe e os mais próximos não se dispuseram a ajudar. “Ou era eu, ou ela ficava sozinha”, lamenta.

Mesmo com todas as renúncias, Ana carrega um sentimento de gratidão: “Eu já poderia estar aposentada, outras amigas estão. Parei no tempo, mas não me arrependo. Çembro que, mesmo ‘caduca’, trocando a fralda da minha avó, ela voltava à consciência e dizia: ‘A que ponto eu cheguei, minha filha!’ E eu respondia: ‘A senhora já cuidou tanto de mim, agora eu cuido da senhora’.”

Foto colorida de idosa vestida com blusa florida de cor laranja enquanto sorri - Metrópoles.
Isabel morreu aos 100 anos em 2020. Desde então, Ana voltou ao mercado de trabalho na tentativa de recuperar o tempo que passou em segundo plano

A sobrecarga invisível

A psicóloga Carmela Silvana da Silveira, da Santa Casa de São José dos Campos (SP), explica que casos como o de Ana são mais comuns do que se imagina. “Os cuidadores enfrentam sobrecarga emocional, ansiedade, pânico, insônia, angústia e uma grande preocupação. Eles perdem tempo de lazer e de autocuidado, sentindo um peso emocional considerável por cuidar intensamente do idoso”, aponta.

Segundo ela, o esgotamento emocional é um dos principais riscos desse tipo de dedicação. O estresse crônico pode gerar ansiedade, depressão e desgaste físico, como dores e fadiga, prejudicando a saúde geral e a qualidade do cuidado oferecido.

Entre os sinais de alerta, Carmela cita cansaço extremo, tristeza profunda, irritabilidade e isolamento social. “É como se o cuidador carregasse o mundo nas costas e não encontrasse espaço para si.”

“Cuidar de si não é egoísmo”

Para a psicóloga Carolina Batitucci, o impacto psicológico vai além do cansaço físico. Quando alguém se torna cuidador, não é só esforço prático que é oferecido. Existem mudanças profundas na relação com o outro e na percepção de si mesmo. No caso da Ana, o envelhecimento do familiar, por exemplo, confronta o cuidador com a própria finitude e pode gerar grande sofrimento emocional.

A especialista lembra que o autocuidado costuma ser negligenciado por culpa e por uma cultura que associa exaustão à dedicação. “Cuidar não é simples. Há um trabalho real envolvido nessa tarefa, e é fácil se perder entre as demandas do outro e esquecer de cuidar de si. Nossa sociedade ainda vê o descanso como luxo, não como necessidade”, afirma.

Carolina destaca que o estresse contínuo e a falta de pausas podem se manifestar em sintomas físicos, como fadiga, dores e doenças psicossomáticas. “A saída está em reconhecer limites e aceitar ajuda. Cuidar de si não é egoísmo, é o que permite continuar cuidando com qualidade”, diz.

Foto colorida de mãos de pessoa jovem segurando mãos de idoso. - Metrópoles.
Famílias inteiras mudam de vida para cuidar de idosos e doentes

Luto antecipado e solidão

A psicóloga Samara Morais reforça que o sofrimento do cuidador é também emocional. “No caso de doenças crônicas e progressivas, como o Alzheimer, o cuidador vivencia um processo de luto antecipado. Ele assiste, gradualmente, à perda das capacidades e da identidade de alguém querido”, conta a profissional.

Entre os sinais de esgotamento estão cansaço constante, alterações no sono, irritabilidade, isolamento e culpa. É comum o cuidador se sentir sobrecarregado e achar que está falhando por não conseguir dar conta de tudo.

O apoio psicológico é essencial para reconstruir o equilíbrio. A terapia oferece um espaço seguro para o cuidador expressar sentimentos de culpa e exaustão, elaborar o luto e fortalecer os vínculos sociais. Isso ajuda a resgatar o sentido da própria vida, que muitas vezes fica suspensa enquanto se cuida do outro.

As especialistas concordam que o cuidado com o cuidador deve ser visto como parte do processo de atenção aos necessitados.


Como cuidar de quem cuida

  • Reservar momentos diários para si mesmo, mesmo que breves, como caminhar ou ler.
  • Aceitar ajuda de familiares e amigos — dividir tarefas reduz o esgotamento.
  • Manter uma rotina estruturada, que inclua pausas e lazer.
  • Participar de grupos de apoio.
  • Buscar acompanhamento psicológico, que ajuda a lidar com culpa, fadiga e isolamento.

“Dividir responsabilidades é essencial. Cuidar de quem cuida é também promover saúde para toda a família”, afirma Carmela.

Ana Cláudia resume o sentimento que une milhares de cuidadores informais pelo país: “Foi cansativo, doloroso, mas eu faria tudo de novo. Ela cuidou de todos e foi cuidada com muito amor até o último minuto”, diz.

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