Saiba por que ainda não é possível confirmar eficácia da polilaminina
Substância viralizou após relatos de recuperação, mas estudos ainda avaliam segurança e não permitem afirmar benefício clínico
atualizado
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Nos últimos dias, a polilaminina virou assunto nas redes sociais após relatos de pacientes com lesão medular que teriam recuperado movimentos depois do uso da substância experimental. A repercussão despertou esperança, mas também dúvidas sobre o que já se sabe de fato e o que ainda está em investigação sobre a substância.
Desenvolvida por pesquisadores da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), a polilaminina é uma molécula baseada na laminina, proteína presente no organismo e envolvida na organização e regeneração de tecidos.
A Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) autorizou em janeiro o início de estudos clínicos para avaliar a segurança do uso da substância em pessoas com trauma raquimedular, etapa inicial antes de qualquer comprovação de eficácia.
Ao menos 28 pessoas já receberam a medicação experimental por meio de autorizações específicas. Alguns casos ganharam grande repercussão, com imagens que mostram pacientes paraplégicos recuperando parte dos movimentos e até voltando a andar.
Apesar disso, ainda não é possível confirmar se a polilaminina foi a responsável direta por essas melhoras.
Por que ainda é cedo para conclusões?
Segundo o neurologista e neurocirurgião Amauri Araújo Godinho, do Hospital Santa Lúcia, em Brasília, a recuperação após lesão medular é um processo complexo e influenciado por diversas variáveis.
“O trauma raquimedular é uma condição muito complexa. A classificação do paciente pode mudar com o tempo, após cirurgias ou estabilização clínica. Algumas recuperações podem ocorrer naturalmente, o que torna difícil atribuir o resultado apenas à substância”, explica.
Ele ressalta que os primeiros estudos envolveram grupos pequenos e com perfis diferentes de lesão, o que dificulta comparações mais precisas.
“O número inicial de pacientes foi muito pequeno para conclusões definitivas. Precisamos de amostras maiores e mais padronizadas para saber se realmente houve efeito do tratamento”, esclarece.
Apesar das limitações metodológicas, o especialista pondera que pequenos ganhos funcionais representam grande impacto para quem vive com sequelas graves.
“Para alguém que não consegue sequer segurar um talher, recuperar algum movimento já significa mais independência. Isso é extremamente relevante do ponto de vista individual, mas é diferente de afirmar recuperação completa ou efeito comprovado”, afirma.
Etapas necessárias antes de confirmar eficácia
A neurologista Luciana Barbosa, coordenadora do serviço de Neurologia do Sírio-Libanês em Brasília, explica que todo novo medicamento precisa passar por fases progressivas de pesquisa antes de se confirmar o benefício.
“Primeiro precisamos saber se a substância é segura para humanos, se não causa danos e qual a dose adequada. Só depois vêm estudos maiores para avaliar a resposta ao tratamento”, diz.
É justamente essa etapa inicial de segurança que está em andamento. Após essa fase, se os dados mostrarem que o produto é seguro, os estudos avançam para fases seguintes, que incluem mais participantes e têm como objetivo avaliar dose ideal e eficácia de forma mais estruturada.
A especialista destaca que vários fatores precisam ser controlados para interpretar corretamente os resultados, como o tipo e a gravidade da lesão, o tempo desde o trauma, as cirurgias realizadas e a possibilidade de recuperação espontânea.
“Sem esse controle, não dá para saber se a melhora veio da substância ou do próprio processo natural de recuperação. Por isso são necessários estudos maiores, com critérios rigorosos e acompanhamento cuidadoso”, explica.
Ela também lembra que o uso antecipado de substâncias ainda em avaliação exige cautela. “Às vezes uma medicação parece promissora no início, mas depois se mostra ineficaz ou até insegura. Por isso a fase de segurança é fundamental”, diz.
Os relatos individuais e as melhoras observadas são considerados importantes e ajudam a orientar as próximas etapas da pesquisa. No entanto, para afirmar com segurança que a polilaminina é responsável pela recuperação de movimentos, será necessário concluir os estudos clínicos em andamento e analisar os dados de forma sistemática.
