Mosquitos vacinados podem acabar com transmissão de vírus por morcegos
Pesquisa chinesa testa uso de mosquitos para vacinar morcegos contra os vírus da raiva e Nipah e reduzir risco de transmissão para humanos
atualizado
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Pesquisadores investigam uma estratégia inusitada para conter a disseminação de vírus perigosos transmitidos por morcegos. A proposta é utilizar mosquitos geneticamente modificados para transportar vacinas em sua saliva e, ao picar os animais, imunizá-los contra infecções como raiva e Nipah.
A ideia foi testada em laboratório por cientistas na China e os resultados foram publicados na revista Science Advances em 26 de fevereiro.
Nos experimentos, mosquitos da espécie Aedes aegypti foram alimentados com sangue contendo vacinas contra os dois vírus. Depois de ingeridas, as partículas vacinais se multiplicaram dentro do inseto e chegaram às glândulas salivares, permitindo que os mosquitos transmitissem a vacina ao picar morcegos ou quando os animais ingeriam os insetos.
A estratégia chama atenção porque os morcegos são reservatórios naturais de diversos vírus capazes de infectar outras espécies, muitas vezes sem que os próprios animais apresentem sintomas. Entre eles estão o vírus da raiva e o vírus Nipah, que já provocou surtos em vários países asiáticos e pode ter taxa de mortalidade de até 75% em humanos.
Por isso, encontrar formas de reduzir a circulação desses patógenos nas populações de morcegos pode ajudar a diminuir o risco de transmissão para outros animais e para as pessoas.
Resultados em animais de laboratório
Nos testes realizados em laboratório, camundongos e morcegos expostos aos mosquitos portadores da vacina contra a raiva produziram anticorpos capazes de neutralizar o vírus. Quando esses animais foram posteriormente expostos ao patógeno, conseguiram sobreviver à infecção.
Experimentos semelhantes foram feitos com a vacina contra o vírus Nipah. Camundongos, hamsters e morcegos também desenvolveram anticorpos após a exposição aos mosquitos.
Segundo a virologista Aihua Zheng, da Academia Chinesa de Ciências em Pequim e coautora do estudo, a equipe não conseguiu realizar testes diretos de infecção em morcegos vacinados contra o Nipah porque não tinha acesso a laboratórios de biossegurança capazes de manipular o vírus com segurança.
Em vez disso, os pesquisadores compararam os níveis de anticorpos dos morcegos vacinados com os observados em hamsters. Como os roedores com níveis semelhantes estavam protegidos contra o vírus, os cientistas consideram provável que os morcegos também estariam protegidos.
Desafios para aplicar a estratégia na natureza
Apesar dos resultados promissores, pesquisadores apontam que levar essa estratégia para o ambiente natural ainda apresenta muitos desafios.
Vacinar morcegos diretamente é complicado, já que esses animais vivem em grandes colônias, se abrigam em cavernas e percorrem longas distâncias. Por isso, métodos indiretos de vacinação vêm sendo estudados.
No caso dos morcegos frugívoros, conhecidos como raposas voadoras e considerados hospedeiros naturais do vírus Nipah, os pesquisadores testaram outra alternativa. Como esses morcegos não costumam se alimentar de mosquitos, a equipe desenvolveu bebedouros contendo uma solução com a vacina.
Nos testes, morcegos e camundongos que beberam o líquido também produziram anticorpos contra a raiva e o Nipah.
Além disso, os pesquisadores destacam que ainda se sabe relativamente pouco sobre o sistema imunológico dos morcegos e sobre quanto tempo a imunidade gerada pelas vacinas poderia durar.
Outro ponto é a enorme diversidade desses animais. Existem mais de 1,5 mil espécies de morcegos no mundo, o que significa que estratégias de vacinação provavelmente precisariam ser adaptadas para diferentes espécies e vírus.
Por isso, a equipe responsável pelo estudo afirma que novos testes serão necessários antes que a técnica possa ser considerada para uso fora do laboratório. Segundo Zheng, qualquer tentativa de aplicar a estratégia em campo exigiria avaliações rigorosas de segurança e aprovação das autoridades regulatórias.
