Fumaça de queimadas pode alcançar alvéolos e entrar na corrente sanguínea
Médicos reforçam que lavagem nasal e umidificadores aliviam sintomas locais, mas não impedem a inalação de poluentes profundos
07/10/2026 08:00

Quando há um aumento do número de queimadas, cresce também a preocupação com a fumaça, especialmente em períodos de seca. A inalação do material particulado fino (PM2,5) pode ultrapassar a barreira do trato respiratório superior, alcançar os alvéolos pulmonares e entrar na corrente sanguínea, desencadeando processos inflamatórios sistêmicos.
O fenômeno é decorrente da queima da cobertura vegetal e de materiais orgânicos durante a estiagem, elevando a concentração de poluentes no ar e exigindo medidas de contenção individual para evitar problemas de saúde.
O risco associado à fuligem depende da dimensão das partículas suspensas. O pneumologista Marcelo Macchione destaca que a fumaça é composta por uma mistura complexa de gases e elementos sólidos altamente agressivos.

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Ver todas“Entre os componentes que mais preocupam estão o material particulado fino, especialmente o PM2,5, monóxido de carbono, óxidos de nitrogênio e diferentes compostos orgânicos. As partículas menores conseguem alcançar regiões profundas dos pulmões, chegando aos alvéolos, e parte dos efeitos dessa exposição pode repercutir também na circulação sanguínea e em outros órgãos”, explica Macchione.
Grupo que sofre maiores riscos
Crianças, idosos, gestantes e indivíduos com doenças cardiovasculares ou respiratórias crônicas, como asma e doença pulmonar obstrutiva crônica (DPOC), formam o grupo de maior vulnerabilidade. A anatomia do aparelho respiratório infantil, somada a uma frequência ventilatória proporcionalmente maior, aumenta a absorção de poluentes por quilo de massa corporal. Nos idosos, a menor reserva funcional dos órgãos acelera descompensações clínicas.
Entre no canal de WhatsApp do Metrópoles Saúde e CiênciaMedidas preventivas
Para amenizar a entrada do material poluente no organismo, o isolamento dos ambientes internos surge como a primeira linha de defesa. A médica alergista e imunologista Brianna Nicoletti orienta que o manejo correto das residências é fundamental para impedir a circulação das partículas.
“Janelas e portas devem permanecer fechadas nos períodos de pior qualidade do ar, principalmente nos cômodos onde a família passa mais tempo. Também é importante evitar fontes de poluição dentro de casa, como cigarro, velas, incensos e produtos com cheiro muito forte”, afirma a médica.
Brianna acrescenta que a limpeza doméstica deve priorizar o uso de pano úmido para evitar que a poeira assentada volte a flutuar no ar.
Recursos como bacias de água, toalhas úmidas e umidificadores eletrônicos aliviam o desconforto provocado pelo ar seco nas mucosas oculares e nasais, mas não purificam o ambiente. O excesso de umidade sem a higienização constante dos aparelhos pode proliferar fungos e ácaros. Já os purificadores equipados com filtro HEPA (High Efficiency Particulate Air) conseguem reter fração expressiva do material particulado, desde que adequados à metragem do cômodo e com manutenção em dia.
Nas ocasiões em que o deslocamento externo for inevitável, o uso de máscaras de pano ou cirúrgicas mostra-se insuficiente contra as partículas finas. A proteção efetiva requer respiradores com vedação facial adequada e capacidade de filtração certificada.
“Para reduzir a inalação de partículas finas, respiradores do tipo PFF2 ou N95, quando bem ajustados ao rosto, oferecem proteção muito superior à das máscaras cirúrgicas. O ajuste é fundamental, porque espaços nas laterais permitem a entrada do ar sem passar pelo filtro”, ressalta Macchione.
O médico pontua que, embora retenham material sólido, esses equipamentos não filtram a totalidade dos gases tóxicos, tornando indispensável evitar a permanência prolongada em áreas contaminadas.
A prática de exercícios físicos ao ar livre deve ser suspensa durante episódios de qualidade do ar inadequada, pois a hiperventilação multiplica o volume de ar poluído inalado. O cuidado diário pode incluir a lavagem nasal com solução salina para remoção mecânica de resíduos da mucosa, embora o hábito não funcione como barreira preventiva contra a penetração alveolar.
A exposição contínua e repetida à fuligem está associada à redução da função pulmonar e ao desenvolvimento de processos inflamatórios crônicos. Sintomas como falta de ar progressiva, chiado no peito, dor torácica ou alteração no nível de consciência sinalizam necessidade de atendimento médico imediato, especialmente em pacientes sem resposta à medicação de resgate habitualmente prescrita.



