Em oito anos, DF registra aumento de 334% em casos de sífilis

Desinformação, prática sexual sem preservativos e obrigatoriedade de notificações estão entre as causas do crescimento

atualizado 07/12/2019 18:06

O aumento dos casos de sífilis no Brasil vem sendo considerado como uma epidemia silenciosa. No Distrito Federal, os registros da infecção aumentaram 334% nos últimos oito anos, segundo dados da Secretaria de Saúde (SES). Os números pularam de 424, em 2010, para 1.841 ocorrências da infecção em 2018.

No âmbito nacional, os dados também assustam. No mesmo recorte temporal, segundo o Ministério da Saúde, o país teve aumento de 4.000% de casos de sífilis adquirida, saindo de 3.929 (em 2010) para 158.051 casos (2018). Para a pasta, “o aumento de pessoas infectadas se deve à obrigatoriedade da notificação dos casos, pelos gestores locais, que passou a valer a partir de agosto de 2010”.

No DF, os homens continuam a ser os mais afetados pela infecção. Em 2010, eles eram maioria com 270 casos, enquanto as mulheres apresentaram 154 casos. Em 2018, foram registrados 1.392 casos no sexo masculino contra 449 no sexo feminino. Os números de 2017 apontam 1.588 casos de sífilis adquirida, sendo 1.078 casos em homens e 510 em mulheres.

De acordo com o professor de Enfermagem do Centro Universitário IESB, Rodolfo José Vitor, a infecção voltou a atingir altos patamares devido à desinformação. “A falta de conhecimento da população em relação à transmissão é o que explica o aumento”, afirma.

Outro problema, segundo Vitor, é que as pessoas que contraem a infecção desconhecem que precisam fazer o tratamento completo. Além disso, caso estejam em um relacionamento, o parceiro ou parceira também precisa ser tratado. “Geralmente, o tratamento é feito somente com o portador, que é quem procura o atendimento. O ideal é tratar junto com o parceiro ou parceira sexual”, explica.

ISTs é preocupação da Secretaria de Saúde
A gerente de Vigilância de Infecções Sexualmente Transmissíveis da Vigilância Epidemiológica da Secretaria de Saúde, Carina Matos, não minimiza o crescimento dos casos, mas reforça que os números de 2010 não são compatíveis com a realidade.

“O crescimento do número de casos nos preocupa e temos um plano de enfrentamento para frear o avanço da sífilis. Hoje a testagem rápida é feita em todos as unidades básicas do DF. Não é à toa que, desde 2013, os casos vem aumentando, isso é porque estamos fazendo mais diagnósticos”, defende.

Para tentar conter a epidemia das Infecções Sexualmente Transmissíveis (ISTs), Carina aponta as ações da SES em todas as unidades de saúde: ampliação da grade de testagem rápida, tratamento para as ISTs, distribuição de preservativos e géis lubrificantes – que também ajudam na prevenção -, e capacitação dos servidores para tratarem sobre o tema.

“Nós temos, enquanto Secretaria de Saúde, todo a aparato para diagnósticos, exames, tratamentos, monitoramento, insumos de prevenção”, afirma.

Para Carina Matos, uma das explicações para o aumento do número de ISTs é que as pessoas estão se expondo mais às doenças sexualmente transmissíveis por não usarem preservativos.

“A sífilis é uma IST curável, mas não podemos esquecer que ela é porta de entrada de outras infecções. Prevenção é tudo”, diz.

A gerente de Vigilância de Infecções Sexualmente Transmissíveis da Vigilância Epidemiológica afirma que o tabu em relação ao assunto sexo é uma barreira ao enfrentamento das ISTs.

“Ainda hoje as pessoas têm vergonha de falar que tiveram doença sexualmente transmissíveis, o que não ocorre no caso de uma amigdalite, por exemplo. Esse tabu influencia na busca do diagnóstico e no tratamento. A pessoa pode passar até 40 anos assintomática. Dependendo dos primeiros sintomas, que é uma úlcera na região genital, o paciente não sente dor. Isso acaba prejudicando e a doença vai se disseminando”, defende Carina.

O que é? 
A sífilis é uma infecção bacteriana sexualmente transmissível causada pela Treponema Pallidum. Curável e exclusiva do ser humano, a infecção pode apresentar várias manifestações e diferentes estágios (sendo eles sífilis primária, secundária, latente e terciária). Nos estágios primário e secundário da infecção, a possibilidade de transmissão é maior. Por não apresentar sintomas, são comuns as transmissões nessas etapas.

A bactéria pode ser contraída por meio de relação sexual sem camisinha com uma pessoa infectada. A infecção também pode ser transmitida pela mãe infectada para o bebê na gestação ou no parto, causando a sífilis congênita. Portanto, o acompanhamento das grávidas durante o pré-natal é fundamental para o controle da infecção.

Como prevenir?
O uso correto e regular da camisinha feminina ou masculina (as duas são entregues gratuitamente nas unidades de saúde) é a medida mais importante de prevenção da sífilis, por se tratar de uma Infecção Sexualmente Transmissível (IST). O acompanhamento das gestantes e parceiros sexuais durante o pré-natal contribui para o controle da sífilis congênita.

Como é feito o tratamento da sífilis?
O tratamento padrão é a penicilina benzatina (benzetacil), que poderá ser aplicada na unidade básica de saúde mais próxima da residência do paciente. Esta é, até o momento, a principal e mais eficaz forma de combater a bactéria causadora da infecção. O não tratamento da sífilis pode levar a várias doenças e complicações, inclusive à morte.

Como é feito o diagnóstico?
O teste rápido (TR) de sífilis está disponível nos serviços de saúde do SUS, sendo prático e de fácil execução, com leitura do resultado em, no máximo, 30 minutos.

Nos casos de TR positivos (reagentes), no caso da sífilis adquirida em homens e mulheres adultos, uma amostra de sangue deverá ser coletada e encaminhada para realização de um teste laboratorial para confirmação do diagnóstico.

Quais são os sinais e sintomas?
Uma pessoa pode ter sífilis e não saber, isso porque a infecção pode aparecer e desaparecer, seguindo latente no organismo. Os sinais e sintomas da sífilis variam de acordo com o estágio da infecção, sendo importante analisar caso a caso.

O mais comum é uma ferida, geralmente única, no local de entrada da bactéria (pênis, vulva, vagina, colo uterino, ânus, boca, ou outros locais da pele), que aparece entre 10 a 90 dias após o contágio. Ínguas (caroços) na virilha, manchas no corpo – incluindo palmas das mãos e plantas dos pés, febre, mal-estar e dor de cabeça também estão entre os sintomas.

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