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Clinomania: desejo excessivo de ficar na cama pode não ser preguiça

A clinomania vai além da preguiça e pode estar relacionado a alterações no sono, depressão ou esgotamento emocional

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Foto colorida de uma mulher dormindo - Metrópoles
1 de 1 Foto colorida de uma mulher dormindo - Metrópoles - Foto: Getty Images

A dificuldade extrema de sair da cama pela manhã pode parecer apenas preguiça, mas em alguns casos, revela algo mais profundo. A clinomania, termo usado para descrever o desejo persistente de permanecer deitado mesmo sem sono, é um comportamento que vem sendo observado em pessoas com distúrbios do sono, depressão ou fadiga crônica.

O problema não está apenas em dormir mais do que o necessário, mas em sentir um desejo quase irresistível de permanecer na cama. Mesmo após horas de descanso, a pessoa acorda sem energia, com o corpo pesado e a mente lenta. O leito passa a representar o único lugar de conforto, o que pode interferir no trabalho, na convivência social e no autocuidado.

O que é clinomania e como ela se manifesta

A clinomania não se trata de uma escolha consciente de descansar mais, mas sim de um desejo intenso de permanecer deitado, mesmo sem sono ou necessidade fisiológica. O ato de levantar pode parecer um esforço desproporcional, e, em muitos casos, há o sentimento de culpa por “não conseguir reagir”.

Esse comportamento costuma surgir quando o sono perde sua função restauradora. A pessoa dorme, mas acorda exausta, como se o descanso não tivesse cumprido seu papel. Isso ocorre porque o cérebro pode não atingir os estágios profundos de sono, essenciais para a recuperação física e mental.

Segundo Gleison Marinho Guimarães, médico intensivista, pneumologista e especialista em sono, o que diferencia a clinomania do simples hábito de dormir mais é a intensidade do desejo de permanecer na cama e nas consequências desse comportamento para a rotina e o bem-estar da pessoa.

“Diferentemente de quem dorme mais por hábito, na clinomania há sofrimento, culpa e impacto funcional. A pessoa quer sair da cama, mas não consegue. É fundamental entendermos que se trata de um fenômeno clínico e não apenas comportamental”, esclarece o profissional que atende no Rio de Janeiro.

Além de causas fisiológicas, o ambiente emocional e estilo de vida têm grande influência. Situações de estresse prolongado, jornadas irregulares de trabalho, luto, desemprego ou rotinas sem estrutura podem favorecer a clinomania. Ambientes com pouco suporte social e excesso de responsabilidades também contribuem.

Clinomania, depressão e distúrbios do sono

A clinomania frequentemente se manifesta junto a outros problemas de saúde mental e do sono. Pesquisas indicam que a doença tem forte associação com sintomas depressivos, principalmente a anedonia — a incapacidade de sentir prazer e motivação.

Além disso, ela pode estar relacionada a distúrbios do sono que comprometem a qualidade do descanso. Quem sofre de insônia de manutenção, por exemplo, acorda diversas vezes durante a noite e não consegue atingir estágios profundos de sono.

Foto colorida de mulher deitada na cama. Ela está acordada - Metrópoles
A palavra clinomania vem do grego, combinando “clino” (cama) e “mania” (vício ou loucura), indicando fixação excessiva pela cama

Situações como apneia obstrutiva do sono também contribuem: as interrupções respiratórias provocam microdespertares e reduzem a oxigenação, fazendo com que o corpo permaneça cansado mesmo após muitas horas de sono.

Quando buscar ajuda profissional

Segundo o psicólogo Wanderson Neves, de São Paulo, é importante diferenciar momentos de desmotivação passageira de quadros que realmente exigem acompanhamento terapêutico.

Considerando sinais, duração e efeito sobre a rotina, os especialistas ouvidos pelo Metrópoles apontam como identificar quando a desmotivação exige avaliação profissional. Confira:

  • Tempo de duração: situações passageiras duram poucas horas ou dias, enquanto episódios persistentes por duas semanas ou mais podem indicar problema sério.
  • Número e intensidade de sintomas: a presença de múltiplos sinais depressivos, como humor baixo ou perda de interesse em atividades antes prazerosas, sugere um quadro mais complexo.
  • Alteração na rotina: quando o desejo de permanecer na cama compromete trabalho, estudos, relacionamentos ou cuidados pessoais, é necessário buscar ajuda.
  • Sinais de risco: pensamentos suicidas, descuido extremo consigo mesmo, isolamento prolongado ou abuso de substâncias exigem intervenção imediata.
  • Resposta a mudanças simples: se ajustes básicos na rotina, como horários regulares de sono e despertar, não produzem melhora em uma ou duas semanas, o acompanhamento profissional deve ser considerado.
“Do ponto de vista clínico, é útil perguntar o que a cama permite evitar. Com ela, muitas vezes nos esquivamos de preocupações, conflitos ou tarefas. Se a resposta indica que há uma fuga emocional, isso ajuda a orientar a intervenção, com o objetivo de reduzir a evasão e aumentar estratégias adaptativas”, explica Wanderson.

Tratamento da clinomania

O tratamento da clinomania depende da causa identificada. Em casos relacionados a distúrbios do sono, pode ser necessário o uso de aparelhos como o CPAP para apneia ou ajustes no ritmo circadiano, buscando melhorar a qualidade do descanso.

Quando o problema envolve saúde mental, terapias cognitivas e comportamentais ajudam a lidar com pensamentos automáticos e retomar gradualmente a rotina. Técnicas de ativação comportamental, como levantar, vestir-se ou sair de casa por alguns minutos, contribuem para restaurar o ciclo vigília-sono e recuperar a sensação de energia.

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