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Saúde

Ciclista atropelado fica 9 meses com peça de bicicleta na barriga

Erro médico em atendimento após acidente fez ciclista ficar 9 meses com acionador do freio na barriga e perder carreira no karatê

23/08/2025 02:00, atualizado 27/08/2025 10:35
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Reprodução/Acervo pessoal
Jovem ficou com acionador de freio de bicicleta preso em seu quadril por meses (3)

O atleta Mykaell Christopher Santos Vieira, de 22 anos, teve seu sonho de disputar competições de karatê interrompido ao ser atropelado em março de 2023 enquanto andava de bicicleta. O ciclista ia ao trabalho — atuava como empacotador em um mercado para juntar dinheiro para participar das competições — quando um carro saindo de um estacionamento avançou sobre ele.

O acidente foi grave e Mykaell foi levado de ambulância para o Hospital de Emergência Oswaldo Cruz, em Macapá (AP), onde ele vive. O atendimento dado ao atleta, porém, não identificou que o acionador de freio da bicicleta havia se alojado perto de sua pelve com o impacto da batida.

Dores por 9 meses

Durante os 9 meses em que o objeto metálico esteve instalado em sua barriga, o atleta reclamou de dores na região. “Eram muito fortes, sentia dores no abdômen e quadril e muitas vezes fiquei mancando ou arrastando a perna. Eram dores parecidas com pontadas, mas em uma escala muito grande. Eu não conseguia nem caminhar direito”, lembra o jovem.

As dores intensas fizeram, inclusive, o Mykaell ser demitido do trabalho no mercado — os chefes o acusaram de estar fazendo “corpo mole”. O problema também comprometeu sua capacidade de treinar. Sem conseguir mais suportar as dores, em novembro de 2023 ele fez exames de imagem, pagos por conta própria, que revelaram que a peça dentro do seu corpo.

“Foi um choque! Eu, sendo atleta, sabia que tinha passado por um risco muito grande de movimentação por ter aquele manete ali, então o procedimento foi feito às pressas”, diz. Segundo o macapaense, os médicos chegaram a informá-lo que ele havia sofrido um grave risco de ficar em cadeira de rodas ou falecer por infecções e movimentações da peça em seu organismo.
Ciclista atropelado fica 9 meses com peça de bicicleta na barriga - destaque galeria
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Ele ficou nove meses com a peça metálica em seu corpo
Exame de imagem mostra peça alojada no quadril do jovem
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Exame de imagem mostra peça alojada no quadril do jovem

Reprodução/Acervo pessoal
Ele ficou nove meses com a peça metálica em seu corpo
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Ele ficou nove meses com a peça metálica em seu corpo

Reprodução/Acervo pessoal

Lidando com o trauma

Mykaell voltou ao hospital em que foi operado inicialmente e exigiu a retirada da peça de seu corpo. Após a cirurgia, ele recebeu alta e não sentiu mais dores.

A recuperação, porém, envolveu meses de fisioterapia, uso de muletas e afastamento dos treinos. A interrupção ocorreu em fase decisiva da carreira, quando ele se preparava para exames de faixa preta e competições de karatê.

Hoje, o atleta voltou a treinar e conseguiu, graças à fisioterapia, voltar a caminhar normalmente. O trauma, porém, afetou também sua saúde mental. “Desenvolvi um quadro de depressão e ansiedade severa. Tive várias crises e pesadelos com os médicos falando que, pela lógica, eu deveria estar morto”, lembra.

Decisão judicial dá indenização de R$ 91 mil

Após o trauma, Mykaell procurou um advogado em busca de um ressarcimento pelos danos de saúde e pelos prejuízos que enfrentou pelo descuido da equipe médica.

O caso resultou em ação de indenização por danos morais contra o Estado do Amapá. A Justiça reconheceu a omissão específica no atendimento e confirmou a responsabilidade civil do hospital diante da negligência médica, mas o estado recorreu. O Tribunal de Justiça do Amapá negou o recurso e fixou a indenização em 25 salários mínimos.

“O Estado é obrigado a indenizar quando causa prejuízos físicos ou psicológicos. Não é preciso provar culpa, apenas que houve conduta comissiva ou omissiva, dano e nexo causal. No caso deste atleta de karatê, o erro médico gerou um prejuízo significativo: ele precisou de acompanhamento psicológico, ficou impossibilitado de treinar e competir, sendo afastado compulsoriamente da atividade que mais amava”, explica o advogado Wendell Galeno, que atuou no caso.

Atendimento falhou, diz jovem

Para Mykaell, é evidente que houve um descaso no atendimento dado a ele. “Os médicos só pediram raio-x do tórax e do joelho, mas eu disse que estava sentindo fortes no quadril e eles não examinaram. Só fizeram uma sutura”, diz o jovem macapaense.

O médico Marcelo Tadeu Caiero, conselheiro da Sociedade Brasileira do Trauma Ortopédico (SBTO), explica que o procedimento padrão para atendimento de motoqueiros e ciclistas atropelados inclui a realização de exames de imagem para avaliar a presença de corpos estranhos ou de traumatismos no quadril.

“Geralmente, o acidentado sofre fraturas nos membros inferiores e quadril, nos membros superiores, além de lesões na cabeça e no pescoço. Podem ocorrer, ainda, hemorragias causadas por rupturas de grandes vasos, lesões nos órgãos vitais ou infecções generalizadas decorrentes dos traumas, com alto risco de morte”, explica.

A Secretaria de Saúde do Amapá foi procurada para comentar o caso, mas não respondeu até o fechamento da reportagem.

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