CAR-T: como o Brasil avança no tratamento inovador contra o câncer

Projeto CARTHIAE visa desenvolver a tecnologia de células CAR-T com foco na aplicação clínica e no desenvolvimento de um modelo acessível

atualizado

metropoles.com

Compartilhar notícia

Thom Leach/Science Photo Library/Getty Images
Ilustração representando a terapia com linfócitos infiltrantes de tumor (TIL) para o tratamento do câncer. Durante a terapia com TIL, células T (azuis) que reconhecem células tumorais (vermelhas) são obtidas do paciente. Metrópoles
1 de 1 Ilustração representando a terapia com linfócitos infiltrantes de tumor (TIL) para o tratamento do câncer. Durante a terapia com TIL, células T (azuis) que reconhecem células tumorais (vermelhas) são obtidas do paciente. Metrópoles - Foto: Thom Leach/Science Photo Library/Getty Images

* O artigo foi escrito por Nelson Hamerschlak, pesquisador do Instituto Israelita de Ensino e Pesquisa Albert Einstein, e publicado na plataforma The Conversation Brasil. 

O Brasil desenvolve atualmente um ecossistema de pesquisa para a tecnologia de células CAR-T, com diferentes iniciativas em andamento e crescente articulação entre centros acadêmicos e instituições públicas. Nesse cenário, o Instituto de Ensino e Pesquisa Albert Einstein conduz um dos projetos mais avançados, com foco tanto na aplicação clínica da terapia quanto no desenvolvimento de um modelo nacionalizado de produção, capaz de ampliar o acesso aos pacientes e reduzir custos.

A terapia de células CAR-T (Chimeric Antigen Receptor T-cell) é uma modalidade avançada de tratamento oncológico que consiste em coletar células T – células do sistema imune responsáveis por atacar infecções e tumores – do próprio paciente, modificá-las geneticamente por meio de um vetor viral e reinfundi-las após expansão laboratorial. O processo resulta em células capazes de reconhecer um alvo tumoral específico e atacar células malignas.

Nos modelos comerciais tradicionais, as células precisam ser enviadas a fábricas no exterior, o que eleva o custo total do tratamento que inclui internação, exames e manejo de possíveis complicações. Além disso, o tempo entre coleta e infusão costuma variar de 30 a 50 dias, o que pode comprometer o tratamento de pacientes com progressão rápida da doença.

O projeto CARTHIAE, do Einstein, foi o primeiro estudo clínico brasileiro aprovado pela Anvisa para processamento integral em território nacional. A tecnologia adotada segue o modelo “point-of-care”, no qual todo o processo — coleta, manipulação e infusão — ocorre na própria instituição. Isso reduz o tempo “veia-a-veia” para cerca de 12 dias, diminuindo expressivamente os custos.

O estudo de fase 1 do Einstein já tratou cerca de 15 pacientes de um total previsto de 30, todos com doenças linfoides, como linfoma agressivo, leucemia linfocítica crônica e leucemia linfocítica aguda.

Alinhamento com o setor público

A iniciativa faz parte do Programa de Apoio ao Desenvolvimento Institucional do Sistema Único de Saúde (Proadi-SUS), do Ministério da Saúde, do qual fazem parte sete hospitais de excelência – entre eles, o Einstein.

Atualmente o Hospital Albert Einstein lidera mais de 40 projetos em andamento dentro do Proadi-SUS. Entre eles a pesquisa focada em CAR-T, que é estratégica por viabilizar a fabricação nacional desta tecnologia de ponta, com propriedade intelectual compartilhada com o Ministério da Saúde.

Esse alinhamento com o setor público é essencial para garantir que o CAR-T no Brasil nasça com vocação de acesso amplo. Com o objetivo de que, no futuro, tanto pacientes do sistema público quanto privado se beneficiem de terapias de última geração com custo reduzido.

Paralelamente, a instituição desenvolve novos estudos, incluindo um vetor viral anti-BCMA para mieloma múltiplo e pesquisas emergentes em outras condições, como glioblastoma infantil, câncer de pulmão e doenças autoimunes. Entre elas, a miastenia gravis, para a qual um estudo deve ser iniciado no Einstein em breve.

Os projetos são respaldados por certificações internacionais, como a da Foundation for the Accreditation of Cellular Therapy (FACT), concedida ao Centro de Terapias Celulares Avançadas do hospital — o primeiro da América Latina a obter acreditação para terapias com células geneticamente modificadas.

Os resultados preliminares do Projeto CARTHIAE indicam taxa de resposta geral de cerca de 80%, com efeitos colaterais equivalentes aos observados em produtos internacionais. A rapidez no processamento é apontada como uma das principais vantagens clínicas, sobretudo para pacientes com progressão acelerada da doença.

Outro aspecto positivo é que o cenário brasileiro é colaborativo. Além do Einstein, outros centros caminham em direção semelhante. Por exemplo, a USP Ribeirão Preto realizou o primeiro caso de uso compassivo de CAR-T no país e conduz agora um estudo multicêntrico com previsão de incluir 80 pacientes. Já o Instituto Butantan está desenvolvendo em parceria com a China uma terapia CAR-T focada em mieloma múltiplo.

Mais alvos

A Fiocruz, em conjunto com o Inca, atua em vetores virais de interesse nacional, aproveitando sua expertise na produção de vacinas para futura distribuição de vetores a centros de terapia celular “points-of-care” no Brasil e, potencialmente, na América Latina. E a Universidade Federal do Ceará conduz pesquisa voltada a doenças linfoides, atualmente aguardando aprovação regulatória.

A expectativa comum entre os pesquisadores é que a convergência entre essas instituições permita consolidar uma plataforma nacional robusta de terapias avançadas, considerando que a complementaridade entre centros pode acelerar a trajetória científica do país.

No âmbito internacional, estudos recentes sugerem a possibilidade de cura funcional em determinadas condições, principalmente quando o CAR-T é utilizado em linhas mais precoces ou combinado com anticorpos biespecíficos — como no estudo Ambition, do qual o Einstein participa.

Casos apresentados no congresso da Sociedade Americana de Hematologia (ASH) mostram remissões completas sustentadas em até 80% dos pacientes após 5 anos, estimulando a expectativa de que resultados semelhantes possam ser alcançados no Brasil até 2030.

A atuação conjunta de centros brasileiros cria uma base científica sólida para que o Brasil se torne um polo latino-americano de desenvolvimento em terapias avançadas.

Com redução significativa de custos, produção local, aceleração regulatória e parcerias com o SUS, o país constrói as condições necessárias para ampliar o acesso à terapia celular CAR-T e, no futuro, expandir sua aplicação para múltiplos tipos de câncer e doenças autoimunes.The Conversation

Quais assuntos você deseja receber?

Ícone de sino para notificações

Parece que seu browser não está permitindo notificações. Siga os passos a baixo para habilitá-las:

1.

Ícone de ajustes do navegador

Mais opções no Google Chrome

2.

Ícone de configurações

Configurações

3.

Configurações do site

4.

Ícone de sino para notificações

Notificações

5.

Ícone de alternância ligado para notificações

Os sites podem pedir para enviar notificações

metropoles.comSaúde

Você quer ficar por dentro das notícias de saúde mais importantes e receber notificações em tempo real?